Constantemente, eu falo nos textos e vídeos do Cine Set sobre a massiva presença de diretores e roteiristas homens ao retratarem narrativas femininas. Entretanto, confesso que nunca pensei na chance do contrário acontecer e, felizmente, pude contemplar esta possibilidade neste grande filme da francesa Claire Denis. ‘Bom Trabalho’ é uma obra com temática essencialmente masculina vista sob a ótica intimista da cineasta e o olhar contemplativo de Agnès Godard na direção de fotografia.

‘Bom Trabalho’ acompanha o sargento Galoup (Denis Lavant) e suas memórias sobre o treinamento da legião francesa no nordeste da costa africana. No convívio entre militares, o longa destaca a devoção do protagonista ao comandante Bruno Forestier (Michel Subor) e sua incomum aversão ao soldado novato Guilles Sentain (Grégoire Colin).

Logo de início, a abordagem mais natural e sincera sobre o cotidiano militar é o que destaca a proposta de Denis. Diferente da romantização ou extrema glamourização que vemos sobre tais narrativas nos filmes hollywoodianos, aqui a diretora cria um ambiente comum ao mostrar seus personagens desempenhando pequenas atividades como os cuidados com seus uniformes, por exemplo.

Essa experiência se reafirma nos poucos diálogos inseridos, sendo guiada majoritariamente pela narração quase literária de Galoup. Assim, cada gesto realizado por seus personagens torna-se um ponto de partida para os questionamentos apresentados e até mesmo para pequenas reviravoltas na história.

ESPONTANEIDADE E DELICADEZA NA BRUTALIDADE

Filmado em Djibuti, na África, ‘Bom Trabalho’ constantemente ressalta a presença de seus personagens como figuras não pertences aquele local. De maneira geral, a direção de fotografia esmiúça a vivência entre os soldados em meio a um local desconhecido. O resultado são cenas aparentemente espontâneas que poderiam facilmente ser confundidas com um documentário caso a montagem não abordasse o drama pessoal de Galoup de forma tão constante.

O ponto alto desta combinação de elementos é o treino entre os militares. Os movimentos repetitivos e exigentes fisicamente logo ressaltam a força e brutalidade masculina. Porém, isto logo é deixado de lado quando o contato físico entre personagens é delicadamente observado pela fotografia, assim como movimentos mais discretos.

Tudo isto, é claro, exige uma boa disposição do espectador para que o ritmo de cenas contemplativas e com informação falada escassa seja bem recebido. Porém, o resultado final é um grande trabalho de Denis, o qual deixa as respostas para os conflitos de seu protagonista por conta da interpretação de suas cenas, fazendo o público imergir cada vez mais em sua instigante narrativa.

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