O ano é 1999. Um verdadeiro fenômeno da história recente do cinema era lançado ao mundo, fazendo milhões de dólares em bilheteria e alcançando um público gigantesco, o que de certa forma era bastante surpreendente, haja vista que o filme em questão foi orçado em aproximadamente 20 mil dólares.

A Bruxa de Blair (1999) fez realmente muito barulho, mas não apenas pelos números obtidos, mas pela forma escolhida para se contar essa história. Utilizando sempre a sugestão, o medo pelo desconhecido, e pelo que não sabemos exatamente o que é, e o filme é extremamente eficaz ao criar um denso clima de suspense, deixando de lado os sustos e os truques baixos dos filmes de terror convencionais, apostando na criatividade como principal arma para chegar ao telespectador.

Depois de algumas continuações muito mal sucedidas, e um bom tempo sem nenhum filme de terror empolgante, que lembrasse o estouro que foi A Bruxa de Blair, em 2007 novamente vimos algo semelhante. Um filme de baixo orçamento, apostando na proposta do documentira, e apenas na sugestão das situações de horror, obteve grande sucesso, e fez com que muita gente dormisse de luzes acesas.

Escrito e dirigido por Oren Peli, Atividade Paranormal (2007) obteve quase 200 milhões de dólares em bilheterias pelo mundo todo, e parecia que iria dar um novo fôlego ao gênero que, junto com as comédias românticas, era o que mais precisava se reinventar e buscar coisas novas.

Hoje sabemos que isso infelizmente não aconteceu.

E ver um filme como Chernobyl (2012) faz com que eu tenha a confirmação de que o gênero de terror é o que mais sofre com a falta de talento e conhecimento de técnicas cinematográficas, e que bons filmes do tipo são cada vez mais raros.

Sendo roteirizado e produzido por Peli, e com a direção do estreante Bradley Parker, o filme conta a história de um grupo de amigos que está fazendo uma viagem pela Europa, e acabam descobrindo algo chamado de turismo radical, e que nesse tour está incluída uma viagem a Chernobyl, cidade isolada devido ao acidente nuclear acontecido nos anos 80. Lá eles conhecem a cidade, visitam prédios abandonados, casas, praças, etc.. Ao voltarem ao carro, eles descobrem que ele foi destruído, e que terão que passar a noite no lugar. Mas logo eles percebem que não estão sozinhos na cidade, e terão que lutar pra sobreviver e escapar desse lugar habitado por pessoas afetadas pela radiação.

Logo nas primeiras cenas vemos imagens feitas pelos próprios personagens durante a viagem à Europa. Parecia que o filme iria novamente pra esse caminho do documentira, dos próprios atores filmarem os “acontecimentos reais”, mas logo na sequência, percebemos que aquilo foi uma espécie de drible, e que ele vai se desenvolver de maneira ficcional mesmo.

Os problemas são apresentados logo de cara. A câmera na mão incomoda as vezes, os planos são mal feitos, e alguns cortes são desnecessários, dando planos demais a cenas que não mereciam tanto. A cena em que eles saem da festa e encontram quatro rapazes que querem confusão é completamente desnecessária, sem nenhuma razão de existir.

E se parecia que a história iria engrenar após eles chegarem à cidade (e nesse ponto tenho que destacar as excelentes locações utilizadas), somos tirados do filme ao ver aquele urso feito em holografia, ou alguma tecnologia com poucos recursos, que é tão mal feito que fica muito difícil acreditar naquilo.

Mas com certeza o pior dos erros está nos clichês utilizados pelo filme, subestimando o público, e apostando no que há de mais óbvio.

O que, de longe, mais me incomodou foi a cretina trilha sonora. É impressionante como, nesse filme, a trilha é usada como uma muleta pra causar susto e apreensão na plateia, e mesmo assim é mal sucedida. Por que que entrou aquela exagerada trilha de suspense no momento em que o guarda conferia quem estava no carro? Aliás, por que a trilha estava presente em várias cenas da primeira metade, sendo que não havia nenhuma necessidade pra isso? E pra se ter noção de como ela tenta ser manipuladora, (mas acaba mais parecendo como feita por um cara que acabou de fazer um curso de duas horas sobre como criar uma atmosfera de tensão em filmes de terror), depois da morte de um dos personagens, é colocada uma trilha dramática forçando a barra para criar uma relação com a plateia. Dá pra acreditar?

E se isso não fosse o bastante, aqui também há o clichê supremo em filmes de terror: o do personagem medroso, que de uma hora pra outra vira machão, quer ir atrás do monstro com um pedaço de madeira para matá-lo, e acaba tomando as atitudes mais estúpidas possíveis. Fica muito difícil acreditar naqueles personagens com as atitudes que eles tomam.

E, infelizmente, o filme acaba ficando no meio do caminho da proposta do que foi A Bruxa de Blair e Atividade Paranormal. Ao mesmo tempo em que ele tenta, de certa forma, deixar indefinido o que é o inimigo, mostrando-os de maneira rápida, ou desfigurando os seus rostos para não vermos exatamente o que são, ele não é capaz de criar quase nenhuma tensão.

Com exceção da cena em que a câmera fica no carro, e observamos de longe dois deles serem atacados, e o momento em que eles tentam recuperar a arma que está num lugar com a presença de um dos agressores, o filme chega a ser chato, monótono, com problemas gravíssimos de ritmo, fazendo com que a plateia sinta muita coisa, menos medo e apreensão.

E com um final que é a cereja do bolo, Chernobyl consegue ter o que de pior existe nos filmes de terror.

Uma pena, pois a premissa era até interessante, e prometia bons momentos. Mas definitivamente não foi isso o que eu vi.

NOTA: 3,0

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