A angústia adolescente raramente pareceu tão efervescente quanto em “Sem Seu Sangue”, a estreia da diretora brasileira Alice Furtado. A produção, lançada na Quinzena dos Realizadores em Cannes e exibida em sessões lotadas no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, leva a paixão do primeiro amor a graus extremos com muito estilo, embora o ritmo do filme possa limitá-lo em busca de grandes públicos. 

Nele, a adolescente Silvia (Luisa Kosovski) se apaixona pelo colega Artur (Juan Paiva), um jovem poeta e skatista que sofre de hemofilia. Quando ele morre abruptamente, a garota passa a não sentir fome e começa a vomitar sangue, desenvolvendo uma estranha doença. Os exames, entretanto, não apontam nada. Desesperados, os pais partem para o litoral para melhorar a saúde da filha, porém, ao chegarem lá, a história do lugar leva a protagonista a uma nefasta ideia com graves consequências. 

Desenvolvendo-se de forma lenta e extremamente sensorial, “Sem Seu Sangue” explora com a mente destes jovens é bombardeada com sentimentos que parecem definitivos justamente por serem inéditos. Artur, por exemplo, nunca se apaixonou até conhecer Silvia, enquanto ela era uma menina apática até entrar em contato com alguém tão distante da vida que levava. Carregado de erotismo, o roteiro escrito por Furtado e Leonardo Levis é inteligente em sua abordagem natural e empoderada da sexualidade feminina adolescente, não freando esse aspecto do relacionamento do casal. 

IMAGENS FORTES, TRAMA PREVISÍVEL

Uma vez na casa de praia, Silvia conhece a persona non grata do lugar, Matthieu (Nahuel Pérez Biscayart, fazendo sua melhor imitação de Jesuíta Barbosa), que lhe conta algo terrível de seu passado. A partir desse ponto, a ação acaba se arrastando até o desfecho. Apesar do roteiro conter diversos elementos, incluindo alguns sobrenaturais, é possível prever tudo o que vai ocorrer uma hora antes do fim. Por isso, quando as consequências das ações de Silvia começam a surgir, não há choque ou surpresa.

O que o longa não oferece em termos de trama, ele mais do que compensa com imagens arrebatadoras. As sequências delirantes que permeiam “Sem Seu Sangue” são muito bem-vindas, lembrando “Boi Neon”, de Gabriel Mascaro. Nelas, o diretor de fotografia Felipe Quintelas cria pesadelos em neon que exploram visualmente as tristezas do amor perdido – lindamente complementadas pela trilha eletrônica de Orlando Scarpa Neto.

É estranho que Furtado, uma cineasta com background em montagem, permita uma atmosfera tão glacial para a produção – a qual co-edita juntamente com Luisa Marques. O público é capaz de se perguntar quantas vezes precisará ver mais uma cena do rosto angustiado de Silvia. Sempre mal-humorada e falando pouco, a personagem se prova uma escolha difícil para protagonista. Apesar da premissa interessante, “Sem Seu Sangue” não entrega todo o potencial de sua proposta, mas revela uma nova voz criativa no cinema brasileiro.

*O jornalista viajou para o Festival de Karlovy Vary como parte da equipe do GoCritic!, programa de fomento de jovens críticos do site Cineuropa.

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