Há um divertido momento em 007 Contra Goldfinger no qual o herói da historia, o agente secreto inglês James Bond, faz uma piadinha com os Beatles. “Beber champagne Dom Perignon acima dos 3o Fahrenheit é como ouvir os Beatles sem tapar os ouvidos”, ele diz para a loira maravilhosa que o espera na cama. Era apenas uma alfinetada que hoje parece meio absurda, mas demonstra como os envolvidos na produção artística não têm ideia da forma como ela será recebida pelo publico, tanto o da sua época quanto o de épocas posteriores. Bond desprezando os Beatles parece absurdo hoje porque ambos resistiram ao tempo e se tornaram fenômenos culturais sem igual.

E 007 Contra Goldfinger foi um fenômeno cultural. Em certo sentido, é um filme muito moderno, com efeitos, ação e um protagonista quase super-herói. Sem exagero nenhum, hoje podemos considera-lo como o primeiro grande blockbuster mundial, mais de uma década antes de Tubarão (1975) ou Star Wars: Uma Nova Esperança (1977) consolidarem esse tipo de produção. Goldfinger transformou Sean Connery, o intérprete de James Bond, no maior astro de cinema do mundo, e ajudou a mudar a forma como os filmes de ação e os mega-espetáculos eram feitos.

007 Contra Goldfinger fez tudo isso ao abraçar a natureza do seu material-fonte, os livros do escritor Ian Fleming, que também trabalhou na inteligência britânica durante a Segunda Guerra Mundial. Dentre os livros de Fleming sobre o agente 007, alguns são mais sérios e outros são bem fantasiosos, verdadeiras construções escapistas com tramas grandiosas, personagens rasos, mas carismáticos, e um clima de história em quadrinhos sem desenhos. Goldfinger, o livro, se encaixa nesta segunda categoria e o filme é bem fiel ao livro – apenas alguns detalhes foram modificados.

Foi o terceiro filme da série cinematográfica, depois de 007 Contra o Satânico Dr. No (1962) e Moscou Contra 007 (1963). Mas foi neste que os elementos conhecidos da franquia se aglutinaram de forma completa para criar o “modelo” para os demais filmes de James Bond. Curiosamente, os dois longas anteriores eram meio sérios e com um clima mais realista – fazendo um paralelo com o que temos hoje, é como se eles seguissem o estilo Nolan, investindo na verossimilhança e na construção das situações, mesmo que exageradas, enquanto 007 Contra Goldfinger é um filme da cartilha Marvel, divertido, despretensioso e incapaz de se levar muito a sério.

E isso fica claro logo na sequência de abertura, antes dos créditos: a primeira abertura da franquia na qual vemos Bond em ação. Usando um traje de mergulho, ele invade o complexo de um traficante de drogas, nocauteia alguns guardas e explode o lugar. Por baixo do seu traje, ele veste um terno branco impecável (!) e vai até um bar próximo onde observa uma garota. Mais tarde, ao tentar dar uns amassos nela, ele é atacado por um capanga, mas consegue eletrocutá-lo e depois vai embora. E então a orquestra poderosa e a voz de trovão de Shirley Bassey entram para os créditos de abertura – quem se esquece dela cantando “GOOOOLLLLD… FINGER…”?

Esses primeiros cinco minutos não tem nada a ver com a trama do filme propriamente dita, mas sintetizam o que é James Bond no cinema: ação, sensualidade e um pouco de absurdo. Essa sequência se tornou inspiração para muitos cineastas – James Cameron e Arnold Schwarzenegger a parodiam em True Lies (1994) e Steven Spielberg e George Lucas decidiram começar cada filme do Indiana Jones com uma mini-aventura independente do resto do filme, graças à influência de Bond e Goldfinger em particular.

Depois dos créditos o filme realmente começa e reencontramos Bond em Miami, onde seus contatos da CIA o pedem que ele fique de olho no bilionário Auric Goldfinger (vivido pelo alemão Gert Frobe). Goldfinger é fanático por ouro – no figurino do personagem sempre há algum detalhe em amarelo ou dourado – e está metido em contrabando. Ousado, Bond se aproxima demais e rouba uma das possessões de Goldfinger, a jovem Jill Masterson (Shirley Eaton, que só aparece por poucos minutos, mas tira o fôlego de qualquer espectador masculino da plateia). O vilão retribui matando-a e Bond depois a encontra, pintada de ouro, numas das imagens mais famosas não só da franquia 007, mas da história do cinema.

Acontece que o plano de Goldfinger é mais ousado e envolve um ataque épico ao Fort Knox, o maior depósito de ouro dos Estados Unidos. Bond passa a maior parte do filme como prisioneiro do vilão e tem que usar sua astúcia para impedir o esquema. No caminho ele encontra o capanga Oddjob (Harold Sakata) e seu chapéu mortal, e a piloto Pussy Galore (Honor Blackman), cujo nome em inglês pulveriza qualquer noção de duplo sentido… Ah, e o 007 ainda usa seu super-carro pela primeira vez na série, e quase tem a parte mais importante de sua anatomia destruída pelo laser de Goldfinger.

Se tudo isso parece meio bobo, é porque é, mas a junção dos elementos fílmicos concebidos pelo diretor Guy Hamilton e seus colaboradores fazem do filme uma experiência inesquecível. Enquanto os dois primeiros Bonds foram meio modestos, 007 Contra Goldfinger é grandioso em todos os aspectos. Por exemplo, poucos sets de filmagem em toda a história do cinema são tão impressionantes quanto o interior do Fort Knox desenhado por Ken Adam. E não se podem ignorar as contribuições da equipe de efeitos especiais do filme e da montagem precisa e ágil de Peter Hunt. A sequência da perseguição na fábrica suíça, por exemplo, é emocionante até hoje, assim como a contagem regressiva nos minutos finais do ataque a Fort Knox.

Dando suporte a todas as maluquices e proezas técnicas, estão as interpretações de Sean Connery e Gert Frobe. Connery ainda permanece o mais querido Bond porque sua interpretação foi a primeira e é ainda a mais completa – só com Daniel Craig, Connery encontraria um rival à altura. 007 Contra Goldfinger foi seu auge na série, o ator se mostra mais carismático do que nunca e também focado. Mesmo nos momentos mais irônicos, ele leva a história a sério e o filme desmoronaria se ele abordasse o papel com cinismo. Já Frobe é tão bom quanto Connery. O ator faz de Goldfinger um vilão divertidíssimo – ele é até uma pessoa agradável na maior parte do tempo – mas capaz de adquirir um ar mortífero e frio a qualquer momento.

Goldfinger mantém Bond em desvantagem durante quase toda a história e o filme consegue suspender nossa descrença a tal ponto que nos momentos finais, realmente achamos que o herói vai se dar mal. Bond tem seus apetrechos e sua esperteza, porém seu inimigo mais do que se iguala a ele nesses quesitos. Só há uma coisa que 007 tem e Goldfinger não, que é o seu poder sexual. É ele quem lhe permite triunfar.

Nesse sentido, todos os filmes da série 007 envolvem, em maior ou menor grau, um forte componente de fantasias masculinas de poder e dominação. Neste, ele se revela na conversão da personagem Pussy. No livro ela é abertamente lésbica, já o filme apenas insinua isso de forma mais sutil. Porém, basta uma transa com Bond e ela “muda de lado” em mais de um sentido da sua personalidade. Trata-se daquela velha noção de que qualquer lésbica pode virar “hétero” se transar com o “homem certo”… Num filme repleto de absurdos, esse é apenas mais um e por isso fica na conta da história, mas indubitavelmente representa o ponto fraco da experiência. Talvez seja pedir demais de uma fantasia escapista dos machistas anos 1960 que tratasse esse tópico com mais sensibilidade.

Outros filmes da série não navegariam com tanta graça nesse estreito fosso entre o divertido e o ridículo – o próprio diretor Guy Hamilton voltou à série depois, mas nenhum dos seus outros Bond-filmes chegam perto da qualidade deste. 007 Contra Goldfinger não é o melhor filme da franquia, mas permanece o mais icônico e representativo dela. Tem o mais clássico dos Bonds na figura de Connery, um grande vilão, mulheres bonitas, uma bela canção-tema, uma sequencia de abertura explosiva, humor e ação. Se alguém assistir a apenas este episódio da franquia na vida, saberá o que é James Bond em toda a sua essência.

Vendo o filme hoje, é curioso constatar como ele é ao mesmo tempo datado e atemporal, igual aos Beatles. É um produto que só poderia ter sido feito nos anos 1960, mas continua emocionante hoje e provavelmente sempre será. Esse filme permanece congelado no tempo, como aquela mulher pintada de ouro, e seu brilho não desapareceu.

Nota: 9,0

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