Escolher elencos é mesmo uma arte. O que seria do cinema se Humphrey Bogart não tivesse tomado o lugar de George Raft para viver Rick Blaine, em Casablanca (1942)? Ou se Ethan Hawke de fato tivesse sido descartado por Richard Linklater, porque, como este pensou à época, ele era muito novinho para viver o protagonista Jesse, em Antes do Amanhecer (1995)? Ou, para citar o exemplo mais icônico de todos, se Francis Ford Coppola tivesse cedido às pressões do estúdio e deixado, digamos, Ernest Borgnine no lugar de Marlon Brando e Ryan O’Neal no lugar de Al Pacino, em O Poderoso Chefão (1972)?

As situações acima ilustram dois problemas, muito comuns, que podem fazer naufragar uma produção promissora: a primeira é a lógica, corriqueira nos grandes estúdios, de que é melhor pôr atores já estabelecidos, mesmo que não exatamente ideais para determinado papel, do que apostar em nomes menos famosos, mas mais de acordo com o espírito da história. A segunda é a falta dessa coisinha tão abstrata e crucial chamada química: alguém consegue imaginar qualquer outra pessoa do que Hawke e Julie Delpy, naqueles papéis, naquele filme?

Elenco não deveria ser o problema de Depois Daquela Montanha, a improvável e cafona mistura de drama de sobrevivência com filme romântico, estrelada por Kate Winslet (Titanic, O Leitor) e Idris Elba (série Thor, Beasts of No Nation), mas a verdade é que ele é talvez o campeão no triste pacote de defeitos do filme. E por uma razão elementar: eles não funcionam juntos.

Com todo o carisma abundante de Winslet e Elba, os dois simplesmente não convencem como casal, nem conseguem soprar vida às inúmeras situações bobas do roteiro. Winslet é Alex, uma fotorrepórter impulsiva e temperamental (e aqui já soa o alerta do estereótipo de mulher descontrolada de Hollywood), com urgência de voltar para casa porque seu casamento é no dia seguinte. Elba é Ben, um neurocirurgião taciturno (que depois se revelará um homem maduro, seguro e protetor – e ainda é Idris Elba: como o noivo de Alex poderia competir?), que precisa viajar porque a operação de uma criança não pode esperar mais um dia. Ambos estão presos no aeroporto de Idaho, uma região cheia de bosques e montanhas, porque uma forte tempestade está chegando. Mas, como sói acontecer, eles partem para o desespero – fretam um táxi aéreo capenga, com um piloto idoso (Beau Bridges, das séries My Name Is Earl e Stargate Atlantis, irmão de Jeff) e o destino mexe seus fios, mas de forma mais tosca do que estávamos prevendo: o piloto tem um infarto em pleno voo, o aviãozinho bate numa montanha, e os dois se veem à deriva numa imensidão de neve, com o cachorro fofo e ciumento do piloto a tiracolo.

É só o começo de um desfile de situações apelativas e previsíveis, calculadas para fazer apertar o estômago, ou enternecer o coração: Ben tem de procurar o labrador toda vez que ele se perde; um puma ameaça Alex quando o médico está longe; há quase-quedas de penhascos e quedas em lagos de gelo; e há todo o percurso de curiosidade, que vira antipatia, que vira atração, que vira paixão, entre a impulsiva Alex e o ponderado Ben, com direito a frases como “o coração é só um músculo” ou “não vou ficar aqui e morrer só porque você tem medo de correr riscos!”.

Não sei se Meryl Streep e Brando fariam melhor com um material assim, mas, se Winslet e Elba tivessem mais sintonia em cena, várias dessas situações seriam (mais) perdoáveis. Já li alhures que Elba parece mais tolhido, mais constrangido do que sua parceira, mas, para este escriba, os dois estão tão perdidos quanto seus personagens. Quando sozinhos, até conseguimos entrever os grandes intérpretes que eles de fato são, mas de que adianta se Depois Daquela Montanha (título que consegue ser mais cafona que o original, A Mountain Between Us [Uma Montanha entre Nós]) é de fato a história de um romance, e não um filme sobre sobrevivência na neve?

Há mais talento envolvido (e desperdiçado): Hany Abu-Assad, o diretor, é o cineasta por trás dos intrigantes Paradise Now (2005) e Omar (2013), mas este filme tem um parentesco mais próximo com sua incursão americana anterior, o pouco empolgante thriller Entrega de Risco (2012). E o principal roteirista é Chris Weitz, que escreveu o ótimo remake de Cinderela (2015) e, em parceria, Star Wars: Rogue One (2016), além de ter feito a memorável comédia romântica Um Grande Garoto (2002), com Hugh Grant (ele também escreveu os dois primeiros American Pie e dirigiu o monótono segundo capítulo da saga Crepúsculo, Lua Nova [2009], mas isso é outra história). Todos, infelizmente, estão iguais na falta de imaginação, de cor, de tempero, de malícia.

Mas o revés é mais pesado para Elba e Winslet, ambos vindos de fracassos hollywoodianos recentes (ela, com o terrível Beleza Oculta; ele, com o absolutamente insosso A Torre Negra), e incapazes de fazer render uma combinação que prometia maravilhas na telona. Fazer o quê? Atores famosos juntos não querem dizer nada, se não há essa indizível centelha de química.

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