Não é segredo pra ninguém que a comunidade do cinema adora se ver retratada na telona. Desde pelo menos Sherlock Jr. (1924), de Buster Keaton, os filmes que tratam de filmes – desde biografias romanceadas de grandes nomes, bastidores de obras clássicas, até tributos à magia da Sétima Arte – são muitos, e formam quase um subgênero, com suas tradições e temas recorrentes.

O mais recente exemplo é Birdman, do cineasta mexicano Alejandro González Iñarritú, que faturou quatro Oscars na última premiação, em fevereiro. Com seu retrato singular da crise pessoal e profissional de Riggan Thomson (Michael Keaton), um ator talentoso, mas preso a sucessos passados, Birdman é mais um nobre descendente de Fellini 8 ½, um dos grandes filmes sobre filmes em todos os tempos. Na lista a seguir, você confere mais exemplos de como o cinema também pode servir de matéria-prima para grande… cinema.

(Ah, a lista tem só cinco lugares, então me desculpem, de antemão, os fãs de tantas outras obras notáveis sobre o assunto, como Nasce uma Estrela, O Jogador, Adaptação, Ed Wood e todos os muitos possíveis candidatos ao nosso top 5).

5. Barton Fink – Delírios de Hollywood (1991)

Neste clássico surrealista dos irmãos Joel e Ethan Coen, Barton (John Turturro) é um dramaturgo de sucesso convidado a escrever roteiros em Hollywood. Oportunidade dos sonhos? Ou dos pesadelos?

Uma sátira à história de todo romancista e dramaturgo que “vendeu a alma” a Hollywood, como Scott Fitzgerald, William Faulkner e Nathanael West, Barton Fink honra a tradição dos filmes que retratam a fábrica de sonhos como um lugar mais próximo do aberrante e do sinistro. Tão elegante quanto sombrio, o filme rendeu a Palma de Ouro à dupla americana, qualificando os irmãos Coen como geniais cronistas do absurdo.

4. Cantando na Chuva (1952)

O cinismo dá lugar à magia. Cantando na Chuva, de Stanley Donen, narra de forma encantadora um momento difícil na história da Sétima Arte: a transição do cinema mudo para o falado, em 1927. Na trama, Don Lockwood (Gene Kelly), um astro da velha escola, luta para não ficar atrás na nova onda, enquanto descobre o amor com a espevitada dançarina Kathy (Debbie Reynolds).

Considerado por muita gente como “o” grande musical do cinema, com as canções imortais de Nacio Herb Brown e Arthur Freed – “Singin’ in the Rain”, alguém lembra? –, mais os magníficos números de dança de Kelly, Cantando na Chuva é cinema em sua face mais viva e contagiante, uma preciosidade, que ainda conta uma história pouco lembrada pela indústria – por sinal, revivida no ótimo O Artista, campeão do Oscar de 2012.

3. A Noite Americana (1973)

François Truffaut já era uma figura cardeal do cinema francês quando decidiu prestar sua homenagem à Sétima Arte. O gênio da nouvelle vague, que, antes de ser cineasta, havia sido um recordista de horas na Cinemateca Francesa, aproveitou um mote sugerido por Alfred Hitchcock e resolveu mostrar os bastidores de um set de filmagem, de maneira afetuosa e cômica.

A Noite Americana (referência à técnica usada pelos iluminadores de filmes para rodar cenas noturnas em pleno dia) se provou não só um sucesso de público e crítica – levou até o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro –, como é também uma das obras mais duradouras e queridas do diretor francês. Em suma: uma grande homenagem ao cinema, de um grande apaixonado por essa arte.

2. Fellini 8½ (1963)

Um dos filmes mais admirados e imitados da indústria, Fellini 8½ (ou , para os íntimos) é a obra mais pessoal, criativa e desvairada do mestre italiano. Fruto de um momento de crise na vida do diretor, que, após uma série de filmes fantásticos, se viu diante de um impasse criativo, é uma longa meditação sobre os descaminhos, pessoais e profissionais, do cineasta Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), alter-ego de Fellini. Amantes, produtores de cinema, traumas de infância, até um prosaico engarrafamento são motes para a câmera de Fellini viajar, em cenas delirantes, que aproveitam toda a força da combinação imagem e som.

Com seu visual e texto icônicos, é uma das obras favoritas de cinéfilos em geral e diretores de cinema em particular, tendo inspirado várias imitações ao longo das décadas seguintes, do magnífico Memórias (1980), de Woody Allen, ao ótimo Birdman, grande vencedor do Oscar deste ano, e influenciando inclusive videoclipes, como “Everybody Hurts”, do R.E.M. Eis uma daquelas obras simplesmente indispensáveis.

1. Crepúsculo dos Deuses (1950)

65 anos tomando chuva, e o cinema nunca conseguiu produzir um filme com a agudeza e a impiedade de Crepúsculo dos Deuses.

A obra-prima de Billy Wilder é o retrato mais brutal já feito sobre a fábrica dos sonhos, com uma trama em que a ambição por sucesso termina por envolver os personagens numa espiral de loucura. Logo na abertura, um choque: descobrimos que o protagonista, o roteirista fracassado Joe Gillis (William Holden), está morto – um defunto narrador, tal qual o nosso Brás Cubas. Cabe a ele revelar o trágico desenrolar de sua convivência com a estrela do cinema mudo, agora esquecida, Norma Desmond (a igualmente esquecida – e maravilhosa atriz – Gloria Swanson).

» Leia também: “Crepúsculo dos Deuses” permanece um dos melhores filmes sobre o lado sombrio de Hollywood

Satirizando implacavelmente a tudo e a todos – das dúbias “secretárias” das estrelas aos filmes bíblicos de Cecil B. DeMille, para não falar no triste retrato de outros heróis decaídos, como Buster Keaton e Erich von Stroheim, aqui como o mordomo de Norma – Crepúsculo dos Deuses marca a exploração mais ousada e mordaz que o cinema já fez de si próprio. A senda sombria aberta pelo austríaco foi explorada em vários outros filmes, como Cidade dos Sonhos, de David Lynch, e o recente Mapas para as Estrelas, mas nunca mais com a mesma verve. Um dos maiores filmes já feitos, sob qualquer aspecto.

O pior:

Deu a Louca em Hollywood (2007)

Poucas vezes foi tão fácil eleger o Pior Filme.

Com seu desfile interminável de gags sem graça e paródias tolas, além da fixação escatológica que é a marca do humor nesse começo de século, Deu a Louca em Hollywood é tudo o que o cinema NÃO deveria fazer em qualquer circunstância. Quanto mais para fazer graça de si próprio.

Um apanhado de paródias a franquias que, muitas vezes, já estavam no ponto da autoparódia, como Piratas do Caribe, Deu a Louca mostra que, de fato, há quem se dê ao trabalho de escrever um roteiro, dirigir cenas, atuar, maquiar e compor música para fazer uma longa, desnecessária e datada piada malfeita. Não perca seu tempo.

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