Claire é uma moça irlandesa vivendo na Austrália colonial, que sofre uma tragédia e começa a percorrer uma região selvagem em busca de vingança contra os oficiais ingleses que mataram seu marido e filho. Logo nos primeiros minutos de The Nightingale, a vemos ser estuprada; pouco tempo depois uma violência ainda mais terrível (acredite) ocorre contra ela diante dos nossos olhos, de novo. O filme da diretora Jennifer Kent, o primeiro depois do seu impactante longa de estreia, o ótimo terror Babadook (2014), não é fácil de assistir. É incômodo mesmo, longo (2h16) e repleto de momentos violentos, mas apropriados ao retrato que a diretora faz do período selvagem da colonização australiana.

Em The Nightingale, Kent trabalha com elementos do western e do subgênero “estupro/vingança”, imbuindo-os de uma perspectiva feminista e também de uma noção de diversidade. As agressões sexuais que a protagonista sofre nunca são mostradas de modo gratuito ou sensacionalista pela câmera de Kent e do diretor de fotografia Radek Ladczuk, o mesmo de Babadook.

O inicio já deixa claro que o filme vai trabalhar a temática da opressão feminina, quando vemos Claire sendo exibida diante dos soldados ingleses para cantar para eles com sua voz delicada – ela é apelidada de “rouxinol” pelos homens que a olham com voracidade, e daí vem o título original do filme. A cena, aliás, parece a inversão perversa da cena final do clássico de guerra Glória Feita de Sangue (1957), de Stanley Kubrick.

A FORÇA DE ‘THE NIGHTINGALE’

O ângulo da diversidade surge na figura de Billy, o único aliado de Claire na sua busca. Billy é um guia aborígene, um jovem rapaz que odeia os brancos, mas que se afeiçoa um pouco à protagonista quando descobre que ela é irlandesa, e não inglesa. Na história de Kent, então, temos os dois rejeitados do mundo, uma mulher e um negro, as castas mais inferiores da sociedade da época, se aliando numa busca por justiça. O extermínio das populações aborígenes da época, pelos ingleses, é abordado tangencialmente pela narrativa, mas, mesmo assim, há também cenas de violência e abuso sexual contra essas pessoas no filme.

Billy tem o apelido de “pássaro preto”, e Claire é o rouxinol, o que adiciona mais uma camada de simbolismo à história. Os dois intérpretes dos personagens têm atuações simplesmente fantásticas: Aisling Franciosi e Baykali Ganambarr, como Claire e Billy, carregam o filme. Seus rostos jovens tornam ainda mais chocantes algumas das atitudes dos seus personagens, e suas atuações comunicam com eficácia as mudanças que eles experimentam durante essa jornada de horrores. Além deles, o geralmente simpático Sam Claflin aqui se mostra extremamente competente ao viver um sujeito terrível, o tenente Hawkins, principal antagonista da narrativa. Ele é um daqueles vilões que o público odeia com gosto.

Os atores são o principal recurso do filme, pois The Nightingale basicamente se resume a eles e a floresta por onde andam durante quase toda a sua duração. São poucas as cenas internas, e elas se concentram mais no inicio e no fim do filme. Sentimos a desorientação dos personagens, e Kent filma no formato de tela estreito, o de 4:3, fazendo com que a imagem pareça um quadrado confinador, comprimindo os personagens mesmo quando estão no mato ou no alto de uma montanha. A montagem do filme é bem ágil: as cenas são, em geral, curtas; e as situações que os personagens enfrentam na viagem ocorrem de maneira rápida, dando ao longa um ritmo ágil e até meio desorientador.

PRISÃO CONTINUA

Infelizmente, chega um momento em que Jennifer Kent se perde na floresta igual a seus personagens: No terço final do filme começam a aparecer cenas que deixam a narrativa estagnar, ou até momentos repetitivos. Felizmente, a diretora/roteirista se reencontra perto do desfecho, criando um clímax forte e que acaba deixando uma sensação de vazio no espectador.

Vale a pena tanto banho de sangue? Isso, Kent não responde, deixando a intepretação final a cargo de cada espectador. Mas sua recriação de um mundo opressivo e brutal é, sem dúvida, poderosa: muitos filmes de vingança nos deixam satisfeitos e vibrando ao final, mas The Nightingale foi feito para incomodar e consegue, mesmo apesar de apresentar algumas ideias mal desenvolvidas aqui e ali. Na visão da diretora, aparentemente a mulher e o negro ainda não saíram da floresta.

Os 30 Filmes Imperdíveis de 2020 – Parte III

O Cine Set apresenta a nossa tradicional lista com os 30 filmes imperdíveis de 2020. Lembrando sempre que o site leva em conta somente as produções lançadas no Brasil entre 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2020, tanto no cinema quanto no streaming.  Aqui,...

Os 30 Filmes Imperdíveis de 2020 – Parte II

O Cine Set apresenta a nossa tradicional lista com os 30 filmes imperdíveis de 2020. Lembrando sempre que o site leva em conta somente as produções lançadas no Brasil entre 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2020, tanto no cinema quanto no streaming. Aqui, buscamos não...

Os 30 Filmes Imperdíveis de 2020 – Parte I

O Cine Set apresenta a nossa tradicional lista com os 30 filmes imperdíveis de 2020. Lembrando sempre que o site leva em conta somente as produções lançadas no Brasil entre 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2020, tanto no cinema quanto no streaming. Aqui, buscamos não...

TOP 10 – As Principais Ausências nos Cinemas de Manaus em 2019

‘Nunca tem filmes bons nos cinemas de Manaus’.  Essa é uma frase que se convencionou a falar sobre a (falta de) opções de filmes na capital amazonense. Claro que ainda estamos distantes do cenário ideal, incluindo mais sessões legendadas e horários melhores,...

As 15 Grandes Revelações da Década 2010 no Mundo do Cinema

ADAM DRIVER  Tinha tudo para Adam Driver dar errado dentro de Hollywood. Passa longe do rótulo de galã de um Hugh Jackman ou ser uma figura carismática como Leonardo DiCaprio. Muito menos é forte à la Dwayne Johnson ou possui a agilidade de Tom Cruise para sair...

10 Críticos de Cinema do Brasil da Atual Geração Para Ficar de Olho

Algum tempo atrás falamos sobre os grandes críticos de cinema da história. O tempo passa, a tecnologia se expande e novos formatos de comunicação surgem e/ou se aprimoram. Pensando nisso, resolvemos atualizar essa lista com críticos que tem se destacado na última...

Quais as 10 Franquias do Cinema Atual pela hora do adeus?

Filmes, para mim, são iguais a pessoas, quando se trata da passagem do tempo: alguns envelhecem bem, outros passam vergonha contando a piadinha do “é pavê ou pá cumê?” pela centésima vez na reunião de família. Com franquias de cinema é a mesma coisa: várias sobrevivem...

Sete Comédias Românticas Vindo por aí nos Cinemas

Comédias românticas nunca morrem. Um dos gêneros mais confiáveis e explorados de Hollywood, elas nunca saem de moda porque o público, e os produtores, gostam. Algumas da Netflix já tiveram boa repercussão este ano, como Megarromântico e Meu Eterno Talvez – o maior...

Os 10 Maiores Carros da História do Cinema

Quantas grandes sequências do cinema tiveram carros como o centro da ação? Astros de diversas gerações já pilotaram máquinas potentes nas telonas, incluindo, estrelas como James Dean (“Juventude Transviada”), Sean Connery (série 007) chegando até Vin Diesel (“Velozes...

Cinco Situações que Estragam Qualquer Ida ao Cinema

Seu filme favorito entra em cartaz. Você compra os ingressos para assistir na pré-estreia, sem riscos de spoilers e ansiedade controlada. Hype lá em cima. Pipoca e refrigerante em mãos, você entra na sala e espera a projeção começar.O que poderia acabar...