Jonathan Glazer é um diretor que, goste-se ou não, possui uma maneira particular de realizar cinema. Seus filmes são calcados nas suas composições visuais inusitadas, e na criação de atmosfera auxiliada por processos de montagem que a princípio soam convencionais para depois subverterem a base estabelecida. 

Desenvolver uma trama aristotélica está segundo (ou terceiro) plano.  Com isso os seus filmes sempre desconcertam, pois não dão ao público aquilo a que estão acostumados. 

Em Sexy Beast (2000) e Reencarnação (2005), a trama até que se faz presente – em certa medida – situando o caminho de seus vulneráveis protagonistas, mas em Sob a Pele (2014), sua obra-prima, ela está ali só para constar. Neste longa, Glazer encontrou algo potente, uma direção focada em criar sensações, a partir de um domínio de elementos de som, fotografia (uso de cores, formas) e montagem, mas também capazes de criar vínculo emocional, aqui com a personagem de Scarlett Johansson, mesmo que saibamos muito pouco (ou nada) sobre o porquê dela estar ali e fazer o que faz. Belíssimo exemplar de cinema pensado não para ser entendido, mas sentido. A jornada é o propósito. 

Em seu filme mais recente, o curta-metragem de 7 minutos disponível no MUBI, The Fall, a jornada parece ser de novo o que há para se apreciar. Mas diferente do que aconteceu no trabalho anterior, aqui não há tempo para que se estabeleça qualquer vínculo afetivo com os personagens. Sequer vemos os seus rostos. O que modifica inclusive a relação sensorial com a obra, resultando numa experiência que fica na metade do caminho. 

É até difícil fazer uma sinopse, ainda mais sem cair em spoilers. Resumindo bem, acompanhamos o processo de fuga de um homem perseguido por um grupo que quer enforcá-lo. 

No universo criado por Glazer, todos os personagens usam uma espécie de máscara. Um elemento simples, mas poderoso como signo visual. Todas as ações ganham contornos mais assustadores ao vermos seres sem expressões agindo de maneira agressiva, como corpos incapazes de serem identificados. Não à toa o filme tem sido vendido (e comprado) como sendo de terror. 

EXERCÍCIO NÃO LEVADO À SÉRIO

A elaborada composição dos quadros permanece como boa característica, com imagens mais pensadas em guardar lacunas – deixando propositalmente espaço para que o som complete as informações – do que ser um registro mais objetivo dos fatos. O plano mostrando a passagem de uma corda auxiliado pelo desenho de som gera momento impactante ao ser seguido de uma revelação da trama. 

Mas apesar da direção permanecer aguçada, aqui Glazer chega a um resultado que beira o banal. A trajetória nos leva a um estado, ou situação, que não se completa, nem chega a algum lugar notável. Parece uma boa cena dentro de um filme de maior duração. Isoladamente, como obra de sete minutos, diz muito pouco. Quando o filme chega aos créditos é quase impossível não ser atravessado pelo pensamento de: “então, o filme acabou mesmo e tal?” 

Óbvio que as subjetividades existem, e que talvez o objetivo do curta seja realmente se apresentar como experiência lacunar e intensa dentro do seu curto fôlego. Só que Glazer é capaz de mais do que isso, o resultado aqui alcançado soa como zona de conforto, não indica caminhos, tem cara de exercício que nem o próprio diretor leva tão a sério. 

É sempre bom ver diretores interessantes trabalhando, investigando propostas, experimentando. Foi bom assistir a um novo trabalho de Glazer, e mais uma vez ver o seu trabalho como criador de imagens impactantes, resultando em filmes estranhos, de difícil análise. Da maneira que ficou neste experimento, fica faltando algo mais, embora o exercício seja válido.

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