Num certo sentido, uma série de TV – ainda mais as atuais – são como um trem em movimento. Uma série nos leva numa viagem, às vezes aos trancos e barrancos, mas geralmente com as principais paradas já programadas com antecedência. Claro, o mundo real muitas vezes interfere, mas hoje em dia, quando uma série começa, seus criadores já precisam ter, mais ou menos, ideia de como ela vai se desenvolver, de como ela vai acabar e planos alternativos para contornar imprevistos.

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Expresso do Amanhã, por sua própria natureza e premissa, estabeleceu esse paralelo até de forma meio não-proposital. A viagem nessa primeira temporada – a segunda foi confirmada já há algumas semanas – não foi das mais suaves. Os primeiros episódios foram sim, meio chatos. Fizeram uma preparação necessária, mas ainda assim… poderiam ter sido melhores. Houve problemas de bastidores. O visual da série ainda parece inapropriado, iluminado demais – desperta até comparações com as séries do canal CW – e não tão opressivo. O desenvolvimento de vários personagens não foi tão bem conduzido. E, claro, pairava sobre a série a enorme sombra do incrível filme de Bong Joon-Ho. Mas com o tempo, Expresso do Amanhã começou a jogar suas surpresas para cima do espectador, a criar um legítimo clima de tensão, e até a se desvencilhar do espectro do filme.

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Tudo isso conduziu a estes dois últimos episódios da temporada. No nono, intitulado “O trem exige sangue”, vemos a continuação de revolução a bordo do trem. Melanie está presa e prestes a ser executada, Layton e os rebeldes enfrentam a possibilidade catastrófica de serem mortos por gás venenoso, e a situação parece desesperadora.

Apesar de bom, este episódio, sem dúvida, tem suas falhas. Tanto a fuga de Melanie quanto a salvação de Layton num momento crucial perto do clímax são conveniências narrativas, com os roteiristas forçando um pouco a barra para livrar dois personagens-chaves.  Realmente, “O trem exige sangue” não é um episódio, um payoff, à altura do que foi prometido no anterior. Alguns ganchos do anterior não são aproveitados também.

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Ainda assim, o episódio entrega ação e suspense para o espectador e, ao menos, uma cena poderosa: em dado momento, Layton precisa fazer um sacrifício para fazer com que a revolução aconteça. A atuação de Daveed Diggs nessa cena é, provavelmente, a melhor dele em toda a temporada com o ator aproveitando o momento ao máximo para transmitir as nuances do estado interior do personagem.  Neste momento, Layton percebe o peso das tomadas de decisão a bordo do trem, que muitas vezes significam a vida ou a morte. Ele vira praticamente o reflexo no espelho da Melanie.

SEM ACOMODAÇÃO OU MEDO

Mas, então, chegamos ao episódio final da temporada, o décimo, “994 vagões”, que é melhor. A estrutura social no trem muda definitivamente, e por uns minutos, “Expresso do Amanhã” tenta responder à pergunta: “o que aconteceria se os pobres virassem o jogo contra os ricos?”. Uma pergunta pertinente, já que no Snowpiercer os recursos são limitados e a situação é de vida ou morte. Vemos personagens lidando com as consequências de suas escolhas e até um pouco de humor, cortesia do ótimo ator Steven Ogg no papel de Pike. Vemos como a figura do mito de Wilford ajudava a manter uma situação precária sob controle – frágil, é verdade, mas ainda assim controlável. E um pouco sobre o passado de Melanie, e mais uma camada é adicionada a esta personagem fascinante.

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Quando o espectador se acostuma com a ideia de pensar no futuro da série como um experimento social ou um tratado de sociologia, uma reviravolta surge literalmente de um trilho paralelo. É um momento que vale não estragar, mas é o tipo de coisa que fundamentalmente transforma a narrativa de uma série e prepara o terreno para um futuro com enorme potencial. E de novo, a série parece engatar uma tangente para um novo caminho. É de se admirar quando um seriado chuta para gol de muito longe assim… Mas como se viu ao longo dessa temporada, não se pode acusar os roteiristas de Expresso do Amanhã de serem medrosos ou acomodados.

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Em todo caso, o espectador passa os minutos finais de “994 vagões” com os olhos grudados na TV; hipnotizado pelas atuações de Jennifer Connelly e Alison Wright, e pelos bons efeitos visuais; e ansioso para ver aonde isso tudo vai. A viagem desta primeira temporada demorou em engrenar e não foi exatamente sem percalços, mas o interessante é que a série soube se reinventar algumas vezes e se constituiu numa bela surpresa. Seus criadores parecem estar seguros do destino da viagem, e talvez surja daí essa capacidade de surpreender o espectador. Foi uma boa temporada no geral e a próxima promete ser melhor. Ainda há mais trilhos a percorrer…

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É isso, pessoal, agradeço a quem acompanhou essas resenhas semanais e espero que tenham gostado. Nos vemos na segunda temporada – seja lá quando ela vier…

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