Meu primeiro contato com Viagem a Darjeeling foi através do curta Hotel Chevalier. Nele, os personagens de Jason Schwartzman e Natalie Portman (que faz uma ponta no finalzinho de Darjeeling) encontram-se, antes da viagem que os três irmãos farão na Índia, num quarto de hotel e falam sobre sua relação. Ou não falam, falam de outras maneiras. Tudo daquele jeito característico.

O curta sugere um caminho que não é seguido pelo longa. Viajem a Darjeeling, olhando em retrospecto, talvez seja o filme menos “Andersoniano” do cineasta. O diretor parece ter se interessado pela constante agitação indiana, e fez o seu filme menos estático, menos centralizado, com mais movimentos de câmera (o diretor fez várias panorâmicas, criando uma relação de mostrar/esconder muito dinâmica, com destaque óbvio para a sequência em que os três esperam o ônibus após o enterro), uma trama que se interessa mais no trajeto do que no destino, e com personagens que podem até fazer parte do universo de Wes Anderson, mas que não possuem as mesmas excentricidades que já vimos em Rushmore, Tenembauns, Budapeste, etc.

Os três irmãos vividos por Owen Wilson, Adrien Brody e Jason Schwartzman pegam um trem na Índia, no final das contas, para encontrarem a si mesmos. Após a morte do pai da família, eles se reencontram e percebem o quanto não sabem sobre o outro. Não sabem sobre a paternidade de um deles, sobre o conturbado relacionamento amoroso do outro, ou do acidente de moto que quase custou a vida do irmão mais velho. Não sabem disso, e de praticamente mais nada. Estão ali juntos aparentemente de maneira aleatória, mais por laço sanguíneo do que companheirismo, ou boas lembranças do passado.

Essa relação de irmãos é construída devagar no decorrer do filme, na argumentação de cada um quando há algum tipo de conflito (como pedir uma refeição no restaurante), na maneira como lidam com a divisão dos pertences do pai, até como se dividem na apertada cabine do trem. Também há ali o companheirismo, uma cumplicidade sugerida nos constantes pactos que assumem, mesmo que não sejam cumpridos depois, ou no desejo mútuo de encontrar a mãe, mesmo que com finalidades dolorosas lá no meio dos sentimentos.

Aliás, talvez essa seja a característica que está aqui na mesma medida que nos outros trabalhos do diretor. A melancolia. Como são tristes e desajustados esses personagens. Tristes ou com motivos para se verem frustrados em suas vidas. Os diálogos carregam esse peso, com verdades sendo ditas sem filtro, mas mais como falta de freio do que por querer ferir. Mas acabam ferindo, trazendo lembranças que seria melhor se ficassem guardadas, ou verdades que seria melhor se não fossem descobertas.

As conversas também carregam o humor característico do diretor, que se mistura sem divisão com a melancolia (e nisso não há ninguém no cinema contemporâneo que faça de maneira tão orgânica quanto Wes Anderson), criando diálogos em que a dor faz rir, ou que rir é uma maneira legítima de expressar um sentimento de tristeza. Neste sentido, o personagem de Schwartzman parece ser o que mais carrega esse peso. Mas há de se ressaltar que os três atores cumprem bem seu papel, sem destaques individuais.

Mas há alguma coisa que faz com que o filme não decole. Está tudo no lugar, mas os personagens que tomam a tela acabam não tendo conflitos suficientemente decisivos para causar interesse. O interesse está na janela do trem, nos corredores, na Índia irresistivelmente caótica, nas pessoas que cruzam os seus caminhos (como a excelente sequência envolvendo os três garotos indianos no rio, e seu consequente rito de passagem depois), nas promessas que não serão cumpridas, nas mudanças de plano, e nas relações efêmeras como um flerte irresistível com uma comissária de bordo que está num relacionamento. Mas o que aparentemente é o principal do filme, a relação dos três à procura de algo, não possui muito a oferecer, ou então oferece de uma maneira que o diretor já, amplamente, provou ser capaz de fazer melhor, de maneira mais cativante.

Mas isso talvez seja o lado fã falando mais alto por lembrar das emoções que outros filmes do diretor conseguem. Falta mais momentos como a linda cena de Francis tirando do rosto as ataduras, entendendo que essas marcas irão fazer parte de quem ele é dali pra frente, e que seus irmãos, pelo menos naquele momento, estavam ali ao seu lado, facilitando a ideia de aceitar as cicatrizes que a vida nos coloca no rosto.

Viagem a Darjeeling é aquela boa música que está no lado b de um ótimo disco. Claramente não possui o mesmo impacto das melhores músicas da banda, mas ainda assim te causa um sentimento bom, demonstra as boas qualidades de um artista estimulante. Caso você seja do contra, é o filme ideal pra dizer que é o seu favorito de Wes Anderson numa mesa de bar, pra acalorar uma discussão, mesmo que não seja, e você saiba disso. Vale o teste.

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