Grande estreia do francês Jérémy Clapin na direção de longas-metragens, conhecido por seus curtas e comerciais, a animação “Perdi Meu Corpo” (2019) foi sensação no Festival de Cannes de 2019, onde estreou na Semana da Crítica e venceu a principal categoria da mostra paralela. Não só isso: o trabalho fez história ao ser a primeira animação a vencer o prêmio.

O trabalho coescrito por Guillaume Laurant, roteirista do já clássico O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, é inspirado no livro “Happy Hand” lançando por Laurant em 2006.

Sucesso de crítica e ganhando espaço onde passa, a animação adquirida pela Netflix acompanha a aventura de uma mão decepada na busca em se reconectar com seu corpo perdido. Paralelamente, conhece-se momentos da vida de Naoufel, o dono da mão e um jovem entregador de pizza que abandonou o sonho de ser pianista e astronauta depois de uma tragédia familiar.

Nessa combinação de elementos obscuros e nostalgia, o grande destaque fica realmente por conta do visual deslumbrante. O traço é cuidadoso e encantador, tornando a experiência agradável e fácil de acompanhar. A narrativa das imagens consegue manter sem dificuldades o suspense e a curiosidade ao longo dos seus 81 minutos. As imagens de focadas em atividades feitas com as mãos conta uma história a parte. Contudo, o roteiro não compartilha da mesma sorte.

‘ROMANCE’ STALKER

Ao contar a história, “Perdi Meu Corpo” intercala a busca incessante da mão decepada por algo perdido na cidade de Paris, e flashbacks que, aos poucos, revelam o contexto por trás dessa procura envolvendo o jovem protagonista. Seguindo essa ideia, o filme parece funcionar como uma metáfora um tanto literal e inusitada, da eterna busca humana em se sentir completo e da necessidade de deixar sonhos, pessoas ou simplesmente o passado para trás. Com um final catártico, o protagonista confirma encontrar aquilo que faltava, mas, talvez, a paz da aceitação para seguir em frente.

Existe um propósito louvável nessa jornada de despertar pessoal, porém o fio condutor não faz jus a sua mensagem. Há um esforço do criador em colocar o personagem principal como um agente completamente passivo ao próprio destino e, então, explorar suas tragédias para idealizar as atitudes equivocadas do garoto com sua paixão, Gabrielle. No momento final, durante a incerteza de um possível desfecho trágico, o criador brinca com a culpa da garota em ser causadora de uma provável fatalidade, depois de rejeitar as investidas ‘tão românticas’ de Naoufel. Mesmo ele sendo stalker de Gabrielle.

É difícil apreciar o conjunto da obra quando ela se baseia em fantasiar os infortúnios de alguém e disfarçar em forma de romance ações pouco corretas. O protagonista não é um monstro ou algo do tipo, mas usar coisas que não deveriam ser idealizadas como catalizador para o crescimento ou purificação pessoal não possui mais sentido, além de ser desanimador. Com isso, fico apenas com o aspecto fantástico da mãozinha desbravando a cidade em busca de algo perdido e com beleza nos traços do criador. 

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