Gostar de “Demônia – Melodrama em Três Atos” é extremamente fácil. A trama simples e bem contada, as boas sacadas cômicas, as provocações do roteiro ao moralismo religioso de meia-tigela e toda a última parte cheia de referências à internet são de apelo popular imediato. O potencial em mãos, porém, dá a impressão de que havia muito mais a ser alcançado.

O filme dirigido e roteirizado pela dupla Cainan Baladez e Fernanda Chicolet começa com dois primos descascando pamonha para vender. Grávida, Myriam (a própria Chicolet) é extremamente religiosa, sempre com uma frase de efeito à tiracolo, enquanto Rildo (Vinícius de Oliveira, o Josué de “Central do Brasil”) é um rapaz sem perspectivas e desanimado com o rumo da própria vida. Durante uma conversa, ele revela um segredo inimaginável para Myriam e um barraco familiar ganha proporções gigantescas.

Como o próprio nome do filme já aponta, o curta é dividido em três atos, o que permite uma imersão rápida do público e um dinamismo à história. A primeira parte, sem dúvida, é a mais bem desenvolvida, pois, traz as sacadas mais afiadas sobre a hipocrisia de Myriam. Se o discurso da personagem se mostra conservador e moralista, as atitudes revelam outra faceta.

Ela insinua só fazer sexo por ser algo da natureza humana para gerar filhos, porém, muda logo de assunto quando Rildo questiona sobre os gemidos e sussurros dela que escuta todas as noites; quer ser carola, mas, não pensa duas vezes em usar o nome de Deus para mentir ao primo; defende a monogamia e um casamento perfeito, mas, pouco depois, fala sobre as traições do marido. Ou seja, discurso e prática estão em lados opostos, o que faz “Demônia” dialogar, de certa maneira, com o recente “The Square – A Arte da Discórdia” ao criticar esta hipocrisia da fachada social.

Além disso, toda a forma como a trama se desenha para o desfecho do primeiro ato tem a sagacidade dos melhores contos de Nelson Rodrigues. Afinal de contas, o curta se utiliza de elementos tão próximos do nosso dia para radicalizar e tomar um rumo inesperado logo adiante. Muito disso é mérito do belo trabalho executado pela dupla de atores e do roteiro bem amarrado com diálogos precisos.

É uma pena que os dois atos seguintes sejam entregues ao humor fácil. Não que isso seja crime, pois, “Demônia” o faz com êxito. A terceira parte, especialmente, aproveita a linguagem da internet com memes, gifs, mashup em uma montagem insana cheia de referências que consegue arrancar boas risadas. As melhores delas saem das aparições de Michel Temer e a frase ‘eu tô do lado de Jesus, ele é o demônio’.

O humor do segundo e terceiro ato de “Demônia”, entretanto, parece se resumir a esses efeitos e referências sem mais nada a oferecer, longe da inteligência e acidez social do início do filme. Isso faz com que o curta perca a força, pois, tais recursos já vimos utilizados no humor televisivo brasileiro seja no mais escrachado (“Pânico na TV”) ou um pouco mais refinado (“Tá no Ar”, “CQC” e o atual “Zorra”). Tudo se resume, em grande parte, ao aproveitamento puro e simples de um barraco e nada mais.

“Demônia – Melodrama em Três Atos” cumpre corretamente seu papel e diverte.
Mas, dava para ser um pouquinho mais.

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