A certa altura do filme Um Fim de Semana em Paris, vemos o professor Nick, careca, velho e com pouco dinheiro no bolso, dizer à esposa Meg que não acredita ser possível “amar e odiar uma pessoa, ainda mais no espaço de cinco minutos”. Essa é a ideia central do novo filme do cineasta britânico Roger Michell: o amor e o ódio parecem andar juntos, ainda mais quando se trata de um casal que já passou por muita coisa e está junto há muito tempo, como Nick e Meg.

Ambos são ingleses e, há várias décadas atrás, passaram a lua-de-mel em Paris. Quando o filme começa, eles retornam à cidade-luz para passar um fim de semana. E as coisas já começam mal de cara: o hotel que eles conheciam não é mais o mesmo, foi reformado, o que deixa Meg enraivecida e eles acabam indo parar em outro hotel, um mais luxuoso, o qual na verdade eles não têm condições de pagar. Ambos passeiam por Paris, reencontram um velho amigo de Nick, e alternam momentos ternos e de bom humor com outros nos quais velhos ressentimentos e recriminações vêm à tona. Ele ainda gosta muito dela; ela não tem mais certeza se gosta dele e se sente decepcionada pelas próprias escolhas e pela vida que leva.

O diretor Michell é conhecido por combinar comédia e drama, como demonstram seus trabalhos mais famosos, Um Lugar Chamado Notting Hill (1999) e Venus (2006). No entanto, apesar de alguns momentos engraçados, Um Fim de Semana em Paris está mais para o drama, e o filme não tem medo de encarar os aspectos contraditórios do casamento dos personagens principais. Numa cena, eles parecem ainda gostar muito um do outro; em outra, a impressão é a de que o divórcio é iminente.  Trata-se de um filme agridoce, mas o sabor amargo é um pouco mais forte que o doce.

É um filme conduzido pelas atuações, já que o roteiro é meio frágil e não demonstra ser substancial o suficiente para garantir o interesse do espectador – mesmo durando apenas uma hora e meia, o filme ainda parece um pouco mais longo do que deveria ser. Porém Michell dá espaço aos seus atores. Jim Broadbent vive Nick com seu jeito caracteristicamente engraçado e simpático. E Lindsay Duncan acaba sendo a melhor coisa do filme. Sua personagem evoca lembranças da Céline vista em Antes da Meia-Noite (2013), e de fato a Meg parece uma versão inglesa, e mais velha e desanimada, da personagem francesa do último filme da trilogia de Richard Linklater. Completando o trio principal de atores, Jeff Goldblum vive Morgan, o amigo de Nick. Goldblum, como sempre, faz aqui apenas uma variação da sua tradicional persona esquisita. Mesmo com essa repetição, seu personagem traz um pouco de humor à trama.

Como esperado num filme sobre um casal na meia-idade, Um Fim de Semana em Paris é muito voltado para o passado. Os personagens escutam musicas antigas – Bob Dylan e Nick Drake são ouvidos na trilha sonora – e na TV, Band à Part (1964), de Jean-Luc Godard, é visto passando. O casal também é visto correndo diversas vezes por Paris – aparentemente é algo que turistas fazem, inspirados pelo já mencionado filme de Godard, claro. Quem viu o filme dos anos 1960 consegue até adivinhar como Um Fim de Semana em Paris vai acabar, ao ver o cenário onde o casal se encontra nos últimos minutos.

A cena final é um momento superficial de cinefilia, divertidinho por causa dos atores, e de certa forma esse momento resume Um Fim de Semana em Paris. É um momento bonitinho, mas o filme já poderia ter terminado uns 10 minutos antes. Uma pena que a curiosa noção do amor e do ódio andando de mãos dadas seja pouco aprofundada no filme, e ao final pareça que o diretor Roger Michell não consiga decidir se deve encerrar o filme numa nota triste ou feliz. Mas no fim das contas, “sempre teremos Paris”, e passear pela cidade nunca deixa de ser uma coisa agradável, mesmo na companhia de um casal capaz de se amar e se odiar mutuamente.

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