Se o gênero de horror já é esnobado na sua essência pela crítica e pelas premiações especializadas, o que falar do seu subgênero mais bastardo e maldito da sétima arte, o slasher? Surgido na década de 70 – precisamente no ano de 74 que imprimiu uma safra sufocante de horror psicológico – através de uma genética variada que continha o sangue italiano de Mario Bava e o seu ótimo Banho de Sangue; o sangue texano-maluco de Tobe Hoober e o seu O Massacre da Serra Elétrica e o sangue canadense de Noite do Terror de Bob Clark (grande fonte inspiradora para Carpenter e seu Halloween quatro anos depois), o slasher foi o ciclo de terror que reinou absoluto na primeira metade da década de 80.

Foi um período marcado por uma “matança” desenfreada de adolescentes no cinema americano pelas mãos de vários psicopatas que apresentavam na sua conduta, graves transtornos emocionais e sexuais. É interessante, que apesar de geralmente ser malhado por 90% da crítica, algo que sempre me instigou na arqueologia do subgênero é sua semiologia. Por trás da figura icônica mascarada (Jason, Ghostface e Michael Myers), seus objetos (as lâminas e camisa de listras de Freddy Krueger) e tramas clichês, o slasher soube destrinchar contextos macabros vivenciado pela sociedade na época.

As guerras, os horrores sociais-políticos, o crescimento da onda conservadora e o aumento da criminalidade serviram para o slasher justificar sua violência vulgar como expiação para a decadência da nossa sociedade. Os ataques de Jack, O Estripador as prostitutas da Inglaterra vitoriana inseridos nos romances policiais clássicos não diferem das ações brutais dos psicopatas dos filmes do subgênero.

Estas justificativas de defesas, apenas servem para ilustrar, que para o bem e para o mal, o cinema slasher tem sua relevância. E nada mais justo que, em tempos de quarentena, onde o contato físico deve ser evitado a qualquer preço, do que sublimar um pouco a tensão gerada pela pandemia do coronavírus através de um slasher violento pulsando na tela, com seu psicopata azucrinando moças indefesas numa data comemorativa. A dica deste Advogado de Defesa é Quem Matou Rosemary? do casca grossa Joseph Zito, o homem que dirigiu o mito Chuck Norris em Braddock e Invasão USA.

Matança Cinematográfica Para Aliviar a Tensão

A trama é aquela coisa rasteira geralmente encontrada neste tipo de filme: Depois de ficar chocada com um crime cometido há 35 anos durante um baile formatura, a pequena cidade de Avalon Bay resolve fazer um novo evento, ignorando os fatos passados e não vai demorar para o assassino – caracterizado por um uniforme militar sinistro, com capacete e máscara camuflada – retorne para cometer assassinatos contra os jovens.

Apesar do título nacional insinuar um romance de mistério ou investigativo no estilo Agatha Christie ou Arthur Conan Doyle, Quem Matou Rosemary? é uma pequena pérola do cinema slasher, dotado de uma força extraordinária em abordar a violência na sua raiz mais bruta, para nenhum fã de terror botar defeito, através de mortes criativas e sangrentas que expõem gargantas cortadas e corpos perfurados das mais variadas formas possíveis.

Ainda que timidamente, o roteiro escrito a seis mãos, explora os traumas de guerra no âmbito do contexto sexual das relações amorosas, afinal, logo na sequência de abertura, descobrimos que os crimes cometidos têm uma motivação passional, depois que um ex-soldado sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, busca acertar contas após ter sido rejeitado pela sua amada (Rosemary) que o trocou por outro rapaz na noite do baile.

O maior acerto de Zito é dimensionar a gênese do slasher para colocá-lo na rotação máxima: utiliza a violência e a sua força-motriz que é a vingança, sempre os elevando a catarse máxima. Quem Matou Rosemary? é impiedoso, frenético e visceral, com a caracterização assustadora do seu assassino militar – um psicopata mais profissional e brutal que Jason e Cia – que impulsiona e dá consistência para mortes inesquecíveis.

Dificilmente você vai encontrar mortes tão realistas em um slasher quanto aqui. E os créditos deste belo trabalho devem ser estendidos aos impressionantes efeitos práticos do maquiador Tom Savini que beiram à perfeição em potencializar a matança desenfreada. Há pelo menos três cenas primorosas em encenar a violência por meio da imagem – uma delas é referência direta a “Psicose”, só que turbinada com litros de sangue. A direção de Joseph Zito é uma aula divertida de suspense – concebendo algumas cenas interessantes como a mocinha fugindo do assassino em um dormitório e encontrando todas as portas trancadas pelo caminho – com uma atmosfera arrepiante de tensão e mistério.

Ele constrói as cenas como um artesão do cinema de horror – com qualidade, objetividade e esperteza – para oferecer altas doses de brutalidade e momentos explícitos (quesito muito importante no subgênero), que ajudam a compensar os personagens rasos e o ritmo descompassado da segunda metade. Vale destacar a presença de dois atores veteranos no filme: Lawrence Tierney de Cães de Aluguel de Tarantino e Farley Granger de Festim Diabólico de Hitchcock que se aventurou bastante pelo cinema giallo italiano e em alguns terrores underground do cinema americano na década de 80.

Quem Matou Rosemary? é o típico slasher com trama, direção, atmosfera e mistério que são uma beleza. Junto com Chamas da Morte (lançado no mesmo ano e também com Savini nos efeitos de maquiagem) são exemplares responsáveis pelo grande índice de sangue jorrando na tela na década de 80. Um slasher ótimo para praticar uma matança cinematográfica e fazer o sangue coagular para diminuir a tensão gerada pela pandemia no mundo real.

‘Quem Matou Rosemary?’: A geração slasher dos anos 80 na sua pérola mais violenta

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