É comum encontrar, em textos sobre cinema, o emprego da expressão Sétima Arte para se referir ao universo dos filmes. Há muito incorporada ao vocabulário geral, a dupla parece tão natural e definitiva que a maioria de nós nem sequer se pergunta: afinal, por que o cinema seria a sétima das artes? Quem decidiu isso? Quais são as outras seis? Haveria uma oitava, uma nona arte? São as perguntas que o Cine SET também se fez, e tenta elucidar no texto que se segue.

No início, eram seis

A expressão Sétima Arte foi cunhada pelo escritor e jornalista italiano Ricciotto Canudo em 1912. Num lance quase profético – afinal, o cinema, em 1912, ainda era visto pela intelligentsia como algo trivial e passageiro, mesmo já ostentando obras-primas como “Viagem à Lua” (1902), “O Grande Assalto ao Trem” (1903) e “A Corner in Wheat” (1909) –, o crítico intuiu que as imagens em movimento tinham vindo para ficar, e já começavam a impor um novo modo de expressão, capaz de se equiparar à música, à pintura ou ao teatro. Mas por que a sétima?

Retrato de Ricciotto CanudoÉ que Canudo, um comentarista cultural erudito, ligado ao movimento futurista de Filippo Marinetti e companheiro de noitadas de Ravel e Picasso, esboçou uma teoria das artes, na qual agrupava os modos de expressão criados pelo homem para representar o belo: são, nessa ordem, a Arquitetura, a Escultura, a Pintura, a Música, a Dança, a Poesia e o Cinema. A sequência indicaria a evolução histórica das artes, conforme estas abandonavam o aspecto prático (a Arquitetura, por exemplo, embelezando a arte de construir abrigos; a Escultura e a Pintura como representações edificantes e símbolos de status) e iam em direção às alturas rarefeitas do espírito (a Música, uma arte totalmente abstrata, sem inspiração na natureza e voltada apenas ao prazer dos ouvidos). Nessa linha, o Cinema seria uma arte síntese, que aproveitaria elementos das demais para criar suas próprias formas de representação.

Um dos primeiros e mais nobres expoentes dessa turma querida, os cinéfilos, Canudo levava bem a sério a tese de que o cinema era uma arte, no mesmo nível das outras. Expôs sua teoria em artigos e manifestos na primeira década do século passado, defendeu firmemente o valor artístico do cinema contra a noção de que este era apenas um produto para as massas, como um sorvete ou um chapéu novo, e fundou, em 1920, o Clube dos Amigos da Sétima Arte, um dos primeiros cineclubes de que se tem notícia. O resto – como se diz? – é história: o cinema vingou, a expressão Sétima Arte pegou e você tem o Cine SET aí, na tela do seu computador, neste exato instante.

Dr. Manhattan, em WatchmenOnze artes?

Mas há quem vá ainda mais longe do que Canudo na classificação das artes. É justo: nestes 103 anos, a fotografia ganhou um novo status, com nomes como Robert Capa e Henri Cartier-Bresson emprestando nova poesia a seus instantâneos da realidade, e coisas como os quadrinhos e até os videogames se desenvolvendo a ponto de ganhar seu próprio espaço na cultura, com estudiosos e tradições próprios.

A elaboração de sucessivos historiadores das artes chegou, nos últimos anos, à seguinte lista de manifestações artísticas: Música, Dança/Coreografia (videodança incluída), Pintura, Escultura/Arquitetura (não mais separadas, como na teoria de Ricciotto), Teatro, Literatura, Cinema (firme na 7ª posição, mas alimentando as artes seguintes), Fotografia, Quadrinhos, Videogames e Arte Digital (distinção contestada por alguns, que incluem os videogames neste último segmento). Onze artes, ao todo.

É um debate que provavelmente nunca vai ter fim, ante algo tão fluido e imaterial como a cultura, mas agrada saber que a lista pode crescer ainda mais: já tem quem defenda o design de objetos, a gastronomia e até a publicidade como formas de arte autônomas, dignas de entrar para o rol das “nobres”. Enquanto a querela corre, me contento em desbravar as maravilhas da, esta sim, definitiva Sétima Arte.

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