Durante o período entre 1952 e 1955, Bergman dedicou parte da sua produção fílmica para realização de comédias. Depois de alguns fiascos na tentativa de finalmente definir sua filmografia, a única intenção do diretor era possibilitar a continuidade da sua carreira, visto a pressão dos produtores para alguma produção de sucesso. “Sorrisos de Uma Noite de Amor” é a consumação desse período, o trabalho final depois de diversas tentativas feitas no gênero – algumas não tão prósperas quanto outras. Sorrisos é, sem dúvida, ainda que não necessariamente o melhor trabalho, o de maior destaque dessa sucessão. Além de responsável por alçar o mestre sueco à popularidade internacional.

Os motivos para essa ênfase vêm, justamente, dessas tentativas anteriores. Com roteiro de Bergman inspirado na obra do romancista francês Marivaux e em uma das máximas de Shakespeare, Sonho de uma Noite de Verão, o texto reencarna ideias antes exploradas. Ainda que não se trate de uma adaptação dessas obras literárias, a essência é a mesma.

O longa examina a odisseia amorosa de oito personagens na virada do século XIX. Fredrik Egerman (Gunnar Björnstrand), advogado bem-sucedido, é casado com a jovem Anne (Ulla Jacobsson), com quem, apesar de juntos há três anos, nunca consumou o casamento. Depois de Egerman balbuciar o nome da ex-amante Desiree Armfeldt (Eva Dahlbeck), famosa atriz de teatro, durante o sono para a esposa, o casal vai ao teatro assistir a mulher em cena. Contudo, a jovem Anne não aguenta ficar até o final. Depois de deixar a desolada esposa em casa, o advogado sorrateiramente volta ao encontro da velha amiga. Mexida pelo reencontro, a atriz organiza um final de semana de festas na casa da mãe, a experiente Senhora Armfeldt (Naima Wifstrand), na presença dos seus dois ex-amantes, Egerman e o conde Carl Magnus Malcolm, acompanhados das respectivas esposas, para um jogo de intrigas sexuais capaz de embaralhar a composição dos casais.

Bergman não era exatamente um artista afiado em criações humorísticas, algo admitido por ele mesmo, mas a sua produção no gênero é inegavelmente de qualidade. Dotado de tom áspero, essa característica é reflexo da influência de experiências pessoais do diretor. Assim como nos seus filmes sobre a relação humana com o divino, fundamentalmente baseado nos seus próprios conflitos religiosos, o cineasta teve uma vida amorosa agitada. Sempre muito crítico de tudo que o rodeava, inclusive dele mesmo, é nesse sentido que o humor do sueco aflora: seus personagens destilam comentários ácidos sobre relacionamentos, o sexo oposto e a própria condição. Como uma eterna análise do cineasta quanto a sua própria vida.

O argumento de todas as suas comédias anteriores (determinados dramas também) se baseia na velha batalha dos sexos, em “Sorrisos de uma Noite de Amor” isso não é diferente. A narrativa propositalmente separa seus personagens femininos e masculinos em extremos, para pontualmente os reduzir a uma só desejo. As mulheres são essencialmente lúcidas, até mesmo a “ingênua” Anne, em contraste com a tolice masculina, ostensivamente expressada na figura do conde Malcolm. É Bergman que os apresenta dessa forma; aliás o diretor parece se empenhar muito mais na construção das suas protagonistas mulheres, comumente melhores escritos que seus pares homens.

No entanto, não à toa todos os seus trabalhos no gênero versarem sobre o mesmo tema: a vida conjugal, seus protagonistas aqui também funcionam como variações de outros personagens. A brilhante Fredrik e Desiree compartilha a mesma personalidade de papéis dos seus intérpretes em “Quando as Mulheres Esperam” e “Uma Lição de Amor”. Ainda assim, o maior trunfo de Bergman na obra é a performance habilidosa do elenco. Harriet Andersson pouco interessante na comédia anterior, destaca-se no papel secundário da criada, Petra. Talvez o papel menos interessante seja o garoto Henrik, filho de Egerman, ainda assim não deixa de entregar bem a melancolia do seu personagem, atormentado por sua paixão pela madrasta. Entretanto, é Eva Dahlbeck que, mais uma vez, eleva a trama. Se Liv Ullmann é a musa da filmografia de Bergman, Eva é a alma das suas comédias. A presença segura da atriz é capaz de ofuscar todo o resto, mas a dinâmica com Gunnar permite a trama crescer junto com a personagem.

Notadamente realizada por questões financeiras, sendo o trabalho que projetou Bergman para o mundo, “Sorrisos de uma Noite de Amor” não deixa de ser um belo exemplo da versatilidade do cineasta. Reconhecido por seus dramas voltados para o eu, a comédia focada nas trivialidades da relação entre homem e mulher, estimula uma visão múltipla do diretor. Mesmo longe de ser considerada uma das obras-primas do cineasta, é, no mínimo, fascinante ver a faceta humorada desse homem com a obra marcada pelas suas agonias mais íntimas. A caracterização teatral somada ao elenco plenamente em sintonia nos jogos de poder e desejos, entrega uma obra imperfeita, mas eficaz no seu propósito de entreter.

Nada como uma comédia romântica nos moldes bergmaniano.

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