Eleito melhor curta-metragem do Festival do Rio 2017, “Borá” é uma delícia de filme. Simples e sem inovações, o filme dirigido por Angelo Defanti de 14 minutos consegue misturar o universo fantástico das pequenas cidades brasileiras com uma crítica às baixarias e ao populismo dos políticos mesmo nos recantos mais inesperados do país.

O curta apresentada a pequena cidade de Borá, no interior de São Paulo, com seus 837 habitantes. Embalando os registros das casas e locais públicos, temos o ator Genézio Barros interpretando uma mensagem postada no Facebook pelo então prefeito do município, José do Posto. O conteúdo traz o desabafo às vésperas da eleição com os boatos sobre o sumiço de 12 pessoas do local e ataques ao rival nas urnas.

Assistir “Borá” é lembrar imediatamente de Odorico Paraguassu, personagem imortalizado por Dias Gomes na clássica novela “O Bem Amado”. O curta-metragem brinca no contraste entre a grandiloquência dos políticos com o jeitão pacato das pessoas e do cotidiano do local, o que gera situações, no mínimo, pitorescas.

É o caso, por exemplo, das lamentações do prefeito tentando justificar o crescimento populacional que tirou da cidade o título de município menos habitado do Brasil. Quando começamos a ouvir que a alta no número de pessoas seria símbolo da prosperidade e do progresso e também da sensação de perda da inocência, não há outra forma a não ser achar graça das desculpas esfarrapadas de um sujeito desesperado ao ver a iminente derrota.

Clichês como começar o discurso com a palavra amigo, colocar a culpa nos ‘intrigueiros’, acusar o rival de conspiração com o político da cidade rival, vangloriar-se dos próprios feitos (no caso, ser a cidade de maior penetração no Facebook e possuir a menor maratona do mundo) estão presentes e são lidos de maneira deliciosamente entre o jocoso, cínico e sério feito por Genézio Barros.

O curta, entretanto, vai além deste universo fantástico por estar situado neste contexto do Brasil. Ao vermos as belas imagens de pessoas simples com atividades pacatas captadas pelo diretor de fotografia Carlos Firmino em contraste com a fala do prefeito, é possível constatar a mesma desconexão da classe política, sedenta por poder e dinheiro, de todos nós que os colocamos lá.

Tudo isso o curta consegue fazer sem inventar a roda por acreditar na força da história e em um eficiente senso estético.

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