O cinema trabalha com separações metafóricas, literais, narrativas e cênicas. Não raro, grandes filmes transpõem a barreira entre o diegético e o que não se vê na tela, e um dos títulos que trabalha à excelência o conceito de separação é “Infâmia”. No drama dirigido por William Wyler, todas as rupturas citadas na primeira linha deste texto se reúnem em uma colcha de retalhos sobre a condição humana.

Lançado em 1961, o filme tem a já consagrada Audrey Hepburn e uma Shirley MacLaine recém-saída do sucesso de “Se Meu Apartamento Falasse” nos papéis principais. As duas interpretam professoras de uma escola para meninas que são acusadas (sim, acusadas) por uma aluna de manter um romance. O drama é baseado em uma peça escrita em 1934 pela dramaturga Lilian Hellman.

Íntimo e pessoal

O que salta aos olhos de quem assiste “Infâmia” é o quão íntima a obra é. Ainda que se passe em uma escola, há uma qualidade pessoal àquele lugar, já que Martha (MacLaine) e Karen (Hepburn) também moram ali. Não há muito o que se dizer sobre elas, e a obra apresenta apenas dois personagens ligados à dupla: Lily (Miriam Hopkins), tia de Martha, e Dr. Joe Cardin (James Garner), noivo de Karen.

Essa intimidade expressa pelo filme também é seguida no trabalho de Wyler e do diretor de fotografia Franz Planer, este em um de seus últimos trabalhos. Acostumado a filmar Audrey Hepburn (afinal, trabalhou ainda em ‘Bonequinha de Luxo’, ‘A Princesa e o Plebeu’ e ‘Uma Cruz à Beira do Abismo’), Planer ilumina ela e MacLaine com perfeição, sempre preocupado em dar à primeira o tom etéreo da mocinha apaixonante, e, à segunda, a sombra de quem não está totalmente confortável em sua pele.

“Infâmia” é um filme teatral e, como tal, tem um mise-en-scène preciso. As duas personagens principais aparecem quase sempre em oposição, uma a outra, ou separadas por algo ou alguém: note, por exemplo, a primeira vez que as duas estão em cena, com tia Lily no meio. Há, ainda, momentos em que Martha e Karen estão separadas pelo nada, pelo vácuo, pelo medo de ser ou de não ser.

A fotografia de Planer e a direção de Wyler se revelam ainda mais geniais a cada vez que se vê uma das protagonistas no canto da tela, quase que um testemunho do isolamento a ela(s) imposto e da impotência perante a enxurrada de fofocas daquela comunidade.

Tomemos a cena em que as duas, finalmente, se confrontam. Karen aparece à esquerda de quem assiste, envolta na própria sombra, encostada em uma porta (seria uma forma de escapar?). No fundo, Martha não a encara. As duas, separadas por uma cadeira. O ângulo muda e a cadeira já não aparece. Ela não foi tirada dali – a perspectiva é que ficou mais íntima. Ao final da cena, Martha volta a fugir do nosso olhar e do de Karen.

Além de contar com interpretações impecáveis de MacLaine e, principalmente, Hepburn, esta cena é o testamento do peso que toda aquela fofoca teve na vida das duas. Se Karen perdeu o emprego e o futuro marido, a desmoralização é ainda mais latente para Martha, que é um misto de vergonha e alívio. É no que a sociedade entende de Martha que a “infâmia” do título brasileiro reside – no dicionário, a palavra é entendida “o que fere a honra ou nome de alguém”, “desonra”, “atitude vergonhosa”.

Obra de ficção, peso real

Essa vergonha impressa no rosto de Martha tem menos a ver com o fato de ela ser personagem de um filme de Hollywood (progressista na mesma dose em que é/era conservadora), e mais com aquele universo diegético no qual ela está inserida.

Martha nunca teve motivos para acreditar que o que sentia era normal e tão corriqueiro quanto estar atraída por uma pessoa do sexo oposto. Abandonada pelas alunas, insultada pela tia (isso já naquela cena de apresentação que citei alguns parágrafos atrás) e sem ter seu amor correspondido… Por que acreditar que aquilo era o certo?

É assustador ver o quanto um filme feito há mais de 50 anos e uma peça com mais de 80 conseguem ressoar de forma tão atual. É abrir qualquer rede social para ver que as meninas Mary deram crias e ainda propagam que o simples ato de sentir amor pode ser um pecado. O próprio desfecho da história não é estranho a quem lê sites de notícia.

O gosto amargo que fica com os minutos finais deste melodrama de William Wyler é suplantado pelo brilhantismo e pela beleza torta que ele apresenta. “Infâmia” é realmente um filme de separações, e não apenas as expostas no mise-en-scène. Martha e Karen são obrigadas a se separar do mundo que conhecem, daquilo que criaram e dos seus sentimentos para que a sociedade siga vivendo a sua vida de sempre. E, ao que seguimos o caminhar de Audrey Hepburn no fim da película, sabemos: ela não será mais a mesma.

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