O cinema nos transforma na medida em que nos transporta para os universos que cabem em telas. Pela duração do filme, passamos por um fluxo duplo, no qual somos outra pessoa ao passo que mudamos ou reforçamos quem somos através da fruição. Para as cinéfilas, esse movimento envolve ainda outra capacidade: a de sermos e sentirmos como homens, quando assim o filme demanda (e muitas o fazem). 

Mulheres cinéfilas cumprem suas infindáveis listas de melhores filmes do ano ou clássicos essenciais e as obras são permeadas de histórias de homens. Obviamente, nem toda essas histórias seguem à la Lawrence da Arábia (1962), despidas de personagens do sexo feminino ou a sem ele se endereçar; porém, são muitas as obras que delineiam a história do cinema na qual os papéis das atrizes são diminutos, secundários, artifícios para o desenvolvimento dos percursos masculinos ou mero adereço.  

Como espectadoras em busca de uma expertise, seria hipócrita dizer que esses filmes não são bons, ainda que com tal característica. Acostumamo-nos, desde cedo, a chavear a percepção para adentrarmos nos corpos e mentes dos homens da ficção como que naturalmente. Choramos e rimos com eles, abraçamos suas motivações, vivemos a trama junto com eles. Resumindo: mulheres cinéfilas “vestem a camisa” de filmes sobre, de e para homens, e não raro sequer paramos para tomar consciência de que nos despimos com facilidade de nossa visão como mulher para embarcarmos num filme. Em linhas gerais, teóricas como Laura Mulvey dissecam justamente essa espécie de ajuste/suspensão na mulher espectadora. 

Por si só, isso não é ruim; é para isso que serve o cinema, oras, para sermos e vivermos outras realidades num determinado período de tempo. Indo mais além da simples posição de espectadora e cinéfila, a mulher crítica de cinema tem o dever de o fazer, como bem dita a literatura sobre crítica e análise fílmica, segundo a qual o sentir é anterior ao decompor o filme para analisá-lo. Se você quer escrever sobre Os bons companheiros (1990) , não faz sentido não sentir a tensão de Henry (Ray Liotta) com as ameaçadoras brincadeiras do perigoso Tommy (Joe Pesci), sem tomar para si o ar suspeito de James (Robert De Niro), não importa com qual gênero (biologicamente ou no plano psíquico) você se identifica, se é que se identifica com algum.  

Uma inquietação genuína

 

Esse longo preâmbulo sobre a posição da espectadora, da cinéfila e da crítica é para chegar numa inquietação: os homens espectadores, cinéfilos e, em especial, os críticos de cinema têm dificuldade de despirem-se do que concerne ao seu gênero quando assistem e escrevem sobre filmes de mulheres ou sobre mulheres? A pergunta é uma indagação genuína, que pretende mais gerar reflexão que ameaçar, mesmo porque não tenho hoje fundamento para provar uma suposta dificuldade de alguns críticos de “tornarem-se” mulher por cerca de 120 minutos e cultivar a mesma sintonia que eles podem sentir com Lawrence da Arábia, Henry ou Vito Corleone. Mas posso dizer que é uma suspeita válida, baseada em comentários e certas críticas que já li sobre filmes feitos por mulheres ou centrados nelas. 

A pergunta aqui lançada dialoga com pesquisas sobre a penetração das mulheres críticas de cinema e qual a configuração dos espaços dessa prática. Em 2008, uma pesquisa do Center for the Study of Women in Film and Television apontou que nos 100 jornais de maior circulação nos EUA, apenas 30% dos críticos de cinema eram mulheres. O mesmo estudo revelou que filmes feitos por mulheres, focados em personagens do sexo feminino ou com maior equilíbrio de representação entre sexos eram mais comumente avaliados por críticas mulheres que por homens. 47% dos veículos sequer tinham mulheres escrevendo críticas de forma regular ou como freelancers. Apenas 12% dos jornais não tinham nenhum tipo de crítica. 

Numa pesquisa de 2013, os números seguiram com certa regularidade no mundo online: só 18% dos Top Critics do Rotten Tomatoes, um dos agregadores de críticas mais populares na web, eram mulheres, com filmes feitos ou centrados em homens sendo mais e melhor avaliados. Segundo a realizadora das duas pesquisas citadas, Martha Lauzen, os números seguiram essa tendência em 2015. Na prática, isso significa que as produções de críticos de veículos com maior prestígio agregados no site são majoritariamente de homens, o que desestimularia um debate mais plural sobre as produções cinematográficas. 

Em 2015, a atriz Meryl Streep comentou em uma coletiva de imprensa sobre a discrepância de sexos das pessoas escrevendo sobre filmes. Ela pontuou que, na época, o Rotten Tomatoes tinha 168 mulheres escrevendo, contra 760 homens. Além disso, eram apenas 27% de Top Critics do sexo feminino no site, com bem frisou Kiva Reardon no belo artigo no qual apresenta a Cléo Journal, publicação criada por ela e voltada para a crítica cinematográfica produzida por mulheres. 

Quando a pesquisa de Lauzen alcançou 2016, a mudança de cenário era levemente mais positiva às mulheres. Comparado à 2013, houve um aumento de 5% no número delas dentre os Top Critics do Rotten Tomatoes. Curiosamente, embora as mulheres da lista de Top Critics estivessem em menor número no grupo (apenas 26% do quadro geral), a média de críticas escritas por elas no decorrer do ano foi bem similar a dos homens críticos de cinema: 15 delas contra 17 deles. Na prática, produzimos de maneira equivalente no quesito quantitativo, mas somos menos notadas mesmo quando escrevemos sobre filmes mais diversos. 

Outro dado digno de nota é que o número de homens tendia a ser maior em todas as principais associações de críticos. Apenas 26% das críticas mulheres pertenciam a grupos como o Los Angeles Film Critics Association, New York Film Critics Circle, dentre outros. O resultado disso é que há menos mulheres escolhendo filmes para mostras e festivais, além de menos mulheres trazendo variedade ao que se escolheria como filmes mais bem recomendados em listas de melhores do ano, o que influencia a maneira como a produção cinematográfica, seja num contexto independente ou não, valoriza seus profissionais e delineia os tipos de narrativas tidas como relevantes ao longo da história. 

Em 2016, permaneceu a tendência de mulheres críticas escreverem sobre filmes com mulheres protagonistas ou, no mínimo, com protagonismo em igual medida para atores e atrizes. 34% dos filmes criticados por mulheres seguiram essa linha; já dentre os críticos homens, foi de 24%, com 76% dos filmes resenhados estrelados por protagonistas também homens.  

Com isso tudo, percebemos que essa não é apenas uma questão de “deixar as garotas brincarem”. Cada vez mais os sites agregadores de críticas e suas notas para os filmes influenciam as bilheterias, definindo tendências nas abordagens dos temas dos filmes, dizendo que tipo de narrativas e personagens marcam uma época. Se as avaliações positivas dizem respeito a filmes feitos por homens, se o público passa a preferir ver filmes sobre homens, se são minados os espaços nos quais boas obras e boas diretoras/roteiristas/ trabalhadoras do cinema em geral podem ter voz, se as mulheres não podem lançar em maior escala seus olhares sobre esses filmes e profissionais… uma parte importante da cultura fílmica pode ser perdida. 

Como críticos e independente de sexo, é nosso papel não deixar que isso aconteça, e parte dessa tarefa perpassa a autorreflexão constante. Até que os números nos digam que os artistas do cinema tem oportunidades iguais para criarem e serem discutidos, ter mais mulheres escrevendo sobre cinema parece mandatório, assim como mais afrodescendentes, mais membros da comunidade LGBT+, e por aí vai, cada um agregando o que sua experiência e saberes podem trazer ao pensar o cinema. 

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