O cinema brasileiro de massa continua à procura de novos gêneros além da comédia escrachada para atrair o público. “Alemão”, por exemplo, segue a linha de obras como “Assalto ao Banco Central”, “Federal” e “Segurança Nacional” em investidas nos filmes de ação. Já este “Confia em Mim” busca no suspense americano sua inspiração. Para alavancar a bilheteria, conta com a marca de Mateus Solano, alçado como um dos grandes atores do país após o sucesso do vilão Félix de “Amor à Vida”. O resultado fica na típica obra do Supercine: distração previsível sem a capacidade de gerar raiva ou adoração.

O filme traz a história de Mari (Fernanda Machado), uma subchefe de cozinha desvalorizada pelo patrão e em um relacionamento turbulento com a mãe. Tudo muda quando conhece Caio (Solano) durante uma rodada de vinhos em um restaurante. Os dois iniciam um romance e ele a incentiva a abrir o próprio negócio. Porém, o rapaz acaba sumindo com o dinheiro da moça.

Como dá para perceber pela breve sinopse, o roteiro elaborado pelo estreante Fábio Danesi passa longe da originalidade. Percebe-se um grande cuidado do texto para colocar pequenos elementos na história com o intuito de gerar pistas para futuras ações dos personagens. Seja no pacote de ecstasy ou um diálogo sobre a compra de cavalos pelo haras da mãe de Mari, o texto de “Confia em Mim” trabalha na constante busca de uma trama concisa e redonda, apesar de exagerar em certos momentos (o relógio do policial, por exemplo).

Em um roteiro mais preocupado com a sequência da trama de suspense, resta à dupla de protagonistas conseguir levar certa alma aos respectivos personagens. Sem excessos, Fernanda Machado aproxima o público de Mari pela naturalidade. Isso leva o espectador a criar um elo com o que vê na tela por reconhecer ali uma pessoa normal com um mundo de frustrações e angústias, o que ajuda a perdoar a ingenuidade excessiva dela. Mesmo sendo difícil tirar Félix da memória, Mateus Solano se esforça o quanto pode para extrair algum tipo de personalidade em Caio. Como o texto não faz questão de explorar o personagem, o ator utiliza o charme e pequenas nuances (veja o leve sorriso ao receber uma carta de Mari no fim do filme) para a construção do vilão.

Por outro lado, chega a ser irritante como o chefe do restaurante necessita ser duro o tempo todo ou a família da protagonista age sempre com um semblante blasé. Não há espaços para que Mari dialogue com eles para criar um entendimento maior do público com o universo da história. Isso para não falar da bizarra inserção do policial Vicente (Bruno Giordano, em uma atuação canastrona). Como um deus ex machina, “Confia em Mim” força a barra para fazer a trama seguir em frente ao colocar um tira #chatiado com a injustiça cometida contra a pobre garota.

Com uma montagem confusa de uma parte decisiva da trama envolvendo o personagem Caio e uma direção trivial do estreante Michel Tikhomiroff, “Confia em Mim” poderia ser um retrato da fragilidade humana nas grandes cidades, deixando pessoas vulneráveis a golpistas ou aproveitadores capazes de preencher um vazio emocional seja através do amor, religião ou qualquer tipo de discurso manipulador. A aposta foi seguir no campo do suspense tradicional para agradar uma plateia acostumada com o cinema americano.

Nessa toada, basta agora a ficção científica e o terror.
Somente não precisa ser tão burocrático.

NOTA: 5,0

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