Parte do mesmo universo de Ingmar Bergman criado em “A Hora do Lobo” e “Vergonha“, ambos também protagonizados pelo casal formado por Liv Ullmann e Max von Sydow, “A Paixão de Ana” tenta representar mais uma vez a impossibilidade de comunicação entre dois indivíduos dentro de uma mesma relação, a barreira invisível e quase intransponível entre os seres.

Andreas (Max von Sydow) é um homem que luta para superar o recente divórcio. Vivendo uma rotina pacata, ele conhece Ana (Liv Ullmann) uma viúva perdida na dor do luto pela morte do filho e do marido. Os dois iniciam um romance, mas incapazes de superar seus próprios sentimentos, eles não conseguem se conectar de verdade.

Sobre os conflitos como pertencentes às relações humanas, Bergman busca expressar a tentativa humana de criar laços, manter relacionamentos, mesmo diante da própria fragilidade e do emocional corroído. Ao mesmo tempo que é necessário a manutenção desses vínculos, na existência de grupos como família e amigos, coexiste a repulsão natural ao outro, a resistência em verdadeiramente constituir uma conexão com o mundo. Curiosamente, o diretor saia de um breve relacionamento com Ullmann no mesmo período de criação do filme, é possível observar como esses sentimentos repercutem na trama. Bergman era um homem que tinha dificuldades em se desligar do próprio universo, assim como seus personagens.

Estudo pessoal da suposta condição de isolamento de algumas pessoas, espiritualmente quebradas e incapazes de florescer suas relações. Bergman até tenta, mas o longa não tem o mesmo efeito dos filmes anteriores. Assim como Andreas e Ana, o filme não consegue estabelecer uma conexão entre o que quer dizer, e o que é dito.


A HORA DO AMOR (THE TOUCH), 1971

Definido por muitos como um dos piores trabalhos de Ingmar Bergman – inclusive por ele mesmo, e defendido por outros como o grande incompreendido de sua filmografia, “A Hora do Amor” continua provocando reações conflitantes, no mesmo molde da relação excessiva mostrada no filme. Primeiro trabalho do diretor na língua inglesa, além de contar com alguém de fora do seu seleto círculo de colaboradores como protagonista, o longa foi mal recebido pela crítica no seu lançamento, e acabou caindo no limbo de obras esquecidas de Bergman. Sem nenhum destaque até hoje, “A Hora do Amor” toca em um tema sensível e bastante em pauta atualmente.

Karin Vergérus (Bibi Andersson) e Andreas (Max von Sydow) vivem um casamento estável em uma pequena cidade sueca. Com a chegada de David Kovac (Elliott Gould), um arqueólogo americano e amigo do marido, Karin e David, rendidos pela repentina atração, iniciam um caso. O que deveria ser puro prazer, se transforma em uma relação abusiva.

Com “A Hora do Amor”, Bergman volta ao velho tema constantemente explorado no início da sua carreira: as relações conjugais e extraconjugais. O diretor sempre gostou de desvendar a dinâmica romântica e sexual dos seus personagens, em retratos comumente conturbados e pouco idealizados, reflexo dos próprios relacionamentos do cineasta, temas como traição e aborto são abordados sem receios dentro dessas relações. Adotando sempre uma naturalidade extrema ao falar do assunto, subvertendo a noção de posse, como se “casos” fossem parte integrante dos casamentos, Bergman mantém essa linha na trama.

Contudo, adotando tom diverso do usado em outros trabalhos sobre esses casais cheios de questões, no drama estrelado por Bibi, a relação protagonizada passa da camada extraconjugal, para a destrutividade dentro de um relacionamento. David é o típico cara autodestrutivo, que afunda as pessoas a sua volta sem lhes dar chance alguma. Karin parece perdida no casamento de anos, razão pela qual ela cede a toda e qualquer investida autoritária dele. Os dois se entregam cada vez mais a uma relação supostamente sedutora, mas visivelmente violenta. Bergman mostra a extrema dificuldade em se desvencilhar de vínculos abusivos, bem como a sensação errônea de viver algo que faz bem e mal na mesma medida.

“A Hora do Amor” é difícil de digerir. A trama sobre um assunto bem comum nas relações mundo afora, mas que ainda busca mostrar sua relevância, transforma a experiência em algo muito mais íntimo e doloroso. Se a intenção era indignar, conseguiu. Entretanto, Bergman parece não fazer nada além de exibir esse modo destrutivo de relacionamento, como se houvesse certa condescendência com o tema. Sem atribuir a devida importância ao causador de problemas sociais pertinentes como violência doméstica e crimes passionais, o filme não vinga. Obra-prima esquecida ou completo desastre é difícil dizer, mas hoje fico com a segunda opção.

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