É difícil falar de “Nostalgia da Luz”, novo filme do famoso documentarista chileno Patricio Guzmán. É evidentemente inadequado apontar o filme como um fracasso, mas na mesma medida, parece incorreto afirmar que se trata de um êxito absoluto.

Ao constatarmos apenas depois de cerca de 50 minutos de projeção o seu verdadeiro assunto, a sua intenção principal, fica uma sensação enorme de tempo perdido, pois o que se via no início era um bem intencionado documentário sobre as excepcionais particularidades astronômicas e arqueológicas do deserto do Atacama, e que só depois mostra a sua verdadeira intenção ao comparar as constantes buscas astronômicas, por galáxias e mais galáxias, com a das mulheres que mesmo depois de décadas continuam a procura dos restos mortais dos seus familiares, mortos pela ditadura de Augusto Pinochet.

Apesar das imagens que abrem o filme serem bastante impressionantes (como quando observamos de que maneira a poeira interestelar se funde com a areia do deserto, formando um mosaico surreal de extrema beleza), e as questões levantadas sobre as semelhanças que ocorrem entre os ofícios dos astrônomos e dos arqueólogos serem verdadeiramente oportunas, nem se comparam com o impacto causado pelas falas daquelas mulheres que estão há anos em busca de encontrar nem que seja um osso de um familiar.

No início da projeção somos atacados pela informação de que o presente não existe. O material de trabalho da astronomia, da mesma forma que é o do arqueólogo, ou do historiador, é o passado, pois o presente é apenas uma ideia. Mesmo se estamos pensando em alguma coisa na nossa mente agora, ela já se constitui como passado, mesmo que seja um passado que envolva milésimos de segundo em relação ao agora.

Através disso, fica claro que os equipamentos de última geração, como os caríssimos telescópios apresentados pelo filme, cumprem rigorosamente o mesmo papel que as traquitanas analógicas dos arqueólogos que escavam alguma parte do deserto: ambos estão investigando elementos de amplas possibilidades (constelações), pistas de povos antepassados (desenhos em rochas), elementos de ações anteriores para elaborarem respostas que apontem um caminho para o futuro. E ambos estão localizados em um lugar bastante simbólico e cheio de histórias: o deserto do Atacama.

Esse mesmo lugar, no século XIX, foi usado como “moradia” dos mineradores, que tinham condições de serviço semelhantes às do trabalho escravo, e anos depois foi reaproveitado para esconder os corpos de milhares de presos políticos do governo de Pinochet (o mesmo personagem abordado em filmes anteriores de Guzmán, como a clássica trilogia “A Batalha do Chile”), fazendo com que uma série de mulheres estabelecessem um novo sentido à vida, que é encontrar esses entes familiares, nem que seja apenas os ossos de um dos pés. Da mesma forma que o Atacama é material de busca para arqueólogos e astrônomos, também é para mulheres comuns em busca de um fim de vida menos atormentado.

A lógica estabelecida é brilhante, não há como negar. Mas Guzmán concatena tais ideias de maneira pouco envolvente, arrastando demais a história no seu início, fazendo com que acompanhar o filme se torne quase um exercício de paciência.

A figura crítica do diretor perpassa toda a duração do filme, e aqui infelizmente atrapalha a narrativa em relação ao foco e objetividade. Parece que Guzmán não quer perder a chance de falar sobre a maior quantidade possível de temas e relatos relacionados aos malefícios do governo de Pinochet, e de como o Chile é um país que esquece a história de milhares de pessoas mortas injustamente, e isso vai fazendo com que o filme inicie uma série de histórias paralelas que apenas tiram a continuidade da mais impactante. O preso que visita novamente o centro de concentração no deserto e conta como aprendeu a ver as constelações; o arquiteto que de memória conseguiu desenhar todos os cômodos do centro de concentração no qual ficou preso; a história da moça que foi criada pelos avós, após ter sido salva em troca da vida dos seus pais, são momentos que possuem certa personalidade e força, mas dividem demais a atenção do espectador, comprometendo decisivamente o ritmo do filme.

Mas as imagens das mulheres procurando minuciosamente qualquer sinal de um osso humano numa área de milhares de quilômetros quadrados, somadas aos seus depoimentos devastadores, nos invadem de uma maneira muito forte, transformam o filme numa experiência poderosíssima, num nível que poucos trabalhos conseguem.

E ficam na memória, diferentemente do que acontece em muitos segmentos do seu país.

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