O incêndio que destruiu a catedral de Notre Dame em abril deste ano fez muitos cinéfilos lembrarem de suas primeiras referências da majestosa igreja parisiense, que, ao menos para os da minha geração, apareceram por cortesia da Disney, com a animação “O Corcunda de Notre Dame”, de 1996. Baseado na obra do escritor Victor Hugo, o filme não foi o primeiro e nem o último a contar as histórias dos personagens que rodeiam aquele prédio histórico. Em 1939, uma das versões mais conhecidas do livro trouxe Charles Laughton e a então novata Maureen O’Hara nas peles de Quasímodo e Esmeralda, respectivamente. O resultado é uma adaptação contundente e ousada para o clássico criado com o intuito de celebrar a igreja que, neste ano, vimos arder em chamas.

Realizado pela RKO Pictures com um orçamento gigante para a época – R$ 1,8 milhão -, “O Corcunda de Notre Dame” foi inovador em vários aspectos, sobretudo o técnico. A maquiagem, em especial, é fundamental na construção do Quasímodo de Laughton como um homem de aspecto assustador, mas com vulnerabilidade e uma amabilidade latente.

Considerado por muitos o melhor Quasímodo do cinema, Laughton consegue transmitir todas as emoções conflitantes do personagens. Ele não exige a empatia do espectador, mas a ganha à medida que a trama vai se desenvolvendo. Quando o filme chega a seu clímax e Quasímodo pede clemência, Laughton o faz com tanto coração que não há como não torcer pelo personagem. Já a escolha de O’Hara para viver a cigana Esmeralda é questionável. Dito isso, a atriz entrega uma performance apaixonante e foge do estereótipo do interesse amoroso sexualizado.

“Notre Dame” ainda queima

Há um forte subtexto político que o diretor, William Dieterle, e os roteiristas, Bruno Frank e Sonya Levien, usam com maestria para contar a história. Ambientada no século 15 (e publicada no 19), a obra original aborda temas como a moralidade imposta pela igreja, as diferenças de classes e como o conhecimento era privilégio de poucos – lembremos que aquele era o período da Idade Média. Segundo Novikoff (2014):

“Um dos feitos notáveis do romance é a evocação animada e a inclusão de múltiplas camadas da sociedade medieval em um único panorama. Hugo faz isso enquanto reconhece as tensões existentes entre as diferentes classes. Isso é apresentado de formas implícita e explícita, como quando o narrador cita que as figuras alegóricas da peça de Gringoire (clero, nobreza, mercadores) representam as mesmas diferenças de classe que inspiraram a revolução recente. Hugo estava determinado a traçar problemas sociais e políticos atuais de volta às suas raízes medievais, e, para chegar ao efeito máximo, ele deve inserir sua fábula em uma cuidadosa reconstrução da Paris medieval, seus prédios e seu povo. Como ocorre com a pintura de paisagens urbanas, nós somos introduzidos não só à imponente catedral e ao Place de Grève, mas também aos diferentes quarteirões e ruas que formavam o núcleo da vida intelectual: a cidade, a universidade, o palácio da Justiça. Detalhes minuciosos dos prédios, seus arcos e vitrais são descritos cuidadosamente, enquanto a população (tanto no século 15 quanto no 19) segue esquecida”.

Esse espírito que permeia todo o livro também é transmitido à adaptação assinada por Dieterle. Embalado por uma trilha de arrepiar a espinha (cortesia de Alfred Newman), que se confunde com os sons ensurdecedores dos sinos e com a multidão em polvorosa, o filme constrói seus personagens principais com base nas dicotomias entre moral e amoral, sagrado e profano, belo e feio. Sempre com base nos conceitos e valores do diácono Claude Frollo. A figura dele como a máxima opressão naquele contexto é trabalhada com zelo pelo filme, seja pelos diálogos ou pela fotografia, que apresenta o personagem como um ser soturno e ameaçador. A apresentação de Quasímodo também é eficiente neste contexto, já que, antes de conhecermos o personagem, vemos as percepções de terceiros sobre ele: “toca bem o sino da igreja”, “é um monstro”, “está possuído”… Por isso, quando Laughton surge, as expectativas são quebradas e o que se vê é o rosto do medo, da vergonha e da compaixão.

Mas a protagonista do filme é, a exemplo da obra que a originou, a catedral. Assim como Quasímodo, ela não é apresentada de imediato. A primeira vez que a vemos é através de uma janela, como pano de fundo das discussões entre os personagens que formam o alto da pirâmide de poder que era a Paris do século 15. Em outras palavras, aquele prédio era um instrumento para que clero e monarquia exercessem seus privilégios. Ao mesmo tempo, a catedral também surge como o prédio grandioso que é, gigante perante qualquer um que entre ali, seja um rei ou um simples tocador de sinos. Esse tocador, no entanto, é o que parece estar mais inserido naquele lugar: amigo dos sinos e das estátuas, Quasímodo respeita aquele lugar, mas entende que ali é um santuário para todos.

“Livros podem destruir um reino” 

No início do filme, o rei Louis XI diz que “as catedrais são a escrita do passado” e que a “imprensa escrita é a atualidade”, para desespero de Frollo, que diz que vai proteger a França para que a “antiga e sagrada Ordem” não seja destruída pela literatura. “Opinião pública é perigosa”, afirma o diácono em outro momento. Pois é.

É assustador o quanto essa obra e suas adaptações conseguem dialogar com os dias de hoje da mesma forma que o fizeram nos séculos 15, 19 e 20. Quando o filme de Dieterle foi realizado, o regime nazista já não era mais “apenas” uma ameaça. Em meio às filmagens, a Segunda Guerra Mundial estourou na Europa. Minorias eram dizimadas e conhecimento era retido. Oitenta anos depois, “O Corcunda de Notre Dame” ainda ressoa, e não apenas pelo fogo que tomou sua maior inspiração; mas também pela caça aos diferentes e às feiticeiras que, a exemplo de Quasímodo e Esmeralda, queriam apenas sobreviver e ser.

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