Meryl Streep cantando rock e tocando guitarra! (Oh, Deus, dê-me 0,01% desse talento, que já ficarei bastante satisfeita). Ela é uma diva absoluta! De uma dona de casa americana cansada da vidinha pacata à mais poderosa diretora de revista de moda do mundo, ela deu vida até a Margaret Thatcher. Meryl poderia interpretar o Batman e seria o maior sucesso!

Uma roqueira assim, meio refinada, penteado exótico, maquiagem pesada, guitarra maravilhosa, blusa linda, rendada e cheia de transparências, tatuagem no braço e uma voz rouca, supersexy – meio Janis Joplin! Meryl é de uma criatividade impressionante, cria a personagem, com detalhes, exclusividade, originalidade e individualidade. A nova “Ricki” está irretocável!

O filme de Jonathan Demme pode ser considerado bem superficial, ao tratar tanto os conflitos da mãe como também os da filha recém-separada, os do filho gay que não digere o preconceito e não consegue perdoar a ausência dela. É a mesma mágoa que afeta o ex-marido, sua atual esposa e o filho mais velho. Todos os personagens têm motivos para ser mais profundos do que aparentam.

Mas chega de drama! Embora haja mágoa por todo lado, “Ricki and The Flash” insiste no tom da comédia. A aposta na música – o repertório com clássicos de Lady Gaga, Bruce Springsteen, Tom Petty e outros – potencializa a crise de identidade do filme e seus personagens. É como se o rock fosse o tapete debaixo do qual está escondido tudo aquilo com que Ricki e seus familiares não conseguiram, não conseguem e talvez não conseguirão lidar.

A roteirista Diablo Cody aproveitou que tinha Meryl Streep em seu córner e não poupou um único clichê do filme-de-família-que-faz-as-pazes. Diablo escreve uma história de uma família fragmentada por uma protagonista que largou tudo para perseguir um sonho, mas acelera a resolução de cada conflito, resumindo e resolvendo uma década de fragmentação maternal em um único evento. Infelizmente, é pouco.

Meryl Streep injeta veracidade em diálogos e situações que perdem pela sutileza, e faz seus colegas de cena crescerem junto. Kevin Kline não tem muito o que fazer como o ex-marido de Ricki, e é difícil engolir que um sujeito tão disciplinado, certinho e careta tenha vivido um relacionamento com alguém tão instável quanto a protagonista – quanto mais com tempo de ter com ela três filhos!

Mamie Gummer, filha da atriz na vida real, segura a peteca com dignidade em um papel infeliz: o da mulher traída e humilhada, obrigada a se abrir com a mãe que a abandonou. Ela tem um arco real, e seu trabalho com sua mãe eleva o filme. O veterano cantor e ator Rick Springfield é quem mais se destaca como o namorado de Ricki e também seu companheiro na banda The Flash: ele a coloca no caminho certo e segura sua insegurança de roqueira fracassada.

“Ricki and the Flash” fica como entretenimento simpático, que agrada obviamente aos fãs de Meryl Streep (mais que Caminhos da Floresta, para citar um exemplo recente), mas não alcança seu potencial por inteiro, pelo fato de estar amarrado a um roteiro pobre. Enfim, dê um papel medíocre a uma grande atriz e ela fará um trabalho espetacular. Dê um papel espetacular a uma atriz medíocre, que existem aos montes, e o papel será um desastre.

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