Nossa, como foi duro assistir a esse filme. E isso aconteceu não apenas por ele ser um desastre em todos os sentidos, mas principalmente por lembrar que ele, querendo ou não, faz parte de uma série de filmes que contribuiu para que o cinema de ação fosse visto com mais respeito, apresentando trabalhos inteligentes e divertidos.

Duro de Matar (1988) é um filme realmente muito bom, e bastante diferente de tudo o que as pessoas sabiam sobre longas de ação à época.

Em uma década em que tais filmes eram protagonizados por brutamontes à prova de balas, que invadiam fortalezas cercadas de guardas por todos os lados, matavam todo mundo e nem se arranhavam, pois eles eram fodões, sabiam disso, e eram completamente destemidos, o filme de John McTiernan mostrava um homem comum dentro de situações difíceis, e este homem não era um herói, nem uma pessoa sem medo. Muito pelo contrário. Era um policial comum que sabia das suas limitações, que não se metia a ser um exército de um homem só, e que precisava de estratégia e da ajuda de outros policiais para resolver a situação. E além de contar com uma direção e um roteiro inteligentes e bastante bem desenvolvidos, que respeitavam a inteligência do público, tinha um vilão memorável vivido por Alan Rickman, e um protagonista com um carisma impressionante, que era o Bruce Willis da época.

Com o estrondoso sucesso, claro que as continuações não demoraram a vir, mas pelo menos até o terceiro filme tais trabalhos, mesmo que inferiores ao primeiro, não chegavam a manchar a série, pois eram filmes divertidos que buscavam se aproximar das características do filme de 1988, sabendo que o sucesso da série estava no seu protagonista e nas situações que ele teria que solucionar.

Do terceiro para o quarto filme passaram-se 12 anos, tempo suficiente para que o cinema de ação novamente estivesse completamente diferente do que era nos anos 90. As características desse momento, que permanecem até hoje, são um legado deixado pelo cinema acéfalo de Michael Bay, que mesmo realizando filmes patéticos e completamente mal filmados e realizados, se tornou o padrão a ser seguido à risca pelos “cineastas” meia boca, paus mandados dos estúdios, que não possuem um mínimo de discernimento.

Se os filmes de ação de antigamente destacavam-se pelos seus protagonistas e por roteiros inteligentes, os filmes de hoje entraram em um pensamento de que o que é legal de ver são explosões, perseguições em alta velocidade, câmera tremida (sem nenhuma explicação), explosões, helicópteros caindo, montagens alucinadas que deixam o espectador com dor de cabeça, explosões, o protagonista pulando de prédios de 80 andares, supercâmeras lentas, robôs gigantes, e explosões.

E o público de hoje em dia está cada vez menos exigente, e acredita que o cinema de ação é isso.

Olhando dessa forma, isso é algo assustador, não? Pois é bastante óbvio perceber como tais filmes são ruins e absurdamente mal realizados, e que as tentativas, que chegam a ser ingênuas de tão mal feitas, de manipular a audiência com situações que desafiam todas as leis da física, ou draminhas e romancinhos incluídos querendo criar alguma espécie de envolvimento emocional com a plateia, são completamente risíveis.

Mas “surpreendentemente” esses filmes estão sempre na lista das maiores bilheterias do ano, e encontram defensores ferrenhos, que dizem que o cinema é uma ferramenta de diversão, e que se tais filmes forem divertidos, e não se propuserem a ser mais do que isso, não há problema nenhum.

A questão é que, com o mínimo de compreensão artística, e com o mínimo de percepção acerca das coisas que nos rodeiam, fica evidente que tais trabalhos não são sequer divertidos. Mesmo que se desligue o cérebro não há como achar tais situações divertidas. Um congresso de um mês de ginástica calistênica é mais excitante do que passar duas horas vendo uma “obra de arte” dessas, pois ele certamente irá agregar mais elementos pra minha vida do que o filme do Michael Bay e dos seus wannabes.

E esse último Duro de Matar é o auge do que isso representa, acabando de uma vez por todas com uma série que teve o seu valor.

Só de lembrar do filme dá uma preguiça enorme. A sinopse é que o John MacClane (Bruce Willis) depois de passar um bom tempo sem ver o seu filho, Jack (Jai Courtney), descobre que ele foi preso na Rússia e por isso vai tentar ajudá-lo. Lá ele descobre que na verdade o seu filho é da CIA e que sua prisão foi para resgatar o também preso Komarov (Sebastian Koch) que tem informações sobre… Ah, tanto faz, a trama não serve pra nada mesmo.

Isso fica bastante claro logo no começo do filme, na interminável perseguição de carro pelas ruas de Moscou. Pra mim pareceram duas horas de uma montagem feita pra deixar o espectador com dor de cabeça e na consciência de ter saído de casa no domingo e ter pago um ingresso pra ver isso.

E o que fica claro na “direção” de John Moore (quem?) é que ele quer deixar muito claro que o filme teve um largo orçamento, e que ele (não) sabe fazer cenas de ação de tirar o fôlego com batidas e mais batidas, helicópteros invadindo prédios, ou quando MacClane está dentro de uma caminhonete pendurada em um helicóptero, e a porta misteriosamente se abre fazendo com que ele tenha que se pendurar na porta, em uma cena pra deixar todos apreensivos e maravilhados com a perícia com a qual ela foi feita. Além de, em certos momentos, usar a câmera lenta, e em outros a câmera na mão de um profissional com Mal de Parkinson, ou quando faz um uso grosseiro do zoom in e out na cena do engarrafamento deixando claro que o “diretor” não tem a menor ideia do que fazer com a câmera.

Mas é claro que a melhor cena de todas é na já citada perseguição, quando John passa de um viaduto a outro, e faz questão de passar por cima de todos os carros que conseguir encontrar, mostrando que… isso é algo legal de assistir.

Aliás, nessa cena vemos claramente o motivo que fez com que a série se tornasse cada vez menos relevante. O John MacClane, como a gente conhecia, foi embora no terceiro filme e nunca mais voltou. Esse John MacClane que vemos no quarto e quinto filme é o homem de um exército só, fodão, que sabe disso, é à prova de balas. Esses filmes, que querem dizer que são moderninhos e espertinhos, estão trinta anos atrasados, fazem exatamente o mesmo que o Stallone e o Van Damme faziam, e ainda conseguem ser piores graças a esse “estilo” mau caráter de fazer filmes.

O que vemos é um personagem engraçadinho, que quer mostrar que é uma pessoa superbacana e descolada com os comentários da hora, botando pra ferver com uma galera da pesada. E veja como eles até conseguiram trazer o tom de desrespeito que esses personagens tinham, como na cena em que ele tenta roubar um carro, e o homem começa a argumentar em russo, já que o filme se passa na Rússia, e num assombro de desrespeito e prepotência, MacClane dá um soco no sujeito, dizendo para ele falar a sua língua, em um dos exemplos mais clássicos da imbecilidade norte-americana. Uma situação nada menos que patética e vergonhosa, mostrando que este protagonista poderia ser qualquer pessoa, pois o nome John MacClane é apenas uma grife que o filme usa para alcançar maior abrangência, e nem assim consegue deixar de fazer com que o filme também seja qualquer coisa.

E o “roteiro” de Skip Woods (quem?) é um dos piores que já tive o desprazer de ver na vida. Esse trabalho faz com que Battleship (2012) pareça cult. Tentando assumir um ar de Tarantino em alguns momentos, ele consegue apenas trazer uma sensação absurda de vergonha alheia, pois os tais diálogos sobre o nada, que deveriam mostrar que ele é um talento na hora de desenvolver as conversas entre os personagens (como na cena em que o Dançarino vai matar os heróis), apenas nos tiram do filme, e mais parece um texto escrito pela Glória Perez. A cena do taxi é de se pensar o tempo todo sobre o que deveríamos estar achando daquilo, se deveríamos rir com ou da cena, além é claro do lindo momento em que John confessa para Komarov que foi um pai ausente e que se arrependia disso, e Jack ouve tudo, deixando clara uma tentativa canhestra de manipular a plateia, e com isso conseguindo apenas arrancar risadas, não lágrimas.

E uma das coisas mais tristes de tudo é ver Bruce Willis metido nisso. Um ator de um carisma tão grande, com tantos filmes bons no currículo, deveria ter mais respeito próprio, pois ele sabe que a série Duro de Matar foi o que foi por sua causa, e também se tornou o que é agora por uma grande parcela sua, ao aceitar fazer uma bizarrice dessas, com um personagem que a cada 15 minutos diz em um tom supostamente mal humorado tentando ser engraçado, “Caramba, eu tô de férias!”.

Espero que me desculpem, mas não vou entrar na questão de falar dos erros de continuidade e tantas outras falhas escancaradas no filme, pois o texto já está bastante longo, e esse assunto teria material para mais um arquivo de 5 páginas. Creio que só o final, quando eles caem do prédio, e mesmo que quando eles caiam não tenha nada embaixo, no meio da descida surgem andares no ar, fazendo que eles atravessem muros e paredes que não existiam a um segundo atrás, o melhor ainda fica pra depois, quando eles se levantam, e estão ótimos, nem mancar eles mancam.

Seria um alento pensar que este certamente vai ser o último filme da série e que os seus realizadores vão tomar vergonha na cara e perceber que fizeram uma tremenda bizarrice, e que o melhor a fazer é esquecer tudo. Mas é claro que isso não vai acontecer, pois ainda temos uma enorme demanda de gente que vai ver esse filme, e achar que ele é filé e muita onda. E com isso, todo mundo sai perdendo.

NOTA: 1,5

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