Para chamar as coisas pelo nome: Dona Flor e Seus Dois Maridos, a nova e modesta adaptação de Pedro Vasconcelos para o romance clássico de Jorge Amado, não vai fazer ninguém esquecer a predecessora famosa que, em 1976, imortalizou a figura morena e silfídica de Sônia Braga na telona.

Lá estava uma fresta de luz em meio ao panorama escuro do regime militar, um filme deliberadamente irreverente, despudorado, tropical, filmado quase como uma descoberta. Pudera: seu diretor, Bruno Barreto, tinha então apenas vinte anos, e seu elenco, onde também despontava um sensual e provocador José Wilker, não era muito mais velho. Como que pegando no ar os novos ventos da abertura, Dona Flor ’76 era um raro triunfo artístico, político e sociocultural, uma resposta à necessidade de leveza do Brasil daqueles tempos.

A versão de Vasconcelos já sai em desvantagem por essa comparação: num Brasil que, lamentavelmente, lembra em vários aspectos o clima convulso, dividido e principalmente conservador da ditadura, seu novo Dona Flor não tem condições de repetir o impacto da primeira versão. O erotismo, que foi uma força propulsora naquele momento, já não alvoroça mais ninguém hoje em dia, e a direção de Vasconcelos (do pavoroso O Concurso) opta, de forma frustrante, por estilizar seu material, tornando-o artificial e distante – dir-se-ia novelesco – aos olhos do público, quando o naturalismo e a intensidade íntima de um Sérgio Machado (Cidade Baixa) ou um Karim Aïnouz (Praia do Futuro) pareceriam tão mais apropriados. Não sei vocês, mas Jorge Amado pra mim é uma coisa vaporosa, suada, mormacenta, e esta nova versão nunca sai do clean, do bonitinho.

As coisas começam na chave errada: a morte de Vadinho (Marcelo Faria, vindo de uma experiência de cinco anos vivendo o personagem no teatro), o boêmio sedutor, irresponsável e violento que arrebata primeiro o coração de Dona Flor, é mostrada de forma histérica, excessivamente dramática. O chororô do início não tem nada a ver com o que se segue depois – uma adaptação mais amena, lírica e romântica do livro de Jorge Amado, bem distante do tom franco e malicioso da versão de Barreto.

Muda, também, o enfoque: enquanto o Dona Flor de 76 ia fundo nos lances mais controversos da obra, retratando com crueza o relacionamento abusivo de Dona Flor e Vadinho (um dado que é quase romantizado no filme atual, quando poderia ser condenado de forma contundente), a versão de Vasconcelos prefere se concentrar no mundo íntimo da protagonista, no conflito entre sua realização sexual e os freios impostos pela moral e os bons costumes. Temas sempre relevantes para o cinema – Jorge Amado talvez não esteja nem perto de capturar a psicologia feminina, e seu romance hoje pode soar anacrônico pra muita gente, mas a busca por retratar com franqueza o desejo de realização sexual de uma mulher é algo bem vindo na paisagem majoritariamente masculina de qualquer forma de arte.

Dentro de seus parâmetros assumidamente modestos, o filme cumpre suas premissas. Juliana Paes é uma boa sucessora para Braga – como esta, ela vem de uma experiência televisiva com outra heroína amadiana, a fulgurante Gabriela –, e atravessa bem as nuances e conflitos da protagonista. Faria, apesar do Vadinho bem mais amigável, é contundente ao mostrar o lado violento do personagem, além de oferecer a maior ousadia do filme – várias cenas de nu frontal masculino, um tabu em qualquer cinema (pode-se dizer que o uso do candomblé, na trama e nas imagens, adquiriu um potencial quase igualmente incômodo no Brasil de hoje). Se Juliana adensa sua personagem e Faria ameniza, Leandro Hassum simplifica até o ponto da caricatura: seu Teodoro até deixa vislumbrar a dignidade do farmacêutico além do meramente patético, mas o excesso de caras e bocas, a falta de melhor aproveitamento ao longo do filme e a irritante tática de Vasconcelos de sublinhar as trapalhadas do personagem com um fade out sonoro acabam com essa dignidade.

A trilha sonora do filme, aliás, é talvez seu aspecto mais frustrante. Centrada quase toda em três canções que se repetem sem parar (“Gostoso Demais” e “Isso Aqui Tá Bom Demais”, de Nando Cordel, e “É o Amor”, de Zezé di Camargo), ela atravessa a obra de maneira óbvia e pouco criativa, além de enfatizar ainda mais a cara televisiva da produção.

Mas não vale a pena ser rigoroso demais: ter um filme de apelo popular colocando à frente, mesmo que sem profundidade, a necessidade de satisfação sexual feminina, e arranhando, mesmo que de leve, a maneira convencional de se retratar nudez e sexo na telona (colocando a carga maior de sensualidade e fetichização sobre o corpo masculino, e não o feminino – o quão salutar é haver essa carga é debate pra outro texto) são coisas bem-vindas num momento de progressivas carolice e obscurantismo.

Tão revelador quanto o sucesso absoluto daquele primeiro filme foi o fato de este ter sido desbancado, 34 anos depois, do posto de maior bilheteria da história do cinema nacional por aquele que é o maior emblema da mentalidade conservadora, antidemocrática e justiceira do Brasil de hoje: Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro (2010). De fato, os tempos agora são outros – e Dona Flor ’17 é pouco mais do que uma tentativa simpática de afirmar esse Brasil brejeiro e tropicalista agora desprezado, não desejado. Mas que, ainda bem, continua sendo afirmado.

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