A crise econômica e política é uma fonte de ideias para o cinema da América Latina, que encontra nesse contexto novas temáticas afastadas das já comuns com filmes sobre violência, sexo e narcotráfico.

Os legados de produções como “Cidade de Deus”, “La Vendedora de Rosas” (Colômbia, 1998) e o “La Noche de Los Lápices” (Argentina, 1986) se mantêm firmes em uma região tomada por escândalos de corrupção, que atingem as mais altas esferas do poder e aos quais se soma um futuro econômico incerto. Mas o esgotamento dos clichês abriu espaços para novas produções de diretores que mudam as histórias saídas das entranhas do realismo fantástico.

“As diferentes realidades de nossos países permitem que não se fantasie muito. Se você escreve uma história muito vinculada à realidade, pode parecer um filme de ficção”, disse à Agência Efe o chileno Manuel Basoalto durante o lançamento de “Neruda – Fugitivo” no festival de cinema Bogocine, em Bogotá (Colômbia).

Para ele, o cinema latino-americano foi por muitas vezes prisioneiro das temáticas que afetam os países. “O cinema latino-americano sempre buscou novas temáticas, novas linguagens. Agora elas estão surgindo, mas sem deixar de lado elementos que compõem nossa realidade”, argumentou.

Para o diretor, embora sejam mantidas produções que abordam temáticas de ilegalidade, o fim das ditaduras e as mudanças geracionais e tecnológicas criaram um movimento com rumo incerto, com “temáticas diversas” influenciadas pelo descontentamento popular com a política. “A má política gera situação de desesperança. Tem que existir um resgate destes sonhos. O cinema tem uma tarefa importante”, defendeu.

Os smathphones, a internet e os sistemas digitais se transformam nas ferramentas “que muita gente jovem com ideias e vontade” utiliza para “dar poder ao cidadão” através de imagens e sons, explicou.

A mesma opinião tem o porto-riquenho Alex Santiago Pérez, que apresentou no Bogocine sua estreia “Las vacas con gafas” (2014). Para este diretor de 45 anos, as novas formas de fazer cinema “coexistem” com as crises da região, pois, atualmente, “é muito barato” fazer um filme, já que os custos foram reduzidos em até 85% devido às novas tecnologias. “Em Porto Rico estamos passando pela maior crise econômica dos últimos 60 anos, mas é muito curioso porque coincidiu com a nova forma de fazer cinema”, disse à Efe o diretor, que alega que atualmente as produções para a telona não estão necessariamente ligadas ao orçamento, “mas com o que se tem que dizer”.

Já para o diretor e documentarista mexicano Carlos Alcocer, o impacto da crise será refletido em uma redução nos recursos públicos que os países destinam à produção de longas-metragens. “Apesar das crises financeiras que tivemos, as pessoas procuram o cinema como um escape”, disse ele, que roteirizou e dirigiu o curta-metragem “La mejor oferta”, também presente no Bogocine.

O enfoque do cinema da América Latina que o afasta do lugar-comum tem a ver com a perspectiva dos roteiros e a edição, entre outras, segundo o diretor brasileiro Alexandre Paschoalini. Embora o futuro da sétima arte na América Latina, de acordo com os diretores, dependa pontualmente do fortalecimento das redes de distribuição para aumentar a visibilidade das obras locais, todos concordam quanto à oportunidade que os desafios comuns do continente representam para novos projetos e ideias.

“Onde não tem sofrimento, não há arte. A arte é um processo doloroso. De repente, a fase pode ser que o melhor que pode acontecer para o cinema da América Latina é que a crise tenha chegado para ficar”, concluiu o porto-riquenho Pérez.

da Agência EFE

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