Sim, o cinema do Amazonas existe e vai bem, obrigado.

A frase acima é dirigida a todos aqueles que, prontos a apontar o “desperdício” de se fazer filmes e festivais em nosso estado, revelam sua ignorância de uma produção que, sobretudo na última década, deu mostras sucessivas de qualidade e vigor, culminando com a realização do primeiro longa-metragem de um diretor amazonense – “A Floresta de Jonathas”, de Sérgio Andrade –, no ano passado.

As facilidades de produção e acesso a filmes, proporcionadas pelo barateamento das câmeras digitais e notebooks e a explosão do download (hoje, do streaming), podem ser apontadas como os principais fatores para esse “renascimento” do cinema amazonense, mas não se deve subestimar a importância do Amazonas Film Festival, que, nas suas nove edições tem sido um fator decisivo de visibilidade e encorajamento para novos realizadores, inspirando (até mesmo em oposição) mostras em outros espaços e festivais de amadores, como o Curta 4.

Dito isso, o Cine Set resolveu entrevistar alguns dos principais nomes do cinema amazonense atual para saber que novidades eles reservam para este fim de ano. A intenção, além de divulgar esses trabalhos, é levar ao conhecimento do público esses nomes ousados e criativos que fazem com que, enfim, possamos dizer: sim, o cinema do Amazonas existe!

E vai bem, obrigado.

Leonardo José Mancini

Integrante da trupe online PulaPirata (onde assina como “Elmanchez”), o ocupadíssimo Leonardo já foi destaque no Amazonas Film Festival. Em 2011, participou de “Morto Vivo”, na edição de 2011, e de “Uma Doce Dama”, no ano passado, ambos premiados pelo público como Melhor Curta de Ficção, além de aparecer também como ator em “Et Set Era”, de Emerson Medina e Rod Castro.

Tais experiências o animaram a triplicar sua lista de projetos para este ano, que novamente incluem planos para o AFF, como ele me contou por celular:

“O meu filme se chama ‘A Lista’. Foi uma gravação muito rápida, porque é um roteiro que existe desde 2010 e já vem sendo planejado há muito tempo, muito tempo. Tanto tempo que acabou sendo muito fácil de gravar (risos), diferente dos meus últimos trabalhos. A história fala sobre um rapaz que faz vestibular pra Medicina e não consegue passar, então ele decide matar todos os que conquistaram a vaga”.

“A produção é uma parceria entre o PulaPirata, a 602 Filmes, a Samba Tango, o Estúdio Castanheira e o Caboquês Ilustrado, que fez os figurinos, com a co-direção de Rodrigo Castro e a ajuda de outros amigos nossos”.

“Gravamos a parte principal em 3 dias e as cenas com pequenos detalhes em outros dois. Agora estamos na parte de pós-produção, finalização, e queremos entregar o filme até o fim de agosto (o contato aconteceu no início do mês – N. do A.), pra concorrer no Amazonas Film Festival. Também estou envolvido na realização do longa do ator de ‘A Lista’, Diego Nogueira (que escreveu e dirigiu ‘Póstumo’, Melhor Roteiro no AFF do ano passado), chamado ‘Quando o Homem diz Amém’. Além disso, há um novo projeto da PulaPirata em preparação, chamado ‘O Necromante’ (saiba mais na segunda parte dessa matéria), além de outros dois que pretendemos fazer assim que tivermos tempo, um dos quais estou escalado para trabalhar como ator”.

Moacyr Massulo

Um cineasta engajado no retrato e valorização da cultura amazonense, Moacyr Massulo despontou na produção local em 2011 com “Televisão”, indicado ao prêmio de Melhor Curta de Ficção no AFF. A visibilidade trazida pelo evento animou o diretor a tentar voos mais ousados, sendo assistente de direção em “A Floresta de Jonathas”.

Em dezembro do ano passado, lançou o curta “H20”, ficção que denuncia a péssima qualidade do serviço de abastecimento de água em Manaus. A obra chegou a ser exibido no Festival Internacional de Cine e Derechos Humanos em Buenos Aires, Argentina. Ocupado com a realização de seus novos projetos, ele nos atendeu por e-mail:

“Em novembro do ano passado morei 25 dias em comunidades indígenas do Alto Solimões, e lá realizei um documentário sobre um índio Kokama que é super engajado na valorização da cultura de sua tribo. Este já está em processo de finalização, mas também estou produzindo outro documentário, sobre um projeto social envolvendo crianças carentes e artes marciais em Manaus”.

“Por fim, também estou na produção, junto com uns amigos, do meu novo curta de ficção, abordando uma linguagem que já venho utilizando, sobre um homem solitário em conflito com alguma coisa”.

Moacyr não deixou claras as datas para o lançamento de seus novos filmes, nem se pretende concorrer com algum deles no AFF desse ano, mas o talento e a experiência do diretor nos levam a crer que vem coisa boa por aí.

Dheik Praia

Uma das figuras mais ativas do cinema amazonense nos últimos anos, Dheik Praia pode ser considerada uma verdadeira “agitadora” cultural, com participações em eventos de música e dança, além de inúmeras figurações e “apoios” diversos em trabalhos de colegas cineastas.

Toda essa energia criativa já resultou em alguns curtas notáveis, como “Jorge”, lançado em 2010, e, principalmente, “Rota da Ilusão”, indicado à categoria nacional de curtas do AFF do ano passado.

Como não poderia deixar de ser, a diretora tem uma agenda lotadíssima, e os contatos para esta matéria foram sofridos, mas o amigo Caio Pimenta conseguiu obter informações substanciais durante uma conversa pelo Facebook.

(protagonista de ‘Um Braço de Rio no Quintal, a atriz ’Daniela Blois)*

“Meu novo projeto está em produção, e se chama ‘Um Braço de Rio no Quintal’. Trata-se de um curta, de aproximadamente dez minutos, com locações no bairro Armando Mendes e no Terminal 2 (Cachoeirinha). O filme narra de forma existencialista o percurso da jovem Fernanda (Daniela Blois) para a faculdade. Ela é estudante de música da Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e, durante o percurso em um ônibus coletivo, faz uma análise sobre sua vida e existência”.

“A ideia é tentar trabalhar duas perspectivas no filme: a da personagem e a “visão de Deus”. Na dela vou tentar utilizar algumas propostas do filme “O Escafandro e a Borboleta”, personificar essa subjetividade em elementos surreais… quero mostrar os conflitos na subjetividade dela, o seu sonho de tocar violino, o tempo que passa, o calor, mas tudo isso de uma forma delicada, sutil, leve… leve como um pensamento inconsciente que temos no percurso da faculdade ou do trabalho. Essa leveza, gostaria de trazê-la para o filme. Não tenho pretensões, quero brincar novamente…”

“A produção é totalmente independente, sem financiamento, mas com a colaboração de várias pessoas, que estão apostando nesse projeto, contribuindo com o que podem. É assim que esse filme está sendo feito”.

Bem, depois de “Rota da Ilusão”, como não alimentar grandes expectativas?

*crédito da foto: Bárbara Umbra

Keila Serruya

Outra notável força do cenário cultural amazonense, Keila Serruya é uma das cabeças por trás do prestigiado Coletivo Difusão, núcleo independente de artistas e produtores culturais. Como cineasta, sua obra é marcada pela forma incisiva, como provam os curtas “Sol/Chuva”, que retrata um ensaio de moda com roupas feitas de material reutilizável, adaptadas ao clima de Manaus, e “Sardinhas em Lata”, que denuncia a situação lamentável do transporte público em Manaus, ambos indicados a prêmios no AFF.

Essa também é a marca da personalidade da artista, uma das vozes mais ativas e empenhadas na valorização do cinema amazonense. Por e-mail, ela nos falou do seu novo trabalho, o curta “Assim”:

“Estou muito feliz por lançar mais uma produção audiovisual em 2013. Depois do documentário ‘Nessa Cidade Todo Mundo Já Bebeu na Bica’, da intervenção urbana ‘ASSIM AQUI’ e do videoclipe ‘Outro Tempo’ (da banda Roodie), lanço o curta-metragem ficcional “ASSIM”. O filme é uma continuação do trabalho na vídeo-instalação, onde discuto questões de gênero, como o travestismos”.

“Esse projeto é uma realização da Picolé da Massa Produções com a apresentação da 602 Filmes, e será exibido neste sábado (31), às 19h, no Cine Teatro Guarany (localizado na Av. Sete de Setembro, Centro de Manaus)”.

A ousadia e inquietude da cineasta amazonense tornam a presença nesse lançamento obrigatória.

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