Seguindo a onda recente de releituras de contos de fadas, em sua mais nova encarnação nos cinemas, A Bela e a Fera volta às raízes francesas. Uma de suas primeiras adaptações cinematográficas deu-se pelas mãos do francês Jean Cocteau, no clássico de 1946 estrelado por Josette Day e Jean Marais. Desta vez, a produção chega através do também francês Christophe Gans (O Pacto dos Lobos, Terror em Silent Hill), mas é uma pena que o resultado tenha tão pouco do brilho presente tanto na versão de Cocteau quanto na animação de 1991 da Disney, dirigida por Gary Trousdale e Kirk Wise.

A nova versão de A Bela e a Fera até tem certo mérito ao provar que o cinema francês é capaz de produzir um blockbuster tão grandioso e cheio de efeitos especiais quanto Hollywood, mas, ao mesmo tempo, esse acaba sendo um de seus maiores problemas, já que o espetáculo visual se mostra vazio, com uma história que, embora já conhecida do público (e querida por boa parte dele, com certeza), parece perder o rumo aos poucos até se tornar simplesmente uma narrativa chata e tediosa de se acompanhar.

Protagonizada desta vez por Léa Seydoux e Vincent Cassel, a história aqui se inspira em boa parte do conto de fadas original, de acordo com a versão publicada pela francesa Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve em 1740. Nada de pai inventor maluco e candelabros e relógios falantes: Bela é a filha caçula de seis irmãos, três homens e três mulheres. Seu pai é um comerciante rico e cheio de posses, mas que, de repente, se vê na miséria quando sua frota de navios afunda numa tempestade. Na falência, a família é obrigada a se mudar para o campo, onde Bela é a única que se acostuma facilmente a uma vida simples.

Um dia, o pai retorna à cidade para tentar reaver parte de sua fortuna, mas sem sucesso. Na volta para casa, ele vai parar por acidente em um castelo encantado, e é condenado à morte pela Fera por ter arrancado uma rosa do jardim para levar de presente a Bela. Para salvar a vida do pai, a moça vai até o castelo, onde é mantida viva com a condição de que jante diariamente com a Fera, em meio a uma vida luxuosa. Ao mesmo tempo, ela sonha todas as noites com um espelho mágico que lhe revela, aos poucos, o passado da Fera.

Embora com uma estrutura bem fiel ao conto original de Villeneuve, o roteiro toma sua parcela de liberdades, assim como as outras versões, alterando a origem da maldição da Fera e o clímax da história, com a introdução de novos personagens. Nada disso importa muito, porém; os problemas constantes de ritmo vão minando progressivamente o interesse na narrativa. O primeiro ato, mais longo do que o necessário, por exemplo, perde tempo ao insistir em contextualizar a família de Bela, mesmo que tudo acabe sendo jogado fora, depois, no decorrer do filme. A narração em off (cuja revelação de quem se trata ao final não é nem um pouco surpreendente) também acaba redundante em vários momentos, explicitando algo que vimos ou estamos prestes a ver.

Problemas estruturais à parte, no entanto, não há como negar que A Bela e a Fera é muito bem produzido visualmente, embora com exageros em alguns momentos – a câmera lenta estilosa, que parece saída de um filme do Zack Synder, que o diga. A explosão de efeitos de CGI (e dá-lhe bastante, aliás) se une a um trabalho competente de direção de arte, especialmente no que diz respeito ao figurino de Bela, responsável por representar as mudanças que a moça vai passando ao longo do filme – dos tons brancos e beges puros e virginais do começo a um vermelho vivo e explosivo quando ela retorna para ver a família.

Esse trabalho estético, infelizmente, não encontra um roteiro a seu favor: se por um lado Christophe Gans parece fazer questão de enfatizar elementos góticos no visual do castelo ou mesmo na composição dos personagens, a história não toma esse mesmo rumo. Com exceção de alguns momentos que poderiam se encaixar nessa visão mais obscura do conto, digamos assim, como quando a Fera e a Bela travam uma discussão sobre desejo sexual, o tom fabulesco da história prevalece, e há um desencontro entre o visual e a narrativa.

Não ajuda o fato de que a relação de Bela e a Fera é mal desenvolvida; até mesmo na animação da Disney pudemos ver mais nitidamente o amor florescendo a partir da convivência dos dois, simplesmente em um número musical. No longa de Gans, embora Léa Seydoux e Vincent Cassel estejam tão competentes quanto de costume, há uma interação fria entre o casal, e que às vezes se assemelha mais a um jogo de poder do que a uma relação amorosa.

O terceiro ato e o suposto clímax do filme escancaram de vez todos esses problemas, seja na “pseudo-batalha” que não emociona (os móveis lutando no desenho também eram bem mais divertidos), seja na resolução entre os protagonistas. O fato é que há muita pirotecnia neste novo A Bela e a Fera, mas há pouca magia e encanto em cena para criar um novo clássico.

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