Ninguém quer ter a casa invadida, certo? É o lugar onde nos sentimos mais à vontade, onde podemos ser nós mesmos, sem filtros. A invasão é ainda pior se se for realizada por criaturas incompreensíveis do outro mundo. Além de lidar com esse medo básico da invasão, os filmes de fantasmas e de casas assombradas de vez em quando tocam em questões econômicas: afinal, frequentemente os residentes das casas malditas não vão embora porque não têm dinheiro para tal. Gastaram tudo no lar dos sonhos, e ele virou um pesadelo. Quem se livrou do aluguel não quer voltar a sentir esse pavor novamente…

De novo, tentando fugir do óbvio, nessa relação não constam “Poltergeist: O Fenômeno” (1982), “Terror em Amityville” (1979), “O Sexto Sentido” (1999) ou “Os Outros” (2001). São grandes filmes – bem, exceto por “Amityville”, que para mim é medíocre – mas são muito batidos e qualquer interessado no gênero já deve ter visto. Preferi falar de alguns filmes que o público talvez não conheça. Então, apaguem as luzes e me acompanhem neste passeio por lugares assustadores.

Carnaval das Almas (1962)

Mary sofre um grave acidente de carro, do qual é a única sobrevivente. Ela se recupera e se muda de cidade, mas começa a ver aparições de um homem fantasmagórico e estranho, que tenta atraí-la para um parque de diversões abandonado. Um lugar onde os fantasmas dançam… Com essa trama e uns 30.000 dólares de orçamento, o diretor Herk Harvey – que trabalhava fazendo vídeos institucionais e nunca fez outro longa-metragem na vida – criou uma obra única, que alterna momentos trash à la Ed Wood com uma sensibilidade digna de um Cocteau ou de um Bergman (sem brincadeira). Sua história fantasmagórica influenciou David Lynch e George A. Romero e é um dos grandes exemplares do cinema independente de terror dos Estados Unidos. É estranho e em alguns momentos o espectador vai querer rir. Mas em outros, ele vai sentir um arrepio na espinha.

Desafio do Além (1963)

Quatro pessoas – dois homens e duas mulheres – resolvem passar algumas noites numa casa com uma história tenebrosa de mortes e acontecimentos estranhos. Tudo em nome de um experimento científico. Mas uma das mulheres, a pobre Eleanor, parece ter sido escolhida para estar lá. Existem mesmo fantasmas na Hill House, ou é tudo fruto da imaginação de uma mulher perturbada e solitária? O diretor Robert Wise dá uma aula de tensão aqui, com uma direção de arte estupenda e abusando das sombras na fotografia. E os sons… Nunca batidas e o som de uma porta dobrando foram mais assustadores. Foi refilmado nos anos 1990 com Liam Neeson e Catherine Zeta-Jones, mas esse remake é coisa do diabo. O original é o melhor filme de terror de todos os tempos, na opinião de ninguém menos que Martin Scorsese. E quando ele fala, a gente presta atenção.

A Mansão do Inferno (1980)

Como muitos dos filmes do diretor italiano Dario Argento, “A Mansão do Inferno” parece um pesadelo barroco. As coisas não fazem muito sentido, mas as imagens são belas, as cores são fortes e as situações, irreais. O filme segue um grupo de personagens, com o foco narrativo “saltando” de um para o outro, enquanto entram em contato com o mistério das “Três Mães”, bruxas demoníacas que possuem moradias espalhadas pelo mundo. Uma dessas bruxas, a Mater Tenebrarum, está contida na mansão nova-iorquina do título, e aqueles que cruzam seu caminho sofrem fins terríveis. Como ser esfaqueado ou devorado por ratos… É uma grande cena atrás da outra, unidas pelo mais frágil dos conceitos, mas funciona. Os personagens constantemente descem escadas ou subsolos, e o filme trabalha com iconografia que remete ao inferno ou à bruxaria. Prato cheio para fãs do horror, servido por um dos maiores chefs italianos.

Faz parte de uma trilogia das Três Mães de Argento, junto com “Suspiria” (1977) e “O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas” (2007).

A Casa do Espanto (1986)

Quem viveu a era do videocassete deve se lembrar deste. Dirigido por Steve Miner, que comandou capítulos das franquias “Sexta-Feira 13” e “Halloween”, conta a história de um escritor que possui uma história complicada com uma casa. Neste imóvel, sua tia se suicidou e seu filho despareceu, o que causou um abalo no seu casamento. Ele retorna à casa para enfrentar seus “demônios”, literalmente, e tentar salvar o filho de uma vez por todas. Stress pós-traumático dá as caras no terror – o protagonista é veterano do Vietnã e enfrentará o fantasma do seu amigo, armado e com roupa de soldado – mas a mistura de medo com comédia é muito eficiente, como só os filmes dos anos 1980 sabiam fazer. E a cena na qual a esposa do herói se transforma num monstro horripilante e inchado é inesquecível, assim como a criatura que sai do seu armário…

A Espinha do Diabo (2001)

A primeira frase dita no filme é “O Que é um Fantasma?” e ao longo do restante da história o diretor Guillermo Del Toro oferece a sua explicação: algo congelado no tempo, incapaz de ir adiante por causa de alguma injustiça ou de uma morte trágica. Quando Carlos, um menino enviado a um orfanato para se esconder da guerra civil espanhola, começa a ver o fantasma de outro garoto rondando os corredores do lugar à noite, tem início uma história de perda da inocência na qual a criatura mais assustadora é o vilão interpretado por Eduardo Noriega – curiosamente, um ator jovem e de boa aparência. O diretor tem mais carinho pelo fantasma, e por aqueles que podem vê-lo, que pelos vivos, e seu filme é uma declaração de amor aos medos infantis, mostrando também como eles se transformam quando crescemos.

MENÇÕES HONROSAS:

Bons filmes com fantasmas e assombrações até que são numerosos, então não deixe de ver “Os Inocentes” (1961), “A Casa da Noite Eterna” (1973), “A Casa das Almas Perdidas” (1990) – sim, aquele mesmo que passava na Globo com a cena do estupro por fantasma – passando por “Ringu: O Chamado” (1998), “A Bruxa de Blair” (1999), “O Orfanato” (2007), até os recentes “Sobrenatural” (2011), “The Babadook” (2014) e “Corrente do Mal” (2014). E tem também alguns onde a casa é sinistra, embora não apareçam fantasmas propriamente ditos, como “A Casa dos Mortos Vivos” (1980) de Lucio Fulci, ou “House of the Devil” (2009) de Ti West. Bons sonhos.

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