Durante a divulgação de “Mesmo Se Nada Der Certo”, de John Carney, a frase mais repetida era “Pode a música salvar uma vida?”. É impressionante o poder que a música exerce sobre o ser humano, influenciando-nos já no ventre materno até a mais tenra idade. Neurologistas como Oliver Sacks e Penfield já apontavam sua importância e efeito no funcionamento cerebral. Ela ativa memórias, cria novas histórias, nos faz aprender mais rápido e tem um papel ativo no desenvolvimento cognitivo. Mesmo que reflexiva, há uma resposta bem clara a pergunta levantada em Carney.

Com um pressuposto semelhante, Eduardo Coutinho mergulha na ideia de como as nossas vidas estão conectadas a músicas no documentário de 2011, “As Canções”. De forma simples e arrebatadora, Coutinho constrói um grande filme com elementos simples: uma cadeira e pessoas anônimas sentando nela e contando suas histórias, todas pautadas por canções.  Ele repete a mesma estrutura que usa em outros exemplares de suas obras, deixando o personagem contar sua história diante da câmera enquanto guia nossa imaginação e nos acalenta com experiências sensórias, vívidas e emocionantes. Embora sejam passagens curtas, algumas são narrativas que nos fazem repensar durante algum tempo.

Em mais um de seus poderes, a música consegue conectar pessoas, Coutinho usa isso graciosamente por meio da montagem de Jordana Berg e da preparação vocal de Cecilia Spyer. Os entrevistados conseguem externar por meio da voz as emoções cativantes para que o expectador se prenda as suas narrativas. A abertura do documentário com a canção de Vinícius de Morais já evoca a primazia que a construção entoa envolta da música brasileira, este é um dos pontos positivos da obra: alavancar a brasilidade de seus personagens por meio de suas características básicas e de seu apreço musical.

É a isso que a preparação vocal de Spyer atua com êxito, os entrevistados são pessoas ordinárias que tem a música como paixão, não como profissão e a interpretação que lhes cabe oportuniza reconhecer a narrativa em seu cerne, como se a música pudesse descrever sua própria existência.  É a canção que, conforme afirma um dos entrevistados, atua como um catalisador da memória, um alimento para a alma do brasileiro que retira dela suas emoções mais insubmissas. Nestas melodias tratadas por Coutinho estão escondidas as mais diversificadas situações, impulsionadas por pausas, entonações, timbres que torna “As Canções” memorável por dizer o que não foi dito, mas sentido.

O documentário consegue transpor músicas atemporais como marcas de uma identidade de vida, que narram emoções distintas transcritas sob a mesma canção e que torna tudo especial e inesquecível a quem se deixa atingir por ela. Assim, ela nos prepara para a história que virá ou acalenta o coração da história que se ouviu. Francisco Alves, Tom Jobim, Roberto Carlos, Noel Rosa são alguns dos nomes que permeiam as histórias e gravitam em torno da sensação de existência, incompletude e identificação que as narrativas afloram, seja pela lembrança da mãe, a consciência de que nunca deixará de amar alguém da juventude, a força para seguir em frente em meio a opressão e dependência, a morte e o prazer do desconhecimento e até mesmo a partida de alguém que se ama. “As Canções” poderia ser simplesmente a nossa narrativa particular em meio a vivaz e preeminente tragédia que se indispõe sobre nós diariamente.

A verdade é que “As Canções” funciona como uma sessão de terapia, em que as pessoas e as músicas atuam como intérpretes e analistas de seus próprios dramas e que falar, desabafar os torna um pouco mais liberto das sensações que se aprisionam a eles e por meio da música encontram maneiras de compensar suas perdas, dores e lembranças. Mais um exemplar da grandiosidade de Eduardo Coutinho e do poder que a música tem de alcançar as pessoas e salvar vidas, como já afirmava Carney.

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