Faz mais de 20 anos que o fotógrafo Larry Clark nos brindou com o polêmico, ousado e instigante filme Kids. Naquela película, em 1995, ele nos revelava uma infância bastante perturbadora dos adolescentes que viviam (e vivem ainda) nas ruas de Nova York. Eram jovens que ficavam 24 horas bebendo, correndo de skate, fumando baseados e outras drogas, brigando e transando de forma descuidada e sem sentimentos. E ele realizou o filme de uma forma crua, quase documental, que chegou a escandalizar parte da sociedade norte-americana e a sofrer ameaças da Justiça de sua interdição.

Segundo revelou à imprensa, Clark desejou muito contar a história de skatistas que viviam na rua, de forma despreocupada e que faziam sexo desprotegido quando se vivia um grande momento de atenção com as consequências da AIDS. Para isso passou algum tempo convivendo com eles para extrair daí a formulação dos personagens e das principais histórias do filme. A linguagem é profundamente realista e os diálogos beiram à escatologia. No entanto, o filme tornou-se um marco cultural pela ousadia com que mostrou uma adolescência sem futuro, sem perspectivas, e as irresponsabilidades da família e do Estado para com a juventude. De certa forma, a sociedade e os governos foram tocados pela essência do filme. Grande parte do elenco era composta por jovens de rua e outros que não havia experimentado atuar, mas Clark teve sorte ao encontrá-los e a convencê-los de participar do filme, que continha muitas cenas com palavrões, de nudez e de sexo quase explícito. Alguns deles continuaram a carreira artística, como é o caso de Rosario Dawson, Chlöe Sevigny e Leo Fitzpatrick.

Com o sucesso, Larry Clark dirigiu outros filmes circunscritos ao mesmo público-objeto. Porém, no filme seguinte – Another Day in Paradise e que no Brasil ganhou o título forçado de Kids e os Profissionais – ele coloca em contato direto essa juventude com o mundo adulto, no caso o mundo do crime. É nesse terreno de “sexo, drogas e criminalidade” que ele marcará sua proposta de impossibilidade de um futuro firme para a juventude de hoje se depender do mundo dos adultos. Por outro lado, parecia que desejava saber como jovens não-atores, como a retratada em Kids, se sairia participando de um filme com atores profissionais. Parece ser a obra de Clark mais próxima do cinema mainstream.

Sua trajetória nos filmes seguintes continua mostrando um lado vergonhoso da juventude americana exibindo sexo irresponsável, drogas, espancamentos, jovens alienados, tédio e adultos controladores ou omissos. Começamos a perceber que, ou a temática tem finco em algum senso de realidade para gerar continuidade, ou Clark se esgotava em sua proposta cinematográfica, perdendo o vigor e se replicando. Seus filmes invariavelmente apresentam uma juventude sem perspectivas e em situações bizarras e não avançam. Em Ken Park, as histórias que perpassam o filme insinuam uma quase proposta de retratar o abismo que existe entre pais e filhos e a consequente carência que isso provoca nos jovens. Mas a crítica se dilui no mar de cenas de sexo, drogas e violência. Nos filmes seguintes – Roqueiros (sobre um grupo de adolescentes latinos em Los Angeles que andam de skate, ouvem música punk e convivem com a violência próxima) e Marfa Girl (sobre a vida de adolescentes que moram na cidade de Marfa, no Texas, e descobrem o sexo e as drogas no contexto de violência e racismo na área fronteiriça do México) – há uma tentativa de Clark sair do mesmismo e ainda que o foco continue sendo a juventude e suas desesperanças ele parece encontrar ressonância no público jovem que se vê identificado nas histórias do filme. Não só entre os jovens americanos, mas do restante do planeta, ao ponto de Clark desenvolver seu próprio esquema de distribuição de seus filmes pela internet e isto assegurar a continuação em Marfa Girl 2 em 2017. Mas, entre um e outro filme, nos chega O Cheiro da Gente, de 2014.

Neste seu último filme, Larry Clark transpõe os limites do Oceano Atlântico e aporta em Paris para dizer que o drama da juventude americana não é único; que os adolescentes parisienses padecem do mesmo desígnio: relacionamentos complicados com a família, ausência de perspectiva na vida em sociedade, necessidade de autoafirmação, muita droga, sexo e skate. Ele apenas troca os subúrbios americanos por Paris, mas não os protagonistas dos filmes: jovens que passam o dia fumando, cheirando, brigando, andando de skate, e de noite dançam e transam. Vamos lá: o filme começa com planos fixos e quase aéreos de um parque onde skatistas fazem suas filigranas por cima de um indigente semiconsciente ao ponto de machucá-lo, mas isto pouco importa a eles. Mais uma vez estão dadas as coordenadas para o que podemos acompanhar no restante do filme. Por essas cenas ficam evidentes que esses jovens não têm respeito algum pelo que os rodeiam. Nem por eles próprios. Mais uma vez Clark nos traz imagens de uma juventude desorientada, decadente, como se eles fossem os flâneur do século 21.

São duas as novidades que Clark nos apresenta neste filme: a primeira, os jovens parecem não estarem mais satisfeitos apenas com a vida contemplativa e partem para uma ação discutível – em busca de dinheiro fácil, os rapazes partem para a prostituição, a venda de seus corpos como se estes fossem as únicas posses valorativas num mundo cada vez mais individualista, amoral e regido pelo dinheiro. Para além dessa vulgaridade do sexo, há mais: mães que desejam cometer incesto com seus filhos, a prostituição de menores pelas redes sociais, jovens transando com mulheres e homens mais velhos revelando suas perversões, a prática do sexo sem qualquer sentimento, e por aí vai. É um grande festival de personagens que nada mais são do que esboços, vivendo situações que flertam constantemente com a transgressão. São cenas que mais parecem finos fios com que Clark tece seu frágil mundo.

A prostituição de jovens rapazes que vivem o sexo comercial parece ser um ponto definidor nesta trama. Há uma sequência, contudo, que subverte a tradicional fragilidade da adolescência ou da prostituição como forma de exploração daqueles que têm dinheiro sobre os que não têm – é quando um cliente é drogado e abusado pela turma, e eles transformam a casa num playground punk. Ainda que se relacionem com outros homens, não se sentem gays ou não há qualquer sentimento em questão, como diz um personagem ao refutar o beijo de outro colega que pensa estar enamorado dele: “Só sou gay por dinheiro”.

A outra novidade presente aqui é, sem dúvida, a força da internet e dos celulares. O uso das novas tecnologias, suas possibilidades e consequências não estavam presentes nas outras obras de Clark. Aqui, elas não só fazem parte do cotidiano de quase todos os jovens, tanto para registrar as cenas de sexo abertamente praticadas como dos momentos de violência entre eles, mas fundamentalmente para intermediar os encontros de prostituição. Mais ainda, parecem fazer parte do estilo de filmagem. Em alguns momentos é como se estivéssemos assistindo o filme com cenas registradas por aqueles celulares. Clark parece nos dizer, com isso, que o smartphone comanda nossas vidas, que estamos mais interessados nas fotos que fazemos ou nos vídeos que gravamos do que na realidade ao nosso redor. É duro dizer, mas Clark tem razão: estamos nos deixando seduzir pelo narcisismo tecnológico, amparados numa sociedade que não mais se preocupa com seu igual.

Apesar de alguns jovens do mundo se identificarem com o filme, numa demonstração de que Larry Clark, hoje com 73 anos, ainda reflete o “espírito rebelde da juventude”, O Cheiro da Gente efetivamente exala um odor ácido de desesperança e nos impõe instantes de reflexão para uma questão que é universal. Clark é repetitivo; ele se replica em todos os filmes. Mas, é como uma insistência, um chamado perseverante para todos nós pensarmos caminhos possíveis para a juventude.

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