Os problemas técnicos de filmes antigos, principalmente os brasileiros, muitas vezes nos tiram do clima, dificultam o entendimento das ideias do filme, principalmente quando ainda estamos iniciando no rumo da cinefilia, e o amadurecimento do olhar para obras menos convencionais está iniciando.

Ganga Bruta, do cineasta mineiro Humberto Mauro, pode ser considerado um filme assim. Subestimado, o filme de 1933 apresenta problemas de áudio, devido ao método de captação de som no sistema Movietone (a sincronização era feita através de discos). Foi bastante mal recebido quando foi lançado, pelo público, e inclusive pela crítica especializada. Na verdade, só adquiriu mais respeito quase vinte anos depois, quando a geração de cineastas do Cinema Novo, como o próprio Glauber Rocha, passou a defender o filme como um dos maiores do cinema brasileiro.

Quando nos acostumamos com as condições técnicas, o que se vê é um filme visualmente lírico, imersivo, mas sem perder o foco narrativo, com uma montagem que chama a atenção até hoje, mesmo com os olhos treinados pelo cinema contemporâneo. Nele há uma direção avançadíssima para a época, com uma decupagem que vai muito além do seu roteiro, e da sua trama bastante simples. Este filme mineiro é um exemplar cinematográfico que tem a direção como maior virtude, e quando isso acontece nas mãos de um dos maiores do cinema brasileiro, têm-se um grande filme.

A trama, escrita por Mauro baseada no argumento de Octavio Gabus Mendes, conta a história de Marcos (Durval Bellini), um engenheiro com boa condição financeira que mata sua esposa (Lu Marival) na noite de núpcias, ao descobrir que a moça não era mais virgem. Absolvido, ele vai para o interior, Guaraíba, trabalhar numa fábrica sua. Lá conhece Sônia (Déa Selva), uma jovem moça de personalidade espevitada, que chama sua atenção. Ela é casada com Murilo (Décio Murillo).

Ganga Bruta trata sobre desejos sexuais reprimidos, misturados à ótica machista do seu protagonista, que leva a trama também para a discussão sobre violência doméstica. Temas espinhosos, que faz com que seja natural a incompreensão que o filme causou na época. Compreendemos essas questões visualmente, através dos enquadramentos que separam os personagens, que se olham, desejam, mas muito dificilmente são capazes de concretizar seus desejos, dividir o mesmo quadro. Há um sofrimento silencioso presente, que enriquece os subtextos, fazendo com que a decupagem econômica projete interpretações que vão além do que está na tela. A cena da seresta, que faz com que Marcos relembre um determinado acontecimento do passado, é dos maiores momentos do cinema brasileiro.

Mauro descobriu uma maneira brasileira de tratar dos conflitos que eram vistos no cinema americano ou europeu. Emprestou a estética que os filmes de arte utilizavam, mas para mostrar rostos comuns, um método de atuação mais aberto, ao mesmo tempo que utilizava uma fotografia que compreende que o ambiente conta a história, e que por isso se deve compreendê-lo com um olhar de dentro para fora. Isso se dá até mesmo nas impressionantes cenas de construção, que podem vir a dialogar com o cinema soviético, mas claramente não são a mesma coisa. Nisso, o fotógrafo Aphrodísio de Castro se destaca grandemente.

Era algo novo para a época, uma coisa nossa, que fez com que Glauber colocasse Mauro como “o pai do cinema brasileiro”. Não estava enganado.

Além do visual, destacam-se as atuações do elenco principal. Por se tratar de uma trama restrita, pequena, muito da direção dependia dos atores para que os conflitos ficassem aparentes, pois os personagens são à flor da pele, com suas qualidades sublimes, e defeitos sádicos, que inevitavelmente escoam na violência. Durval Bellini com o seu perturbado Marcos, que sente desejos fortes, somados a sua masculinidade exacerbada, mas que se vê obrigado a reprimir tais sensações; e Déa Selva com sua inesquecível Sônia, uma personagem que muda radicalmente o rumo do filme, e o segura até seu desfecho, com seu olhar ingênuo e provocativo, numa atuação com diversas camadas.

O cinema mineiro hoje é local das produções audiovisuais mais instigantes do cinema brasileiro, fora do convencional, alcançando repercussão grande em importantes festivais internacionais. Mais do que destaques nordestinos como Pernambuco e Ceará. E certamente Humberto Mauro e seu Ganga Bruta nos mostram que esse olhar amadurecido de cinema tem lastro, legado de grandes artistas que se dedicaram ao cinema, quando conseguir equipamento mínimo era a maior preocupação. E vale muito a pena revisitar, há muita coisa ainda a aprender ali.

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