Com pouco mais de 10 anos na direção de curtas-metragens de ficção, Rafael Ramos já trilhou os mais diversos rumos indo do convencional de “A Segunda Balada” e “A Menina do Guarda-Chuva” até o lisérgico de “Aquela Estrada”. Todos estes caminhos convergem para “Manaus Hot City”, filme de pouco mais de 13 minutos, de autoria quase completa (além da direção, Rafael ainda escreveu o roteiro e assumiu a direção de fotografia) e uma das obras mais lindas feitas pelo audiovisual amazonense nestes últimos anos. 

Descrever uma sinopse ou tentar resumir a história de “Manaus Hot City” é procurar uma simplificação a qual o filme não se propõe. A ação do curta transcorre nos encontros e vivências de três jovens e, acima de tudo, no sensorial para descrever esta cidade intensa e repleta de afetos e, ao mesmo tempo, melancólica e violenta. 

Através deste sensorial, “Manaus Hot City” oferece o nosso tradicional mormaço, o calor condizente com o título do filme. Somos bombardeados pela luz solar avassaladora na corrida pela praia de Maria do Rio e na hora em que ela cozinha dentro de casa. Enquanto isso, a câmera se aproxima dos personagens e permite-nos observar cada traço deles como o cabelo azul de Frank Kitzinger, quase os tocando, algo feito por eles através de abraços, danças e carinhos de aconchego. Se a visão do bodó não é das mais belas, o gosto do limão despejado lentamente sobre o peixe forma-se na nossa cabeça tal qual o sabor da farinha do Uarini e do arroz, embalado tudo na bela canção “Recuerdos de Ypacaraí”, de Caetano Veloso. 

Para uma cidade caracterizada e conhecida por ser calorosa em todos os sentidos, a proposta imagética e sensorial feita por “Manaus Hot City” simboliza à perfeição um retrato audiovisual da capital amazonense diferente do habitual dos chavões de ‘selva de pedra’ ou da constante necessidade de afirmação de Manaus ser uma cidade e não uma floresta que tão permeiam o discurso identitário da cidade. Igual fizera na série “O Boto” ao lado dos colegas de Artrupe, Rafael Ramos oferece novos pequenos pedaços para esta construção audiovisual de uma visão manauara feita por pessoas da própria terra sem nunca a intenção de ser definitivo, mas, sim um ponto de mudança e reflexão constante.

 VIOLÊNCIAS E RESISTÊNCIAS

“Manaus Hot City”, entretanto, não se limita exclusivamente a ser um exercício técnico ou de sofisticação visual/sensorial: o curta observa que, em meio a este vibrante caldeirão de cores, sabores, cheiros, existe uma tristeza e cansaço revestida de melancolia de pessoas que lutam por sua existência em um constante processo de resistência às violências do cotidiano. Maria (Maria do Rio) deseja ir embora. Quer ficar sozinha. Sente saudades das coisas que não voltam, das pessoas que não voltam. Lamenta a ausência de conversa. Apesar de não acreditar na saudade pelo excesso de stories e fotos, a falta que Abreu (Kitzinger) sente é da amiga prestes a ir, algo que não precisa ser dito para ser notado. Para completar, guarda um segredo duro que carregará para o resto da vida. 

Este contraste com a cidade de cores vivas ganha contornos ainda mais densos pela intolerância e violência contra a comunidade LGBTQIAP+ em Manaus. Maria é travesti, enquanto Abreu é gay e sofre com o preconceito de uma sociedade machista na orla da cidade. Nada mais terrivelmente natural para uma das cidades mais bolsonaristas do país e símbolo trágico do negacionismo de uma pandemia com mais de 2 mil mortes, números superiores aos registrados em todo Japão e Portugal. A existência e resistência a tamanha ignorância, ao mesmo tempo, em que se faz necessária exige uma entrega desgastante. 

Como apresenta o poema de abertura do filme intitulado ‘Amazônida’, de Susy Freitas, esta ambivalência em relação à cidade e tudo que a cerca, além do constante duelo de pertencimento ecoam em “Manaus Hot City”. Tudo sem a necessidade ou objetivo de oferecer respostas. Apenas o deleite de observar construções tão potentes de carreiras cada vez mais interessantes no audiovisual como as de Rafael Ramos e Maria do Rio. 

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