Após um evento traumático, uma dubladora se vê às voltas com um estranho fenômeno em “El Prófugo”, suspense argentino que estreou na Berlinale e foi exibido no Festival de Londres deste ano. Depois de brincar com a comédia policial em seu primeiro longa “Morte em Buenos Aires”, a diretora Natalia Meta faz uma releitura do giallo – estilo de suspense popular na Itália nos anos 70 – em seu novo projeto.

Nele, Inés (Érica Rivas, a fantástica noiva em fúria de “Relatos Selvagens“), uma soprano que divide seu tempo entre o palco e o estúdio de dublagem, se sente sufocada dentro de um relacionamento sem sentido com Leopold (Daniel Handler), que se mata após uma briga. Ela tenta superar o trauma, mas sua voz não é mais a mesma, frequências estranhas começam a surgir em suas gravações e um músico enigmático, Alberto (Nahuel Pérez Biscayart, de “120 Batimentos por Minuto“), surge repentinamente em sua vida.

Ao invés de encher seu giallo com sangue e tripas, Meta opta por uma conexão mais sutil com o estilo italiano. Trabalhando em parceria com a diretora de fotografia Barbara Alvarez, ela faz ótimo uso da ambientação noturna da trama, com longas sombras e cores artificiais fortes dialogando com o trabalho de diretores como Mario Bava e Dario Argento.

NO LIMITE DO CONVENCIONAL

O roteiro, escrito pela cineasta e baseado livremente no romance “El Mal Menor”, de C. E. Feiling, pinça elementos de vários cantos do suspense, montando uma colcha de retalhos que pode parecer familiar demais para o espectador mais astuto. O cenário do estúdio de dublagem remete a “Barberian Sound Studio”, o elemento das mensagens escondidas em gravações lembra “Vozes do Além”, e assim por diante. O resultado tira o senso de surpresa da produção – o que é um problema em um gênero que depende dele.

O maior acerto da narrativa está em deixar em aberto a situação da protagonista, nunca esclarecendo qual a real natureza de sua condição. Tendo que lidar com o estresse pós-traumático e com uma mãe dominadora (a musa almodovariana Cecilia Roth, terrivelmente desperdiçada aqui), é crível que os acontecimentos bizarros em sua vida sejam fruto de sua imaginação – e é essa a proposta mais assustadora trazida por “El Prófugo”.

No entanto, a produção opta por soluções convencionais a despeito de seu potencial. É um pouco frustrante, por exemplo, ver a caracterização de Alberto servir como um spoiler do personagem e a explicação do fenômeno sobrenatural que pode estar afligindo Inés ser jogada numa cena expositiva súbita.

Apesar de seu final curioso e seu estilo impecável, “El Prófugo” tem a cara e a cor dos filmes B estilo Supercine: não é ruim, mas tampouco prende a atenção ou vai além do esperado.

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