Mais que simplesmente aproveitar a oportunidade, a filha de diretor de cinema iraniano fez por onde merecer o título de uma das cineastas mais influentes de seu país. Desde seu primeiro filme, “A Maçã” (1998), Samira Makhmalbaf apresentou uma visão peculiar e que ajudou a construir a identidade da chamada Segunda Onda do cinema no Irã, ao lado de nomes como Asghar Farhadi, Abbas Kiarostami e de seu pai, Mohsen Makhmalbaf.

Dirigido quando Samira tinha por volta de dezessete anos, “A Maçã” traz o antigo flerte do cinema iraniano com as características mais marcantes de uma de suas influências, o Neorrealismo, ao passo que constrói para si identidade própria. Elementos como os planos mais longos, o uso de não atores e a consciência social emergem na trama de duas irmãs, Massoumeh (Massoumeh Naderi) e Zahra (Zahra Naderi). As meninas são mantidas trancafiadas em casa pelos próprios pais; a mãe, cega, não tem opção a não ser curvar-se à interpretação de seu marido de que, por serem mulheres, elas devem estar preservadas do resto do mundo. Preocupados com as crianças, os vizinhos se unem e assinam um abaixo-assinado, que vira notícia e chama a atenção da assistência social, que exige que as meninas sejam reabilitadas ao convívio social.

Desde o primeiro instante, percebe-se a debilidade física e mental das crianças por conta dos anos em que viveram como prisioneiras. Os depoimentos da comunidade reforçam o absurdo da situação, servindo de contraponto à visão extrema do pai e a displicência da mãe, cuja cegueira desponta também como metáfora para a condição das meninas. Voltando para casa, a primeira coisa que uma das gêmeas é ensinada pelo pai é a cozinhar, ao passo que a assistente social lhe deu lápis e papel para observar sua capacidade de coordenação algumas cenas antes. No encontro de cenas como essas se percebe o contraponto entre os “de fora” e “de dentro” da casa acerca do que é adequado às crianças.

a maçã Samira Makhmalbaf
A fruta-título, longe de carregar consigo a simbologia tradicional do pecado no filme, surge na tela como algo diverso. Ela aparece quando a assistente social ajuda as meninas, quando elas vão ao mercado sozinhas e quando libertam o pai que fora trancafiado, assinalando uma nova chance para as crianças se reabilitarem ao mundo que sempre esteve ali, porém, inalcançável. Na cultura do país, a maçã é também um símbolo de vida e conhecimento, assinalando a mensagem do filme. O papel feminino na sociedade equilibra-se, a partir daí, entre a tradição e costumes da cultura iraniana e as perspectivas de transformação dos mesmos no decorrer do tempo.

Quando se coloca em perspectiva as condições de produção do filme, observando que se trata não apenas de uma história baseada em fatos reais, mas também que cada personagem interpreta a si mesmo no longa, torna-se ainda mais impactante a associação de seus simbolismos com o contexto cultural em que a trama (e a vida deles) se passa. O filme não busca simplesmente culpados, mas antes tenta lançar um olhar plano e por isso mesmo complexo a todos, embora seja um pouco difícil, em especial ao ocidental, a conexão com os pais das meninas e principalmente à mãe (não por acaso, é uma figura que mal é filmada de frente). Quando o pai das meninas é trancafiado em casa para ser colocado no lugar de suas filhas, um misto de emoções discordantes impera ao espectador. O contraponto a essa cena, com Massoumeh e Zahra se divertindo com novas colegas pela cidade, traz delicadeza à situação insólita.

As noções de aproximação (ao trazer personagens reais para recriar suas histórias) e de distanciamento (ao filmá-los sem grande juízo de valor) são um desafio de interpretação em “A Maçã”. Ao passo em que a assinatura da própria diretora surge na tela no abaixo-assinado feito pela comunidade em prol das meninas, apontando então para como a própria Samira encarou a situação, a busca de uma sensibilidade ao retratar cada personagem olha não apenas para seus atos, mas para o que os levou a tomar tais atitudes (no caso do pai, agir de forma extrema; no caso da mãe, de forma omissa e quase cruel).

Da mesma maneira, as fronteiras entre documentário e ficção se mostram extremamente fluidas em “A Maçã”. Isso vale tanto no que diz respeito à linguagem cinematográfica, de planos e movimentos simples, quase espontâneos, quanto aos aspectos de produção. Vale lembrar também que o longa foi filmado pouco tempo depois da história de Massoumeh e Zahra aparecerem nos jornais iranianos, entre 1997 e 1998. Para que as meninas, ainda debilitadas, pudessem atuar, Samira muitas vezes pedia que elas imitassem os movimentos que ela mesma fazia para recontar a história.

A estreia de Samira Makhmalbaf na direção pode ter lhe valido o abandono da escola ainda adolescente, a qual deixou para trás para se dedicar apenas aos filmes. Porém, a partir daí ela construiu uma sólida carreira para além da influência do pai já famoso, ganhando posteriormente prêmios importantes como a Palma de Ouro em Cannes (com “O Quadro Negro”, em 2000, e “Às Cinco da Tarde”, em 2003) e tantos outros, sempre focados em aspectos sociais e dando mostras da superação de toda sorte de dificuldades para as diretoras mulheres.