Controvérsia e episódios de homofobia contra ‘Praia do Futuro’, de Karim Ainöuz, são apenas o episódio mais recente na longa tradição de escândalos e debates acalorados do cinema; relembre alguns deles na lista de hoje.

5. Michael Moore Vs. Charlton Heston, por Tiros em Columbine (2002)

De um lado do ringue, um sujeito bonachão, barbudo, sempre ostentando um boné e um sorriso cínico, conhecido por fazer documentários de viés político sobre os Estados Unidos. Do outro, uma das grandes estrelas de Hollywwod nas décadas de 1950 e 60, cuja beleza e altivez o puseram à frente de dois dos maiores épicos do cinema: Ben-Hur e Os 10 Mandamentos.

A treta entre Michael Moore e Charlton Heston ganhou as manchetes em 2002, com o lançamento do documentário Tiros em Columbine. O filme faz uma análise honesta e reveladora do ambiente que originou a chacina na escola que dá título ao filme, em 1999. Entre seus elementos, estava o velho Heston, com mais de 80 anos, mas ainda firme como porta-voz da National Rifle Association, a organização que reúne os amantes de armas nos Estados Unidos. Moore criticou o ex-astro em seu filme, por semear o armamentismo, sem dar a mínima para as tragédias que surgem no seu encalço.

O mais estranho nessa controvérsia é que boa parte da imprensa americana ficou contra Moore, acusando-o de achacar um velho, e silenciando sobre o problema das armas. Uma boa lembrança de que, em tempos turbulentos, até o certo e o errado parecem difíceis de distinguir.

4. A Serbian Film – Terror sem Limites e a os limites da violência (2010)

Este aqui entra na lista pela onda de debates que inspirou sobre os limites da representação cinematográfica da violência, seja ela física, moral ou sexual. Afinal, as três aparecem em abundância em A Serbian Film – Terror sem Limites, o trabalho de estreia do diretor Srđan Spasojevi. Na linha dos filmes de terror onde tudo é sangue e vísceras, como os americanos O Albergue e Jogos Mortais, A Serbian Film ainda acrescenta doses horripilantes de estupro infantil e necrofilia à receita.

Segundo o cineasta, a trama do filme, sobre um ator pornô que se envolve numa produção que logo degenera em carnificina, o filme é uma metáfora do povo sérvio e seu sofrimento sob regimes autoritários. Well, me diz uma coisa: você conseguiu enxergar um milímetro dessa intenção sob a orgia de sangue e estupros desse filme? Pois eu não.

3. Ele não sabe brincar: Lars von Trier em Cannes (2011)

O diretor dinamarquês, um dos cineastas mais talentosos da atualidade, sempre foi um ímã de polêmicas. Cada filme seu é uma afronta às certezas estabelecidas do espectador, e seus métodos de trabalho, especialmente o tratamento rude, quase chauvinista, que ele dispensa às atrizes, já o colocaram na lista negra de muita gente.

Pra complicar ainda mais as coisas, Von Trier é um tremendo linguarudo. E assim foi que, numa coletiva de imprensa sobre o filme Melancolia, um dos seus melhores trabalhos e a barbada de Cannes em 2011, ele resolveu fazer a seguinte brincadeira sobre suas origens germânicas: “Eu entendo Hitler, até simpatizo com ele”.

O resultado não podia ser outro: o filme não levou nada, Von Trier nunca mais foi convidado a Cannes e sua carreira no cinema quase acabou ali mesmo.

Para provar sua coerência (e falta de juízo), a volta triunfal do diretor foi com a odisseia sexual de Ninfomaníaca, uma história intensa, cabeçuda e com cenas de sexo explícito (embora menos do que foi alardeado no lançamento), o que certamente não é a forma mais recomendada de atrair o grande público e a estima dos críticos. Mesmo assim, o filme é muito bom, e vale a conferida.

2. Kleber Mendonça Filho detona a Globo Filmes (2013)

A velha rixa entre cinema comercial e cinema de arte atingiu momentos de clímax no ano passado, quando o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho decidiu abrir o verbo sobre a Globo Filmes, a todo-poderosa companhia cinematográfica nacional, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

De forma bastante lúcida e sem medo do confronto, o diretor de O Som ao Redor, que também é um dos melhores críticos do país, desmontou o prestígio das bilheterias milionárias da empresa e a qualidade artística – inexistente – dos seus filmes. Agora, claro, não se faz algo assim impunemente.

O diretor executivo da Globo Filmes, Cadu Rodrigues, não gostou nada de ler a diatribe de Mendonça Filho (entre outras coisas, o diretor-e-crítico acusou a empresa de só se dar bem na bilheteria por causa do marketing maciço, e de anestesiar a apreciação crítica do público – aleluia, irmãos!) e, numa carta aberta na internet, o desafiou a fazer um filme com a estrutura da companhia, para ver se essa história de marketing daria certo com ele também. Polêmica pouca é bobagem.

1. Léa Seydoux Vs. Abdellatif Kechiche, por Azul é a Cor Mais Quente (2013)

Novamente em Cannes, o ganhador da Palma de Ouro do ano passado foi mais um prato cheio pra polêmicas. Baseado em um graphic novel francesa, Azul é a Cor Mais Quente mostra a vida de Adèle (Adèle Exarchopoulos), uma garota em idade escolar que descobre o sexo e os relacionamentos com Emma (Léa Seydoux), uma garota mais velha, dona de uma personalidade quente e de um irresistível cabelo azul.

O filme em si é maravilhoso, um retrato sublime e sem disfarces dos encantos e dores de um namoro, mas foi a sua produção a causa do problema. Seydoux acusou o diretor Kechiche de explorar a ela e Adèle, obrigando-as a filmar longas cenas de sexo, além de ter agido de forma rude e persecutória, quase um bully.

O estranho é que as acusações de Léa vieram bem depois do lançamento da obra, e que, a princípio, ela tenha defendido o filme e o cineasta. Kechiche se disse tão magoado que achava até melhor que o Azul não fosse lançado.

Difícil entender o que deu errado.

Talvez Léa tivesse ficado assustada com a sua performance, e temesse ser tachada de lésbica. Talvez Kechiche fosse mesmo sádico, mas suas atrizes se submeteram e o resultado ficou incrível. A protagonista Adèle, que evitou se envolver na história, foi quem se saiu melhor – iniciante, quando Léa já trabalhou com nomes como Quentin Tarantino e Woody Allen, e sem muito treinamento formal, ela exibiu uma espontaneidade e frescor que a qualificam para ser uma das estrelas do cinema francês. De qualquer forma, com ou sem polêmica, o filme vale muito a pena.

OUTRAS GRANDES POLÊMICAS RECENTES:

6. Woody Allex X Mia Farrow (round 2)

7. Mel Gibson x Judeus em “Paixão de Cristo”

8. Ben Affleck escolhido como o novo Batman

9. Tentativa do deputado Protógenes Queiroz em barrar “Ted” no Brasil

10. Investigação das autoridades americanas sobre os dados do filme “A Hora Mais Escura”

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