Em minha opinião, um dos aspectos mais positivos da Netflix, desde que o serviço de streaming se popularizou e basicamente mudou a maneira como nos relacionamos com a produção audiovisual, é o fato de ele ser uma vitrine global, nos dando acesso a filmes, seriados e programas do mundo todo. Isso é algo inegavelmente bom. Dito isto, há um lado potencialmente ruim da equação: essa “globalização” pode levar tudo a ficar meio parecido, meio genérico. O risco existe de vermos muitas produções homogeneizadas, para atender a uma universalização promovida por algoritmo, em nome do que se acredita ser um “padrão” de qualidade mundial.

Esse pensamento me veio à mente ao assistir Reality Z, da Netflix. Produzida pela Conspiração Filmes e comandada pelo roteirista/diretor Cláudio Torres, a série é a versão brasileira da minissérie britânica Dead Set. É uma produção de temática zumbi na qual acompanhamos a chegada dos mortos-vivos e o posterior apocalipse pelo ponto de vista de participantes de um reality show bobo e do pessoal da equipe técnica do programa e demais sobreviventes que se refugiam no estúdio de TV. A versão britânica foi criada por Charlie Brooker, de Black Mirror – nunca a assisti, por isso não farei comparações entre elas.

Em Reality Z, o Rio de Janeiro, e por conseguinte o Brasil e o mundo, é tomado por zumbis – o que em si não deixa de ser irônico dado o momento de pandemia de Covid-19 e alguns “zumbis mentais” que andam pelo nosso país atualmente. É inegavelmente divertido, por exemplo, ver mortos-vivos atacando as pessoas na assembleia do Estado no primeiro episódio… Bem, enquanto o fim do mundo tem início, é noite de eliminação no Olimpo, o reality show com tema da Grécia antiga que é sucesso na TV – Sabrina Sato faz uma pequena participação como a apresentadora do Olimpo. Não tarda muito e os zumbis chegam lá, levando os participantes e o produtor-mor do programa, Brandão (Guilherme Weber), a se isolarem no estúdio. A criadora do programa e seu filho (Carla Ribas e Ravel Andrade) saem em jornada pela cidade a caminho do estúdio, um lugar onde poderão estar a salvo, e acabam levando junto um deputado corrupto (Emílio de Melo) e seus acompanhantes.

VISUAL IMPRESSIONANTE PARA PERSONAGENS RASOS  

É preciso ressaltar a qualidade técnica da produção. Em termos de cinematografia, efeitos de maquiagem e digitais, Reality Z não deixa nada a desejar a um The Walking Dead, por exemplo. A maquiagem dos zumbis, os esguichos de sangue digital e os planos gerais do Rio de Janeiro em chamas e devastado são muito bem feitos, e a montagem é bem energética nas cenas de ação. A estética da série é, notadamente, inspirada em produções como Madrugada dos Mortos (2004), e os zumbis são estilo Zack Snyder, ou seja, bem ágeis.

Mas… esse apuro técnico não consegue superar as limitações do roteiro. Os personagens são demasiadamente rasos, basicamente definidos por uma palavra: o produtor do show é um escroto; dentre os participantes do programa tem a gostosa, o cabeça-de-vento, o enjeitado, o gay; e as heroínas vividas por Ana Hartmann e Luellem de Castro são… badasses. É verdade que profundidade psicológica e filmes de zumbi não costumam andar de mãos dadas, mas, ao menos, um pouco de carisma os personagens devem ter. O fato de não terem, e de podermos definir sem dúvida quem são os bons e quem são os maus, diminui bastante o envolvimento.

Algumas opções narrativas meio curiosas também dificultam o envolvimento. Como toda história de zumbis, Reality Z é pessimista e nenhum dos personagens está realmente a salvo – o que não é necessariamente uma coisa boa, pois quando uns poucos com mais carisma morrem, o espectador fica no vácuo e precisa se virar para achar outras figuras nas quais investir. O elenco demonstra estar se divertindo, matando ou virando zumbis – Weber, em especial. Mas é difícil se envolver de fato ou temer pelo destino de qualquer um no seriado.

PADRÃO GLOBAL NETFLIXIANO

Além disso, curiosamente, o cenário do reality show e todo o subtexto a que ele convida – uma ideia bem interessante, ainda mais hoje quando se pensa que os confinados do BBB 2020 estavam a salvo da pandemia do Covid-19 no estúdio – só começa a ser de fato explorado a partir do sétimo episódio da temporada! Não à toa, a série dá uma pequena melhorada a partir daí… porque o começo da série é bem ruim. Por toda a primeira metade dos dez episódios, vemos aquela mesma história de zumbis que já vimos antes várias vezes, com todas as cenas clichês – o infectado que tenta esconder que foi mordido, o drama do personagem que precisa matar um ente querido após este ser mordido, um babaca colocando todos em perigo, etc. E esses seis primeiros episódios poderiam, com poucas alterações, se passar num banco, num aeroporto, num shopping (!). É como se Reality Z só se lembrasse de honrar a sua premissa quando metade dos seus episódios já se foi… A partir desse ponto, os problemas continuam, mas, pelo menos, a série ganha mais foco.

E se essa história de zumbis é tão genérica, sem aproveitar todo o seu potencial, isso leva à forte impressão de que Reality Z é um produto calculado para ser consumido “universalmente”. Tirando alguns momentos aqui e ali, o contexto brasileiro não é realmente explorado. A série não tem uma “brasilidade” muito evidente – um dos momentos mais engraçados é quando uma das personagens vê que a coisa está feia e pergunta “mas os americanos não virão nos salvar?”. Mas momentos como este são isolados, infelizmente. Há muito potencial para um apocalipse zumbi que, de fato, faça uso do contexto brasileiro, que explore o nosso caos e a nossa propensão para violência e use isso como material para terror e sátira, no estilo George Romero. Reality Z até tenta fazer isso, mas de forma muito leve e pontual. A história, e os personagens, seriam praticamente iguais em qualquer país do mundo.

O que é uma pena. Talvez esse tom “globalizado” seja uma tendência meio inevitável das produções da Netflix. Porém, quando se estuda a história do cinema zumbi em todo o mundo, fia claro que o contexto é tudo.

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