Existem momentos históricos capazes de mostrar ao mesmo tempo o melhor e o pior desse paradoxo chamado humanidade, e o 13 de novembro de 2015 foi um desses momentos. Na noite deste dia, em Paris e Saint-Denis, foi deflagrada uma série de atentados terroristas que trouxe choque e horror não apenas à França, mas também a toda a Europa e ao mundo. Às 21 horas daquela noite, tudo começou com explosões em frente ao Stade de France em Saint-Denis, onde ocorria uma partida de futebol entre as seleções da França e da Alemanha. Poucos minutos depois, restaurantes começaram a ser atacados por terroristas armados, e o maior epicentro do terror foi a boate Bataclan. Ao todo, mais de 180 pessoas perderam suas vidas naquela noite.

A nova minissérie documental da Netflix, 13 de Novembro: Terror em Paris, é uma produção francesa e tem como objetivo recordar os eventos daquela tenebrosa noite, pelo ponto de vista das pessoas que estiveram lá e sobreviveram. A minissérie dos cineastas Jules e Gédéon Naudet contém depoimentos de bombeiros, médicos, policiais, vítimas dos atentados, e até da prefeita de Paris e do Presidente francês, François Hollande.

Esses depoimentos são intercalados com imagens do noticiário da época e gravações arrepiantes de telefones celulares. O resultado é um painel bem construído e claro dos eventos daquela noite, com mapas e plantas dos lugares explicando tudo para o espectador. O primeiro dos três episódios aborda os atentados no estádio e nos restaurantes; o segundo e o terceiro se focam no horror dentro do Bataclan e nas repercussões dos atentados para o país e, acima de tudo, para os sobreviventes.

O retrato dos irmãos Naudet é mais humano que político. Em nenhum momento ouvimos falar do Estado Islâmico – grupo que mais tarde assumiu a responsabilidade pelos ataques. Alguns podem pensar que isso poderia deixar o documentário incompleto, mas trata-se de um ponto de vista consciente dos realizadores da minissérie: é o lado humano que toma a precedência, que governa o enfoque dos cineastas e essa opção é de onde o documentário extrai a sua maior força. Afinal, é praticamente impossível não se comover com alguns dos depoimentos dos sobreviventes do Bataclan, ou com o do dono de um dos restaurantes que perdeu a esposa, e mãe da sua filha, na tragédia.

O enfoque humano é tão precedente que percebemos como a invasão policial ao Bataclan foi precipitada e podia ter facilmente resultado em ainda mais mortes – no fim das contas, com a invasão apenas os terroristas morreram, e nenhum refém; e pelo que os sobreviventes contam isso foi mais divido à sorte do que à tática policial.

Uma expressão dita por um dos sobreviventes fica na memória: em meio a todo o caos e morte daquela noite, “bolsões de humanidade” se formaram para socorrer as vítimas ou qualquer um que precisasse de ajuda. 13 de Novembro: Terror em Paris acaba, obviamente, dando destaque ao pior do ser humano, leia-se, a “escrotidão” completa de um bando de sujeitos que, em nome de crenças religiosas e/ou políticas, consideram como dispensáveis as vidas dos seus semelhantes. Mas acaba enfocando até mais o melhor do ser humano, ou seja, os esforços das milhares de pessoas que ajudaram desconhecidos naquela noite sangrenta, às vezes até arriscando as próprias vidas para fazer isso. Em meio a tanta dor e horror, a série acaba trazendo um pouco de conforto e um senso de esperança, e considerando o que aconteceu naquele 13 de novembro, isso acaba se configurando na maior façanha desta ótima produção.

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