Você já chorou com a linda história do ratinho Fievel? Alugou trocentas vezes “Em Busca do Vale Encantado” em VHS? Cantou junto com a Thalía a música-tema de “Anastasia”? Se já, então você teve contato com a obra de um mestre da animação pouco comentado hoje em dia, mas que, nos anos 80, já foi um competidor de peso para a poderosa Disney: Don Bluth.

Inseri a Disney na história logo no primeiro parágrafo por dois motivos. O primeiro é o mérito comparativo: é bom lembrar que, por uma combinação de vários fatores, Bluth foi Grande (com G maiúsculo) nos anos que antecederam a renascença da Casa do Mickey. O outro é que a rivalidade com a potência da animação foi uma grande força-motriz na carreira do diretor.

Sob a tutela do Camundongo

Em verdade, Bluth começou sua carreira na Disney, trabalhando como assistente de John Lounsbery, um dos nove animadores-mestres da empresa, durante a produção de “A Bela Adormecida” (1959). Ele não chegou a completar o filme com a equipe: tendo sido contratado em 1955, ele saiu da empresa dois anos depois para realizar uma missão religiosa na Argentina.

Ele eventualmente voltou aos Estados Unidos e chegou a colaborar com alguns projetos da Disney como “freelancer”, até voltar com tudo para a empresa em 1971. A partir desse ano, ele ajudou a animar filmes como “Robin Hood” (1973) e “Bernardo e Bianca” (1977), até que…

A Ratinha Valente, de Don BluthA hora da virada

Em 1979, no seu aniversário de 42 anos, Bluth pediu as contas da Disney alegando um ambiente de trabalho hostil, focado em redução de custos e desconectado da essência das animações clássicas do estúdio. Ele e o também egresso Gary Goldman criaram a Don Bluth Productions, levando consigo dezesseis animadores e quase matando a agora rival na sangria; a produção de “O Cão e a Raposa” (1981), em que Bluth chegou a trabalhar nos estágios iniciais, foi atrasada em um ano e meio por conta do ocorrido.

Depois de lançar o curta “Banjo the Woodpile Cat” (1979) e trabalhar nas sequências animadas do musical “Xanadu” (1980), a produtora embarcou no seu primeiro longa, “A Ratinha Valente” (1982). Embora abraçado pelos críticos, ele não rendeu o esperado e levou a empreitada de Bluth à bancarrota, porém…

O mestre dos blockbusters

Ninguém menos que Steven Spielberg bateu à porta do animador para lhe dar uma segunda chance no jogo. Fã de “Ratinha”, Spielberg estava interessado em ter o diretor comandando sua primeira produção animada, “Um Conto Americano” (1986). Aqui, Bluth começou a dar trabalho para seus antigos empregadores: a história de Fievel foi a animação mais rentável a não ser feita pela Disney até então e a primeira que superou uma produção da Casa do Mickey em bilheteria (batendo “O Ratinho Detetive”, ironicamente também estrelado por um roedor).

A parceria de ouro continuou com “Em Busca do Vale Encantado” (1988), sucesso de público e crítica que fez largamente a fama de Bluth no Brasil e gerou doze sequências para o mercado de home video (com uma décima terceira atualmente em produção e prevista para ser lançada ainda este ano). Considerando que “Vale” é um filme bem mais dark do que uma tradicional aventura infantil, seu sucesso foi uma vitória sem precedentes para o animador, que veio ao custo de alguns cortes requeridos por Spielberg e seu coprodutor, George Lucas, que deixaram o filme com meros 69 minutos e menos violento do que originalmente previsto.

Todos os Cães Merecem o Céu, de Don BluthO início do fim

Potencialmente motivados pelo desgaste durante a pós-produção de “Vale”, Spielberg e Bluth se separaram depois da animação, tornando o próximo filme do animador, “Todos os Cães Merecem o Céu” (1989), o início de uma nova carreira solo.

“Cães”, como muitos filmes do diretor, teve performance mediana nos cinemas, mas encontrou vida nova em VHS, o que foi suficiente para mantê-lo na ativa para produzir “Chantecler – O Rei do Rock” (1991), uma animação estrelada por um galo cantor estilo Elvis Presley.

No entanto, no caminho do galo, havia uma sereia: “A Pequena Sereia” estreou naquele mesmo ano, dando início à chamada Renascença Disney, uma esteira de produções que conquistaram tanto público quanto crítica e que revitalizou o estúdio (e duraria até 1999, com o lançamento de “Tarzan”).

Enquanto seus rivais se reerguiam e lhe deixavam para trás, Bluth amargou outros três fracassos que recolocaram sua carreira no limbo: “A Polegarzinha” (1994), “Um Duende no Parque” (1994) e “O Cristal e o Pinguim” (1995).

Anastasia, de Don BluthUm último suspiro

Quem se encarregou de tirá-lo de lá novamente foi o estúdio 20th Century Fox, que, ansioso para bater de frente com a Disney, chamou Bluth para chefiar seu departamento de animação. Seu primeiro longa no cargo, “Anastasia” (1998) se tornou seu maior sucesso comercial até hoje, provando que a fórmula Disney (princesas, canções, etc.) não era incompatível com o jeito Bluth de fazer animação (protagonistas picaretas, um vilão quase zumbi…).

O sucesso foi tanto que levou o diretor a seu mais ousado e derradeiro projeto, a ficção científica animada “Titan A.E.” (2000). O filme foi um fracasso tão grande (ele não recuperou nem metade dos custos de produção) que enterrou, de uma só vez, o departamento de animação da Fox e o que sobrava da carreira de longas-metragens de Bluth.

O artista e o legado

Bluth teve uma carreira movida a obstinação e uma vontade enorme de peitar os grandes nomes da animação. Ao mesmo tempo em que era tradicional na forma de animar e devotado ao estilo dos desenhos da década de 30 e 40, era subversivo e transgressor no conteúdo de seus longas, quase sempre dando um jeito de tocar em assuntos heterodoxos para filmes infantis.

Ao tratar tanto do que nos emociona quanto do que nos causa estranhamento, Bluth compôs um catálogo único, que acabou achando seu lar onde faz mais sentido: no entretenimento doméstico. Seus únicos filmes que realmente pedem o tratamento de uma telona são os produzidos sob a batuta da Fox Animation (“Anastasia” e “Titan A.E.”). Os demais são aventuras de nicho que acabaram se beneficiando do então forte mercado de locadoras.

Com as novas maneiras de se consumir cinema indo de vento em popa (e se afastando cada vez mais dos multiplexes), quem sabe o diretor não ensaia um novo retorno triunfal via Netflix? Já estamos no aguardo.

Enquanto não rola, membros do Cine Set escolhem seus filmes favoritos do mestre:

“Chantecler – O Rei do Rock” (1991), de Don Bluth

Lucas Jardim: “Chantecler – O Rei do Rock” (1991)

Ok, vamos lá: este filme gira em torno de um galo cantor que se veste como Elvis Presley e que se vê envolvido em uma trama para mergulhar o mundo em trevas eternas, enquanto um garoto de carne e osso é transformado em um gatinho animado e se desata atrás do galo para salvá-lo. Essa premissa é tão Bluth que dói e mostra quão longe o animador estava disposto a ir atrás de novos resultados: incorporando cinema live-action, apesar de seu amor incondicional por animação 2D, o diretor provou que estava tomando notas de filmes como “Uma Cilada para Roger Rabbit” (1988). A trama sombria, recheada de números musicais inusitados, é um show à parte, apesar de seus ocasionais buracos. Em suma: um filme estilo “Corujão” disfarçado de infantil.

A Polegarzinha, de Don Bluth

Camila Henriques: “A Polegarzinha” (1994)

21 anos antes de “Homem-Formiga”, Don Bluth já investia em uma diminuta personagem. Talvez traumatizado pela surra que “Chantecler” levou de “A Pequena Sereia” nas bilheterias, ele tenha voltado as atenções para a obra de Hans Christian Andersen, “A Polegarzinha”. O filme apresenta uma trama meio sem graça: uma menina do tamanho de um polegar (!) que vê seus planos de casar com um príncipe da mesma estatura (!) ruírem ao ser raptada por um grupo de sapos (!). Apesar dessa premissa que é um convite ao fracasso, o longa funciona muito por conta de sua protagonista adorável e carismática. Infelizmente, acaba ficando aquém de outros trabalhos de Bluth ao não acreditar no próprio potencial e ficar preso a ser uma mera cópia da Disney. Porém, uma confissão: as músicas são deliciosamente ruins!

“Anastasia” (1997), de Don Bluth

Renildo Rodrigues: “Anastasia” (1997)

É possível dizer que o final da década de 1990 viu os últimos blocos de animações de qualidade, em vez de uma rara e isolada maravilha, chegar aos cinemas: “Tarzan” (1998), “Vida de Inseto” (1998), “O Príncipe do Egito” (1998) e “O Gigante de Ferro” (1999) são dessa época. Antecedendo essas produções, quase todas de gigantes como Disney e DreamWorks, estava o belíssimo “Anastasia” (1997). Ao narrar, de forma apaixonante, a história de declínio e redenção da princesa russa, Bluth e sua equipe, mesmo correndo por fora, foram capazes de rivalizar, e até mesmo superar, suas formidáveis rivais. A dosagem exata de romantismo e melancolia da trama, aliada à beleza e meticulosidade dos cenários e figurinos, é testemunho da sensibilidade do mestre, que tanto encantou as crianças da minha geração.

“Titan A.E.” (2000), de Don Bluth

Gabriel Oliveira: “Titan A.E.” (2000)

Muito antes da Terra abandonada esperando por ser repovoada por humanos obesos em “Wall-E” (2008), Bluth já tinha pensado em “Titan A.E.”. Embora tenha sido o fracasso derradeiro do diretor, talvez um dos maiores problemas do filme, na verdade, tenha sido não se vender bem: a Fox não soube fazer isso e não conseguiu atingir nem crianças, nem adolescentes, nem adultos. Uma pena, considerando que, mesmo com sua boa dose de problemas, “Titan A.E.” é uma ousada space opera em miniatura, reunindo elementos comuns da ficção científica, como uma ameaça alienígena e a destruição da Terra, tendo boas tiradas, e fazendo bom uso de seu visual que combinava CGI e animação tradicional. Mesmo que o protagonista pareça um personagem de “Anastasia” com um corte de cabelo moderno e a trilha sonora seja incrivelmente datada, vale a revisita – e é uma boa introdução ao universo sci-fi para crianças e pré-adolescentes.

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