Jornadas são coisas estranhas. Da mesma forma como Ozymandias parafraseia Nietzsche no final de Watchmen dizendo que “nada chega ao final”, é possível dizer que início também são difíceis de precisar. Meu caminho a Cannes começou na cidade italiana de Desenzano del Garda ontem, mas é tão certo dizer que começou com o credenciamento mês passado ou, antes disso, com a minha mudança do Brasil em março.

Se lançando na viagem (e nos diferente tipos de trem)

Nenhum desses vários inícios, claro, se equipara à realidade da jornada em movimento, então, a partir de hoje, aqui no Diário de Bordo, conto um pouco dela, com dicas e insights direto da terra que inventou o cinema (e o croissant).

Mas como eu disse acima, a jornada não começou lá, e sim na Itália: para chegar a Cannes, a ideia era eu sair de Desenzano del Garda de trem para Milão e, de lá, pegar outro trem em direção a Antibes, cidade vizinha a Cannes onde me hospedaria. Uma mudança no cronograma dos trens me deixou uma hora a mais em Milão, criou uma nova escala na cidade de Ventimiglia, na fronteira da Itália com a França, e tornou Nice, na França, como o ponto final do trajeto.


Vantagens da mudança: tempo extra nessa estação linda que é a Milano Centrale

A escala em Ventimiglia foi um tanto desconfortável, provando que cidades fronteiriças tem um quê de estranho mesmo quando se trata de uma fronteira entre França e Itália. Uma estação vazia e escura direto dos filmes de terror não é o melhor lugar para se estar com malas e me perguntei se não estava começando a viagem com o pé esquerdo.


 A chegada em Ventimiglia, no entanto, proporcionou ver esse pôr-do-sol lindo no Mediterrâneo.

Chegando em Nice, dependi de Claudia, minha anfitriã, para me buscar, o que ela topou fazer comigo cobrindo a gasosa, então deixo um salve aqui para a graninha de emergências. Claudia é uma senhora alemã com quem entrei em contato pelo Airbnb e que, juntamente com sua gata Musette, me recebeu em seu apartamento em Golfe Juan (um distrito de Antibes). A propaganda gratuita do site é só para dar aquele toque para quem quiser evitar hotéis que, na região da Riviera Francesa (ou Côte d’Azur, como eles chamam por aqui), são caríssimos.

O primeiro dia do Festival foi um deus nos acuda, mas não porque as estruturas não funcionavam. O ônibus saindo de Nice para Cannes e passando na maior parte das cidades no caminho (entre elas, Antibes) é funcional, custa módicos 1,50 euros por trecho e deixa os passageiros na estação de trem da cidade, a umas três quadras do Palais des Festivals et des Congrès, edifício onde ocorre o evento e construído especificamente para recebê-lo.


Like a Boss na estação de Cannes

O porém é que o escopo do Festival de Cannes pega qualquer marinheiro de primeira viagem de surpresa. Minha simples ida para pegar as credenciais e fazer um reconhecimento no início da tarde se tornou uma cobertura pelo resto do dia, comigo travando contatos e conhecendo o terreno ao mesmo tempo em que fazia fotos e vídeos numa correria tão grande que esqueci até de comer.


A vista do Terrasse

Não que não haja ajuda: as salas de imprensa são um luxo, como o evento, e têm absolutamente de tudo. Este ano, eles até inauguraram o Terrasse des Journalistes, uma sala nos fundos do Palais com uma senhora vista que os profissionais de imprensa podem contemplar pra se inspirar enquanto lutam contra a hora de fechamento (veja acima). Lá, além de café e água non stop, eles até instalaram uma cápsula bem da horinha que deixa você carregar o seu telefone num plástico lacrado que só abre com uma senha que você programa quando o deixa lá.


Alguém me dá essa cápsula de presente?

Quando dei por mim, já estava na hora da grande cerimônia do tapete vermelho e eu tinha que dar um jeito de entrar no meio de pessoas que passaram a tarde toda acampadas naquele sol de rachar por uma chance de ver um ídolo. Estava realmente lotado, então acabei numa sessão para imprensa um pouco distante, mas valeu só por estar ali.


Tão perto, tão longe…

Estar longe das celebridades me permitiu ficar prestando atenção em outros detalhes, como a segurança. Havia guardas fardados no tapete vermelho e até uns no topo do prédio. Percebi alguns à paisana no meio da ala de imprensa, os quais, assim que o evento acabou, trataram nos enxotar e evacuar a área. Além disso, vi que a notícia de que o evento estava usando vasos de plantas gigantes para combater possíveis ataques terroristas como os de Nice era real.


Policiamento pesado numa França cautelosa

Com o fim da cerimônia de abertura, cujos discursos se voltaram bastante à participação feminina no cinema (lembrei de minha colega de site Susy Freitas), o jeito foi voltar para casa para se preparar para o próximo dia, o primeiro com minha presença nas sessões.


Amanhã tem mais!

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