Em um poema intitulado “A noite escura da alma”, o espanhol São João da Cruz descreve a jornada da alma, desde todas as dificuldades que enfrenta no mundo carnal até a união com Deus. Essa “noite escura” é a prova de fogo derradeira para o crescimento espiritual, como se costuma ver nas histórias de muitos santos católicos – e é justamente essa a ideia presente no cerne de Noite Escura da Alma, estreia de Breno Castelo na direção: como se quebra um homem tão fiel a Deus?

Depois de ter trabalhado como ator em curtas amazonenses como A Última no Tambor, Et Set Era e O Necromante, Breno se lança como diretor pela primeira vez neste longa, também roteirizado e protagonizado por ele. Noite Escura da Alma acompanha a história de Augusto, um empresário de classe média alta, religioso e pai de família dentro dos moldes tradicionais, que, depois de ter uma visão profética e demoníaca, vê sua vida e a de seus familiares entrar em uma espiral de terror.

Desde o começo do filme, Breno deixa bem claros os paralelos bíblicos que norteiam sua narrativa: Augusto é um católico fiel, que frequenta a missa com a esposa, Beatriz (Ana Oliveira), e até tem projetos para incentivar a participação dos jovens na catequese. A religião é uma constante na vida do personagem, e, se por um lado alguns diálogos reforçam esse aspecto de maneira um tanto expositiva, por outro, a direção de arte de Igor Falcão faz um bom trabalho ao inserir aqui e ali quadros religiosos e crucifixos nos ambientes em que o protagonista convive.

Assim, ao estabelecer o contexto que cerca Augusto, o filme funciona bem ao preparar o terreno para poder investir na derrocada moral e espiritual do personagem. A metáfora religiosa muitas vezes passa bem longe da sutileza – em alguns momentos, Augusto tem visões em que atravessa literalmente um deserto, tal qual os quarenta dias de tentações enfrentados por Jesus Cristo. Ainda assim, porém, a ambientação é um dos pontos altos do longa: Breno entende que não precisa recorrer a jump scares como muleta narrativa, e prefere investir num terror atmosférico e psicológico, brincando com a mente do personagem e do público. Até mesmo as aparições de eventuais criaturas são rápidas o suficiente para que os efeitos utilizados não incomodem tanto em sua concepção visual.

CHOQUES GRATUITOS E TRAMA CONFUSA

É uma pena, portanto, que o longa perca força justamente ao se lançar na espiral de loucura e paranoia em que seu próprio protagonista descende. Se filmes como Coração Satânico (1987), inspiração confessa de Breno, ou até mesmo o recente Hereditário (2018), mesclam bem em seus últimos atos as fronteiras entre o sobrenatural e a loucura de seus personagens, Noite Escura da Alma peca por apresentar um terceiro ato inchado, recheado de situações diferentes que buscam “quebrar” o espírito de Augusto e pura e simplesmente chocar o espectador no caminho.

Qual a razão, por exemplo, de duas cenas longas de estupro além do puro valor de choque, se uma duração menor ainda acarretaria em um impacto na vida do personagem? Ou da longa conversa expositiva com o padre na igreja, ou mesmo o grande monólogo no “embate final”? Nesse ponto, uma melhor montagem poderia contribuir muito para acompanharmos o impacto da trajetória do protagonista: em certo ponto, o caos se instala de maneira em que não sabemos mais o que é real ou não, mas corremos o risco de não nos importar mais pela longa duração e confusão oferecidas pelo último ato.

Ainda assim, “Noite Escura da Alma” apresenta algumas soluções elegantes trazidas pela direção de Breno, como os intervalos em que o vermelho invade a tela ou mesmo os efeitos sonoros de zumbidos, ecos e ruídos que nos colocam na mesma posição incômoda em que o protagonista se encontra. No fim das contas, embora o resultado funcione mais como um portfólio das referências que Breno Castelo carrega consigo, Noite Escura da Alma também é um exemplo digno de nota de um autor disposto a não deixar de lado em momento nenhum a temática da qual procura tratar – tanto para o bem quanto para o mal.

‘A Ratoeira’: percepções sensoriais do calor e da cultura manauara

São muito variantes as percepções que se tem de “A Ratoeira”, curta de Rômulo Sousa (“Personas” e “Vila Conde”) selecionado para o Festival Guarnicê 2020. Em seu terceiro projeto como diretor, ele entrega uma obra que experimenta várias construções cinematográficas e...

‘Enterrado no Quintal’: sabor amargo de que dava para ser maior

Tinha tudo para dar certo: Diego Bauer, recém-saído do ótimo “Obeso Mórbido”, adaptando um conto de Diego Moraes, escritor amazonense cercado de polêmicas, mas, de uma habilidade ímpar para construção de narrativas altamente descritivas, sarcásticas, sem qualquer tipo...

‘O Barco e o Rio’: angústias e desejos sufocados compõem ótimo filme

O Amazonas fechou a mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros do Festival de Gramado 2020 com “O Barco e o Rio”. Quarto filme da carreira de Bernardo Ale Abinader, o projeto se mostra um salto evolutivo enorme dentro da filmografia do diretor/roteirista,...

‘Atordoado, Eu Permaneço Atento’: registro arrepiante da ditadura brasileira

O Brasil parece ser um país em que o passado e o presente vêm convergindo nos últimos tempos, e nesse contexto, o curta-metragem Atordoado, Eu Permaneço Atento, co-dirigido por Lucas H. Rossi dos Santos em parceria com o realizador amazonense Henrique Amud, chega como...

‘Manaus Hot City’: experiência afetiva, melancólica, quente e sensorial

Com pouco mais de 10 anos na direção de curtas-metragens de ficção, Rafael Ramos já trilhou os mais diversos rumos indo do convencional de “A Segunda Balada” e “A Menina do Guarda-Chuva" até o lisérgico de “Aquela Estrada”. Todos estes caminhos convergem para “Manaus...

‘De Costas Pro Rio’: dilemas de Manaus em curta irregular

Velhos dilemas (ou dilemas velhos?) sobre Manaus formam a base de “De Costas pro Rio”. Dirigido por Felipe Aufiero, diretor amazonense radicado em Curitiba há mais de uma década e co-fundador da produtora Casa Livre Produções, o curta-metragem de 16 minutos aborda a...

‘Boto’ – Episódios 12 e 13: no fim, um charme manauara inebriante

Depois de todos os atrasos possíveis na TV Ufam, “Boto” chegou ao fim. Apesar de deixar claro que não havia tanta trama para a quantidade total de capítulos, a série da Artrupe Produções encerra bem os principais núcleos da história nos dois últimos episódios e volta...

‘Boto’ – Episódios 10 e 11: afetos, traumas e intolerância

Seguindo a irregularidade característica da série, os episódios 10 e 11 de “Boto” conseguem, ao mesmo tempo, trazer momentos brilhantes – talvez, os melhores até aqui – e outros beirando o tédio. A reta final escancara que, apesar de ter cinco protagonistas, cabe a...

‘Boto’ – Episódios 8 e 9: sobra tempo e falta história

Momento confissão: chega a ser difícil escrever algo novo sobre os episódios 8 e 9 de “Boto” em exibição na TV Ufam desde a última sexta-feira, sempre às 23h, no programa Cine Narciso Lobo. Os capítulos voltam a bater nas mesmas temáticas já abordadas anteriormente...

‘Transviar’: trama inchada prejudica foco de série amazonense

As questões relativas à identidade de gênero seguem em alta no cinema brasileiro e são cada vez mais necessárias devido ao crescente fortalecimento do discurso conservador na sociedade. Produções que abordam o processo de transição de personagens transexuais têm...