O filme escolhido para abrir a mostra competitiva de Longas-Metragens do 9º Amazonas Film Festival, Colegas, vem de uma passagem vitoriosa pelo Festival de Gramado, onde ganhou o Kikito de melhor filme. Um road movie singelo e bem-intencionado, cheio de referências a filmes clássicos, Colegas, contudo, tem sérios problemas na sua vontade de abarcar diferentes registros e influências.

Stallone (Ariel Goldenberg), Márcio (Breno Viola) e Aninha (Rita Pokk) são moradores de um instituto para crianças com síndrome de Down. Sem pais, sua educação vem das aulas e do trabalho na videoteca do local, onde conhecem os filmes a ponto de saber decorado um sem-número de diálogos e sequências. Eles, porém, almejam mais: Stallone quer ver o mar; Aninha quer se casar no dia de São Judas Tadeu; e Márcio quer voar. Stallone então bola um plano para roubar o carro do jardineiro do instituto (Lima Duarte, que também narra o filme), e a aventura começa aí.

O mote simples dá vazão a um tom onírico, felliniano, e a uma atmosfera permanente de inocência e diversão, mesmo que, de vez em quando, os três rapazes precisem brandir armas e cometer crimes para sustentar sua viagem. A obra faz diversas referências à década de 1970: filmes brasileiros do período, a música de Raul Seixas (que inclusive faz uma “participação”, numa das melhores sequências do longa) e até um charmoso Kharmann Ghia marcam presença. Influência fundamental, porém, é o humor: ingênuo e exagerado, deliberadamente artificial, como nas antigas chanchadas – já aí o filme corre o risco de limitar seu público.

Infelizmente, como em outras produções recentes que revisitaram o período, Colegas encontra problemas no material. Sem conseguir se decidir entre o registro onírico, o humorístico e o realista, Galvão enfraquece o conjunto. Várias gags estão no ponto, divertidas e criativas (os créditos de abertura, normalmente desprezados no cinema brasileiro, estão ótimos, cheios de alusões a filmes famosos); outras atrapalham o ritmo do longa, como as inserções do jornal sensacionalista e algumas das discussões entre os detetives. Uma decisão estranha do diretor, num filme de pegada tão infantil, foi o de liberar os palavrões nessas cenas, afastando conscientemente um grande público potencial. Galvão reafirmou, no Festival, que queria fazer uma obra de apelo universal, tratando seus protagonistas apenas como os jovens que são. Pode até ser, mas o filme resultante, no entanto, aponta outro caminho – a narração de Lima Duarte, em tom de fábula, não deixa dúvidas.

Colegas, apesar de tudo, mostra um diretor e uma equipe obstinados em apresentar um produto diferenciado, original na proposta e na realização. O maior mérito está na escolha dos protagonistas: o casal Ariel e Rita e o rebelde Márcio têm sensibilidade e carisma de sobra, elevando o trabalho a todo momento em que aparecem em cena. Se mais enxuto e bem definido nas suas escolhas estéticas (as cenas mais sóbrias, como as de interação entre os protagonistas, se sobressaem às demais), teríamos um dos melhores filmes brasileiros da produção recente. Do jeito que ficou, temos um trabalho simpático, mas que ficou aquém de um filme realmente memorável.

Nota: 7,0

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