Faltando um mês para o Natal, a Netflix já encheu seu catálogo de diversas produções para serem conferidas neste fim de ano. Nos longas-metragens, a grande maioria é apenas uma cópia natalina de outros longas do streaming, entretanto, a animação ‘Klaus’ mostra que é possível encontrar um bonito e delicado filme com toques de originalidade. Apesar de ser digno de elogios em diversos elementos, para mim, o principal feito da produção é possuir uma narrativa voltada ao Natal que ainda assim é relevante para qualquer outra época do ano. 

Desafiando essa grande dificuldade dos filmes inspirados no Natal, ‘Klaus’ adota uma narrativa simples e linear ao apresentar o protagonista Jesper (dublado por Rodrigo Santoro) sendo desafiado por seu pai a tornar a gélida Smeerensburg um exemplo no setor postal. Entretanto, os moradores da remota cidade possuem uma grande rivalidade entre clãs, o que dificulta o trabalho do carteiro, o qual cria uma saída criativa ao motivar o carpinteiro Klaus (Daniel Boaventura) a responder cartas de crianças com brinquedos. 

Sim, a história de Jesper é o famoso arquétipo de personagem que realiza um bem comum para seu próprio benefício e, ao final, as coisas mudam de figura. Neste campo de desenvolvimento de personagens, o melhor exemplo é realmente Klaus, pois, é interessante descobrir quais motivações pessoais leva o sujeito a abarcar na proposta de Jesper. Além disso, o carpinteiro também apresenta a parte mais fantasiosa da história, a qual não se distancia totalmente da realidade de pessoas que sentem a presença de um ente querido mesmo em sua ausência. 

Fechando o trio protagonista, a professora Alva (Fernanda Vasconcellos) apesar de ser restrita a uma pequena participação, também possui uma grande e simbólica história. Mesmo com a ótima participação de J.K. Simmons na dublagem original, ressalto o grande trabalho do elenco brasileiro, o qual consegue ser até mais divertido e criativo que o americano em diversos momentos do longa. 

Além dos personagens, a simplicidade também é levada por todo roteiro: os 90 minutos são bem distribuídos entre apresentação de trama, desenvolvimento do enredo, problemática, parte melancólica, plot twist e desfecho feliz. Aqui, o grande diferencial é realmente a história criada e como ela insere aos poucos os elementos voltados para a temática natalina. 

“Um ato gentil de verdade sempre gera mais gentileza” 

 

Mesmo se sustentando com uma bela técnica de animação 2D e uma boa proposta de enredo, ‘Klaus’ não esquece seu propósito natalino. A inserção dos elementos que criam a mitologia em torno do Papai Noel é feita de forma paciente e até um pouco óbvia, permitindo seu público revisitar lembranças pessoais sobre a data comemorativa a medida que a trama avança. 

A grande beleza do ato de bondade de Klaus e Jesper é seu resultado em toda cidade com a diminuição de rivalidades e a reativação da escola. Novamente, em tempos de extremismo político e ideológico por tantos países, uma animação que dialoga bem com o público infantil mostra alternativas a tais embates. Tudo isto é representado a partir de uma belíssima estética, que verdadeiramente marca uma carreira promissora para Sergio Pablos como diretor após tantos anos trabalhando com animações. 

Em linhas gerais, ‘Klaus’ é um grande filme e ótima escolha de primeiro longa original de animação da Netflix, inclusive, uma produção como este vale muito mais que a trilogia ‘Príncipe do Natal’ e mostra onde o streaming realmente deveria apostar para se manter à frente da concorrência. Assim, seja por sua grande história ou pela inovadora abordagem do Natal eu repito: ‘Klaus’ é um filme natalino para ser assistido o ano todo. 

‘Era uma vez um Sonho’: filme atualiza definição de insuportável

Era Uma Vez um Sonho é um filme sobre a importância da família. Até aí tudo bem, o cinema explora esse tema praticamente desde que se consolidou como forma de narrativa. Mas, ao final do filme, a sensação mais forte que fica é a de pensar “puxa, ainda bem que essas...

‘Nosso Amor’: romance sensível aborda câncer de mama de forma realista

Conhecido principalmente por protagonizar filmes de ação como a franquia ‘Busca Implacável’, Liam Neeson aproveita o seu destaque no drama ‘Nosso Amor’ para entregar uma atuação emocionante ao lado de Lesley Manville (indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por...

‘The Glorias’: a jornada universal das mulheres

“Viajar é a única educação”. Inquieta, desafiadora e sagaz. Embora essas três palavras não sejam o suficiente para descrever Gloria Steinem, elas podem nos dar uma visão norteadora de uma das vozes do movimento feminista norte-americano. Jornalista e ativista social,...

‘Destruição Final: O Último Refúgio’: feijão com arroz do cinema catástrofe

O ator escocês Gerard Butler parece ser boa gente, alguém com quem poderia ser legal tomar uma cerveja e bater papo. E também parece ser um sujeito que realmente gosta de trabalhar com cinema. Mas... o cara só faz filme ruim, não há como relevar isso. Sério,...

‘Babenco – Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou’: Bárbara Paz faz retrato honesto de um dos grandes

Em um dos momentos mais íntimos de “Babenco - Alguém Tem Que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”, ele e Bárbara Paz, sua companheira (e diretora deste documentário), discutem sobre o uso da expressão “baseado em fatos”. Ele defende, ela refuta e diz que um filme...

‘Bill & Ted – Encare a Música’: nostalgia pura em diversão despretensiosa

Lembram-se do Bill e do Ted? No passado, eles viveram duas divertidas e malucas aventuras cinematográficas que tinham tudo para dar errado, mas acabaram funcionando e se tornando inesperados sucessos graças a roteiros que aliavam besteirol e criatividade, e à química...

‘Rosa e Momo’: Sophia Loren desvia de clichês para brilhar na Netflix

Sophia Loren, um ícone da história do cinema, retorna as telas depois de seis anos. A última aparição havia sido em “Voce umana”, produção dirigida por Edoardo Ponti, seu filho e também diretor de “Rosa e Momo”, longa-metragem disponível na Netflix que traz a estrela...

‘O Que Ficou Para Trás’: terror inteligente sobre fantasmas internos

O filme de terror O Que Ficou para Trás, do diretor estreante Remi Weekes e lançado na Netflix, é um exemplar do gênero que usa os sustos e elementos sobrenaturais para tecer um hábil comentário social sobre o problema mundial da imigração. Isso não é algo novo:...

‘Cicada’: delicado romance marcado por traumas masculinos

Com uma poderosa abordagem sobre traumas masculinos, "Cicada" é um corajoso drama que aponta Matthew Fifer como uma nova voz do cinema queer dos EUA. O filme de Fifer e Kieran Mulcare, que estreou no Festival Outfest em Los Angeles e foi exibido no Festival de Londres...

‘Ammonite’: um cansativo sub-‘Retrato de uma Jovem em Chamas’

Depois do sucesso de seu primeiro longa, "O Reino de Deus", Francis Lee torna a apostar em um romance LGBT em sua nova produção, "Ammonite". No entanto, as semelhanças entre os filmes acabam por aí. Mesmo contando com performances poderosas de Kate Winslet e Saoirse...