Não sei se andou fazendo muita falta a alguém, mas Baywatch está de volta. Um “crássico” da televisão kitsch americana, parte de uma blitz de seriados toscos, grosseiros, mas fundamentalmente divertidos – pense em Beverly Hills 90210 (conhecida no Brasil como Barrados no Baile) ou Xena, A Princesa Guerreira – que avassalou as TVs antes da revolução de Os Sopranos e companhia, a turma de bombados e gostosas da praia de Malibu custou, mas finalmente ganhou seu longa. Pior para nós.

Quinze anos depois, Baywatch: S.O.S. Malibu teve uma ligeira atualização: os salva-vidas agora estão mais diversos, se você considerar assim o nerd gorducho que é – claro – o especialista em tecnologia do bando (Jon Bass), uma salva-vidas negra que é a segunda no comando, mas tem as menores falas entre o elenco feminino (Ilfenesh Hadera) e um Mitch Buchannon, líder da gangue, vivido pelo indefectível Dwayne “The Rock” Johnson, com sua tez morena e seu monumental armário de músculos. De resto, a trama criada por Jay Scherick, David Ronn, Thomas Lennon e Robert Ben Garant (os dois últimos, por sinal, autores de um conhecido manual sobre como escrever roteiros toscos e ganhar muito dinheiro com eles) é tão ruim que faz a série original soar comedida e bem bolada.

O pretenso humor do filme, muito mais puxado para a comédia do que o Baywatch original, é tão arfante, apelativo, irregular e sem ritmo que nem o bom elenco, movido pela química entre Johnson e Zac Efron (as melhores piadas do filme, por sinal, são os inúmeros apelidos de Buchannon para o arrogante mauricinho Matt Brody, o nadador caído em desgraça vivido por Efron; sempre zoando do visual boy band do rapaz, Mitch o chama de “Bieber”, “Jonas Brother” e – santa metalinguagem! – “High School Musical”) consegue redimir. Se há, porém, algo que vale a pena no filme, é o carismático time de salva-vidas, que enfrenta com a dignidade possível os terríveis diálogos e situações do roteiro. Bass é o mais atacado: todas as gags envolvendo o seu Ronnie são recriações de piadas sobre trapalhadas sexuais e românticas, uma mistura terrível e nada original de Quem Vai Ficar com Mary? (1998) e American Pie.

A trama vai pela mesma toada. Começando com o exame de admissão dos novos recrutas para o time Baywatch, incluindo Ronnie, Summer (Alexandra Daddario, da saga Percy Jackson) e Brody (Efron), um ex-campeão olímpico expulso da seleção após vomitar em plena prova (os roteiristas devem ter achado a sacada tão boa que a aproveitaram em outro momento do filme), que chega à praia em cumprimento a uma sentença judicial, para culminar numa investigação à CSI sobre a glamourosa dona de uma boate em Malibu, Victoria Leeds (a bela atriz indiana Priyanka Chopra), envolvida com tráfico de drogas, expansão imobiliária, chantagem e assassinatos.

Não é, claro, um filme de história: como todas as comédias mais toscas, em Baywatch, a narrativa é apenas uma escada para enfileirar as gags, e seu sucesso ou ruína depende da qualidade destas. Eu não o(a) aconselharia a gastar seu suado dinheiro, leitor(a). Há um número excessivo de piadas e diálogos envolvendo as partes íntimas dos personagens, e outro tanto, mais grotesco, envolvendo cadáveres. Entre os pontos mais baixos, estão a interminável gag inicial, que envolve Ronnie excitado à visão de C.J. Parker (Kelly Rohrbach, assumindo o papel eternizado por Pamela Anderson na série de TV) e prendendo seu membro numa cadeira de praia, ou a também longa e angustiante sequência ambientada num necrotério (em mais uma ostensiva demonstração do mau gosto do filme, há várias cenas envolvendo mutilações e membros decepados).

Mas, mais uma vez, o carisma e a eficiência do elenco do filme tornam todos esses lances suportáveis, sobretudo o empenho cômico de Efron, que continua cativante apesar de todos os exageros de Brody. Johnson também é o homem certo para reviver Buchannon, provando porque ele é o leading man mais valorizado em Hollywood atualmente.

O saldo, porém, é muito baixo, tanto para fãs quanto para os curiosos. Fiéis devotos do S.O.S. Malibu original não vão reconhecê-lo neste remake, apesar das pontas ilustres de David Hasselhoff (o Buchannon original, cada vez mais bizarro sob as plásticas) e Anderson. E quem esperava entender algo da mística da série – como, por exemplo, ela foi esse fenômeno de audiência pelos anos 90 a fio, ou como ela inspirou um longa quinze anos depois de terminada – vai sair convencido de que, realmente, as séries daquela época, outrora tão bem sucedidas, estão entre as coisas mais awkward que a TV já produziu.

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