Ken Loach dirigiu The Angel’s Share, drama cômico situado na Escócia. Ele faz fortes referências aos uísques e à roupa tradicional do país, o kilt, mas não se restringe a isso. A história funciona tanto como jornada de um protagonista quanto como crítica social de senso de humor corrosivo.

O delinquente juvenil de Glasgow Robbie (Paul Brannigan) faz trabalhos comunitários como pena para seus crimes. Ele quer sair dessaa vida, mas seus desafetos ainda querem prestar contas com ele. Para completar, sua namorada, Leonie (Siobhan Reilly), está grávida, e a família dela o detesta. Sua chance de se livrar do passado aparece quando seu tutor, Harry (John Henshaw), o apresenta ao mundo dos degustadores de uísque. Quando descobre que milionários se dispõem a pagar o quanto for necessário pelo uísque malt mill, o rapaz arquiteta um plano para consegui-lo, vendê-lo e, assim, começar uma nova história com a família.

A parte dramática do filme mostra as dificuldades de nos livrarmos de um passado não mais tolerável. Ao mesmo tempo, ela mostra como esse mesmo passado, com seus defeitos e vícios, pode nos ajudar a conquistar o que queremos para as nossas vidas daqui pra frente. Isso é mostrado com Robbie, que usa suas habilidades adquiridas no mundo do crime para conseguir levar uma rotina estável com a família.

O senso de humor britânico de “The Angel’s” é tão ou mais eficaz que o drama. Sacadas como o locutor do trem dizer que é deus, obrigando Albert (Gary Maitland) a sair dos trilhos, arrancam risadas sinceras. Falando em Albert, ele é o alívio cômico da história. Sua falta de noção, que o faz escarrar numa jarra de suco e reclamar que o kilt machuca seus países baixos, rouba a cena.

As arestas do filme ficam por conta dos coadjuvantes, do ritmo da história e do “nível de delinquência” do protagonista. Robbie e Albert se destacam a ponto de “engolirem” Leonie e Mo (Jasmin Riggins) e Rhino (William Ruane), os outros dois membros da trupe que pretende conseguir o malt mill. Os três se transformam em acessórios que o roteiro usa para desenvolver o protagonista, não tendo, assim, nenhuma camada de personalidade e de relevância para o todo.

Quanto ao ritmo, esperamos chegar o fim do segundo ato para sacarmos o que motiva Robbie e seus amigos. Até lá, acompanhamos a crônica da vida sem rumo de um proletário de Glasgow. Além disso, este, identificado como um delinquente sem conserto, vira um amador se nós, brasileiros, o relacionarmos ao que infelizmente estamos acostumados.

Sutilmente, Ken Loach critica preconceitos que as pessoas têm com a aparência dos outros. Por exemplo, Robbie quer reconstruir a sua vida, mas, como tem uma cicatriz que o deixa com cara de mal-encarado e um histórico não muito amigável, para da fase de entrevistas. Além disso, o diretor usa clichês do seu país, como o kilt, o uísque e o sotaque incompreensível, como elementos potencializadores da história, não como coisas para inglês ver. Assim, consegue contar uma história que, enquanto não engrena, nos diverte ao mostrar, com ironia, a vida na classe baixa de Glasgow.

Nota: 7,0

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