Na década de 1950, o mundo descobriu os jovens. A volta de combatentes da 2ª Guerra Mundial para casa e novas promessas de uma paz duradoura, além do imenso ganho econômico dos Estados Unidos no período, acenderam o rastilho para uma revolução no consumo e no comportamento.

Até então restritos a uma vida austera, emulando o jeito dos pais – repare como as fotos de jovens nas décadas anteriores os trazem sempre sisudos, usando ternos ou vestidos formais – a juventude dos anos 1950, com a mola propulsora da mesada (uma novidade na época), ascendeu como uma força massiva de consumo.

Para esse público, nada de ternos, música clássica ou romances modernistas – eles queriam camisetas justas, rock ‘n’ roll e quadrinhos, mais apropriados à velocidade das mudanças e à intensidade de sentimentos características da puberdade.

Nada, também, do cinema careta, “quadrado”, que foi a norma desde o início dessa arte, ainda no século XIX. Muito além da dicção impecável e da elegância de gestos de um Cary Grant, eles queriam sentimentos brutos, inarticulados, um jeito rebelde e contestador, e disposição para dirigir e brigar. Dois atores simbolizariam essa nova mentalidade: Marlon Brando e Paul Newman.

Newman (1925-2008) tinha tudo para agradar em cheio a essa turma. Com seus inacreditáveis olhos azuis, músculos saltando da camiseta agarrada e um jeito provocador, irônico, ele se tornou o rebelde “glamouroso”, enquanto Brando, com sua fragilidade evidente, virou o rebelde “problemático”. Ambos seriam a maior inspiração para um jovem que, surgido pouco depois, marcaria a fogo essa “juventude transviada”, com sua explosão em três filmes e um apagar brutal num acidente de carro: James Dean (1931-1955).

Diferente, porém, do autodestrutivo Dean e do errático Brando, Newman prosperou na carreira e se provou muito mais do que um rosto bonito. Um dos atores que pôs o Método de Lee Strasberg no mapa, inspirando com isso gerações de grandes intérpretes, Newman também exibiu tenacidade e gosto impecáveis na escolha de seus papéis, sendo capaz de, aos 60 anos, ganhar seu primeiro Oscar, por A Cor do Dinheiro (1986) e seguir fazendo filmes e sendo elogiado até seu último ano de vida.

Confira agora os pontos altos (mais altos, de vários) dessa trajetória vencedora, além de um deslize que mostra que mesmo os mestres não estão à prova de falhas.

Annex-Flynn-Errol-Gentleman-Jim_075. Marcado pela Sarjeta (1956)

A obra que lançou Newman ao estrelato também foi considerada, por muito tempo, o melhor filme sobre o boxe já feito. Trazendo uma honestidade comovente ao viver o lutador Rocky Graziano, com sua vida de encrencas e infortúnios, mas um talento indiscutível nos ringues, Newman mostrou a força do Método e se impôs como uma das promessas da geração “transviada” dos anos 1950.

Muito mais do que uma relíquia da época, porém, Marcado pela Sarjeta traz a mão segura do diretor Robert Wise, além da fotografia neo-expressionista de Joseph Ruttenberg (ganhador do Oscar) para encher de virtudes artísticas o que poderia ser apenas mais uma história de superação. Não perca.

cool-hand-luke4. Rebeldia Indomável (1967)

Considerado por muita gente o melhor filme de Newman, Rebeldia Indomável, se não chega a tanto, é facilmente a atuação mais icônica do mestre. Como o rebelde Luke Jackson, que é pego uma noite depredando parquímetros e enviado para cumprir uma pena severa em uma penitenciária da Flórida, Newman esbanja carisma, e faz com que entendamos, ao fim da trama, a idolatria que os outros presos criam por ele.

Com cenas clássicas, como o desafio de comer 50 ovos em uma hora (copiada em centenas de filmes), ou os constantes desafios de Luke aos guardas, Rebeldia Indomável também marcou a transição do cinema certinho das décadas anteriores para a moralidade complexa da “New Hollywood”, que viria com tudo no mesmo ano, em filmes (também) imortais como Bonnie & Clyde – Uma Rajada de Balas e A Primeira Noite de um Homem.

newman-botella3. Golpe de Mestre (1973)

Muito antes de George Clooney e Brad Pitt, a dupla que unia glamour e sofisticação em Hollywood, nos anos 1970, era Paul Newman e Robert Redford. Bonitões, talentosos e provocadores, eles estrelaram dois filmes com o diretor George Roy Hill, Butch Cassidy & Sundance Kid (1969 – saiba mais no nosso 2º lugar) e este filme.

Uma mistura de comédia e filme de roubo, com uma trama intrincada e uma brilhante trilha sonora, Golpe de Mestre, tal qual a série Onze Homens e um Segredo 28 anos depois, representou o melhor do filme de entretenimento em sua época – divertido e inteligente, acessível e sofisticado ao mesmo tempo – e, como tal, conquistou um lugar entre os grandes do cinema.

1S1b0NQoP1tFoHexcgdQNHBE5w82. Um de Nós Morrerá (1958)

É uma pena que, com todo o sucesso de Butch Cassidy, críticos e público tenham esquecido o quanto Newman foi um grande ator de westerns. Seu melhor momento, de muitos no gênero, foi o pouco conhecido Um de Nós Morrerá.

Considerada a melhor versão já filmada da história de Billy the Kid, o famoso ladrão e assassino adolescente que aterrorizou o estado do Novo México no século XIX, Um de Nós abandona moralismos fáceis e retrata Billy the Kid como uma vítima da corrupção circundante, ao invés de um mero facínora. Muito antes de O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007), também, o filme já discutia o confronto entre o personagem real e o idealizado, com um Billy desiludido, em busca apenas de vingança, e seu admirador, Moultrie, que lhe aumenta os feitos e decide entregá-lo a polícia após se chocar com a hostilidade do ídolo.

O trabalho brilhante de Newman nesse filme cria um dos personagens definitivos da mitologia do western, um modelo para gerações de outlaws posteriores, num filme que, infelizmente, é mais admirado no meio do que entre o grande público. Hora de corrigir essa injustiça de décadas.

51b2e2ff37052417711. Desafio à Corrupção (1961)

Ao longo desta lista, vimos que Newman foi o criador de inúmeros tipos antológicos. Mas seu maior personagem, sem dúvida, é o mestre do snooker “Fast” Eddie Felson, de Desafio à Corrupção.

Um trabalho ágil, tenso, com um dos personagens mais marcantes e bem desenvolvidos do cinema (Felson, vivido por Newman) e uma trama que cresce em suspense a cada lance decisivo da vida do protagonista, Desafio à Corrupção marcou época e fez o nome do diretor Robert Rossen, numa Hollywood onde a moralidade certinha do pós-guerra declinava e tipos marginais ganhavam espaço.

Newman deu tudo de si, criando um Eddie Felson complexo, dividido entre o desejo de ascender pelo talento bruto e as negociatas inescrupulosas do empresário Bert Gordon (George C. Scott), num trabalho que, tal como o Tony Manero de John Travolta (Os Embalos de Sábado à Noite), o Michael Corleone de Al Pacino (O Poderoso Chefão) e o Jake LaMotta de Robert De Niro (Touro Indomável), ficaria indelevelmente associado à sua persona.

Newman ainda teria uma carreira longa e produtiva, interpretando tipos bem diferentes de “Fast” Eddie, mas esse filme continua a ocupar o lugar central em sua filmografia. E foi voltando a esse personagem, em A Cor do Dinheiro (1986), de Martin Scorsese (outro grande admirador de Desafio), que Newman ganharia seu primeiro e único Oscar de Melhor Ator. Imperdível.

Pior filme:

91e1py9vytL._SL1500_Quinteto (1979)

Ao lado de suas obras-primas, Paul Newman certamente fez muitos filmes menores, mas foi seu trabalho pretensioso no igualmente inflado e chato Quinteto, de Robert Altman (dos clássicos M.A.S.H., Nashville e Assassinato em Gosford Park) que ele teve seu pior momento.

A trama é uma mistificação interminável: numa nova era do gelo, de paisagens desérticas e uma fotografia cinzenta e desoladora, Essex (Paul Newman) tem sua família assassinada por um homem misterioso (Craig Richard Nelson), cujo objetivo é atraí-lo para um torneio letal num cassino, onde ele faz parte de um “Quinteto” – os cinco jogadores da competição, os quais, se perderem no jogo, serão executados na vida real.

Ficção científica fria, depressiva e pouco estimulante, Quinteto foi um embaraço para todos os envolvidos na época, prova cabal de que as ambições da “New Hollywood” andavam fora de controle, e que os melhores dias de Paul Newman e Robert Altman pareciam pertencer ao passado. Felizmente, ambos provariam, depois, que ainda tinham lenha pra queimar – mas Quinteto, coitadinho, permanece em seu lugar de direito: o limbo.

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