O cinema de Elia Suleiman sempre foi pautado pelo humanismo e pela metalinguem cinematográfica. O Que Resta do Tempo e Intervenção Divina são obras que reproduzem o toque delicado do seu autor em tratar questões da existência humana, ao mesmo tempo, em que se coloca dentro delas – além de atuar, Elia é ele próprio nos seus trabalhos, diminuindo o espaço cênico entre o artista e a pessoa real, criador e criatura. É interessante que dentro desta visão pessoal, ele insira o seu amor pela identidade e o sentimento de pertencimento cultural ao seu país (a Palestina) sem a necessidade de ser político (ainda que seus filmes tragam estas discussões para zona de confrontação), preferindo valorizar seu fascínio pelos costumes, valores e ideais da sua sociedade. 

Depois de um hiato de quase 10 anos sem dirigir – tempo que o seu cinema humano fez falta para retratar a falta de tolerância que rege a sociedade contemporânea – o diretor retorna do “descanso” com um metafilme tão delicioso quanto cínico: O Paraíso Deve Ser Aqui. Nele, acompanhamos o próprio diretor e sua vida pacata na Palestina, até o momento em que decide viajar para França e Nova York em busca de financiamento para o seu próximo filme. 

Seguindo a estrutura de esquetes cômicas individuais, que dentro da cronologia episódica do filme, revela a sátira política de como o seu autor encara o mundo a sua volta, O Paraíso Deve Ser Aqui é uma fábula surreal sobre o tempo estranho em que vivemos. O mundo tornou-se um grande absurdo formado por pessoas excêntricas, sinaliza o diretor. A figura silenciosa de Elia, que quase não fala, mas observa e julga tudo a sua volta, a partir dos seus olhos arregalados o aproxima da comédia tragicômica construída por Jacques Tati e seu fantástico as Férias de M.Hulot, emprestando o humor das imagens e gags visuais sem diálogos dos filmes mudos de Buster Keaton, ainda que o senso de ironia contemporânea emerja de Aki Kaurismaki e seu Outro Lado da Esperança.

O fato é que Suleiman revela um talento enorme em explorar os momentos iconoclastas do filme, deixando-o ambíguo, com cenas paradoxais que variam entre o lúdico e a ironia cartunesca sobre a natureza humana em suas melhores e piores facetas. Suas metáforas visuais sempre trazem boas reflexões, através de momentos banais, que dizem muito (com tão pouco) sobre os problemas e as desigualdades sociais presentes na sociedades desenvolvidas e subdesenvolvidas como quando o diretor observa do seu apartamento uma loja que mostra o vídeo de modelos brancas desfilando pela passarela enquanto uma auxiliar de serviços gerais negra limpa o local; ou então quando sinaliza para o eterno conflito territorial entre Palestina e Israel, ao retratar em uma passagem extremamente inteligente: o vizinho do diretor, que insiste em invadir o seu espaço (o quintal), sem qualquer permissão para pegar frutas ou regar suas plantas. Uma cena simples, mas que reflete comportamentos diários invasivos em pequenas escalas que acontecem ao redor do mundo e que servem de metáfora para as tensões maiores na realidade palestina. 

SENTIMENTO DE PERTENCIMENTO E UNIÃO COLETIVA

No fundo, O Paraíso Deve Ser Aqui utiliza um senso de humor peculiar pela via do estranhamento para descontruir a visão deslumbrada que as sociedades chamadas desenvolvidas, são vistas por nós. Há um prazer artístico nas imagens criadas por Suleiman – sua mise-en-scène é rigorosa com planos centralizados e simétricos no formato retangular do scope – em mostrar cidades como França e Nova York marcada por desigualdades, forças institucionais repressoras e a intolerância reinando entre as pessoas.

Ao observar as ruas da França, com tanques e aviões militares rodeando ruas vazias, “O Paraíso Deve Ser Aqui” coloca o dedo na ferida do terrorismo contemporâneo e mostra que este tipo de violência silenciosa e baseada no medo, não diferencia nada da visão tacanha ocidental que enxerga cotidiano palestino marcado apenas por guerra étnicas e uma violência indiscriminada – a cena em Nova York onde as pessoas transitam com armas presas ao corpo, ainda com traços nonsenses, reproduz bem este espírito cínico e despretensioso do cineasta em mostrar a onda conservadora que assola o ocidente e que os próprios não enxergam em si mesmo esta soberba. A ironia proposta por Suleiman é de apenas perceber que estes lugares supostamente desenvolvidos possuem problemas sociais tão graves quantos os de sua terra natal.

Este mosaico do comportamento e das percepções humanas em relação a identidade, sugere um pouco da situação de não-pertencimento do cineasta em cada situação cotidiana. Em determinado momento, ele está em um escritório de uma produtora de filmes, que nega o seu trabalho apresentado, afirmando que ele não é suficientemente palestino. Afinal, sua obra é uma comédia agridoce e o que os produtores querem é algo mais próximo de uma visão exótica e sofrida dos palestinos frente aos países desenvolvidos.

Por isso, em O Paraíso Deve Ser Aqui a noção de identidade ganha um discurso nacionalista não enviesado para o aspecto político e sim humano, de estudar a ação individual em nossa sociedade principalmente nos conflitos e tensões provocadas, obtendo esta representação da condição do estrangeiro a partir das contradições que ele experimenta com as outras culturas.

Ainda que esse jogo metalinguístico seja uma das forças do filme, não há como negar que o exercício proposto se torna cansativo pela repetição excessiva de algumas temáticas. É um humor que mesmo inteligente, se revela muito peculiar e de difícil acesso em certas situações. A excessiva duração para um filme de esquete (são quase duas horas) acaba por torná-lo redundante.

Mesmo assim, Elia Suleiman abraça a sátira política surreal e mostra que o Paraíso que buscamos às vezes em nossas vidas não passa de um conceito utópico, individualista e egoísta. O verdadeiro (Paraíso) está no sentimento de pertencimento e de união coletiva – como a belíssima cena final evidência através do poder e da arte da dança – do povo e é dela que surge a celebração da vida, e mais ainda, do orgulho de ser palestino.

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