Como de praxe em Game of Thrones, episódios de transição que apontam para o final de uma temporada costumam manter um ritmo correto. Com essa sétima temporada sendo a primeira a divergir mais explicitamente do material-base, uma vez que George R. R. Martin sequer terminou de escrever o livro no qual ela se basearia originalmente, a vontade de garantir a audiência ao dar exatamente o que ela quer torna esse episódio, a exemplo do anterior “The spoils of war“, um agradável, mas nada surpreendente presente.

Bem fofíneo o dragãozíneo.

Em “Eastwatch“, vemos os desdobramentos do caos gerado pelo ataque surpressa de Daenerys (Emilia Clarke) em Castelo Alto. Como esperado, Jaime Lannister (Nicolaj Coster Waldau) é convenientemente salvo por Bronn (Jerome Flynn) do afogamento, numa diegese um tanto confusa, já que eles emergem num campo em que a batalha já se encerrou – sendo que, não muito longe dali, Daenerys sela o destino dos Tarly, que se recusam a aceitá-la como rainha e sofrem consequências nada agradáveis. De mais interessante, fica apenas a sugestão de conflito interno de Tyrion (Peter Dinklage), que encara a derrota dos homens que outrora liderou e teme que Dany não mantenha as rédeas de seu próprio poder. Isso, aliás, vem se tornando um tópico de conversa constante com Varys (Conleth Hill).

Como agora é absurdamente rápido fazer viagens entre os Sete Reinos, Jaime facilmente consegue voltar a King’s Landing e avisar a Cersei (Lena Headey) que o poder de destruição de Daenerys é imbatível: ela os venceu, ao passo que mostrou que as alianças com os Tyrell, Greyjoy e Sand eram meio que inúteis no final das contas. Isso transformou todo aquele momento empoderador e feminista de alguns episódios atrás em algo descartável (fala sério, HBO…), uma vez que os Dothrakis e um dragão num ataque surpresa foram o suficiente.

A posterior revelação da gravidez de Cersei e os planos de Jaime assumir a paternidade abertamente ficaram bem deslocados da posterior discussão sobre a necessidade de um armistício. Isso curiosamente espelha o quão deslocada também ficou, em termos de narrativa, a impressionante batalha de “The spoils of war“, pois a própria Cersei comenta como Daenerys pode sugerir uma trégua após vitória triunfal, ainda que seja por conta da proximidade dos White Walkers. E é estranho Dany amolecer o coração tão facilmente por essa causa, convencida pela cara de cachorro pidão de Jon (nada contra; inclusive, aprecio) e uns desenhos rupestres nas cavernas de Dragonstone.

♪ ♫ I will go down with this ship / And I won’t put my hands up and surrender ♫ ♪

A maneira como ela e outros personagens se agarram e depois se desprendem de suas convicções vem beirando o absurdo nessa temporada. Nesse sentido, Gendry (Joe Dempsie) é até emblemático. Quando convocado por Davos (Liam Cunningham) a ir embora de King’s Landing para além da Muralha, ele simplesmente pega seu martelo enorme e vai, sem dar a mínima para o que deixa pra trás. Por um lado, isso mantém o ritmo acelerado e divertido no geral, mas por outro, retira a profundidade original das personagens – o que é justamente o elemento que fez com que nós importássemos com eles.

Uma reconstituição fiel do encontro entre Jon e Gendry

É o mesmo problema de quando, mais pra frente, vemos Gendry se tornando o melhor amigo do peito de Jon só para espelhar a relação dos pais Robert e Ned. E o mesmo problema quando Gendry se junta a Jon, Jorah (Iain Glen), Tormund (Kristofer Hivju), Clegane (Rory McCann) e a turma da Irmandade Sem Bandeiras para encarar a tentativa absurda de captura de um White Walker para provar que a ameaça é real. Tudo é muito divertido, mas forçado demais em termos de suspensão de descrença – e olha que estamos falando de um mundo com zumbis de gelo e dragões! Para quem acompanhou várias temporadas com os Starks zanzando por aí e sequer sabendo quem da família estava vivo, ver tantos encontros de personagens queridinhos tão convenientemente tem um efeito dual: é muito legal de assistir, mas como isso serve à história no fim das contas?

Esquadrão Suicida sim ou com certeza?

Até o arco dos Stark em Winterfell, que poderia quebrar essa pobreza narrativa, deu pra trás essa semana. A rivalidade de infância entre Arya (Maisie Williams) e Sansa (Sophie Turner) veio à tona, com a primeira acusando a segunda de querer ser Senhora de Winterfell no lugar de Jon (porque né, as mulheres têm sempre que ser rivais, principalmente as irmãs…). E, inexplicavelmente, o Mindinho (Aidan Gillen) conseguiu ser mais esperto que “a menina” treinada por Jaqen H’Ghar (Tom Wlaschiha), um Homem Sem Rosto. Por mais que eu goste de Baelish como personagem, esse subplot soa novamente fora do tom. A única coisa “menos ruim” desses furos todos é que, pelo visto, Sansa continuará a se tornar uma personagem multifacetada, pois sua moral parece cada vez mais dúbia, ao invés de seguir o trope nada original de menina que amadurece e forma uma índole mais justa via estupro “corretivo” (lembram como a Sansa era mala até nos compadecermos dela nas mãos de Joffrey e Ramsay? Pois é).

Parem de brigar, meninas!

Como “Eastwatch” não seria um bom episódio transitório sem deixar pontas soltas, muitos momentos envolvendo Jon (Kit Harrington) tiveram essa função. Primeiro, citamos o momento em que Drogon se torna mais dócil junto ao Rei do Norte, quando Dany retorna à Dragonstone. Depois, no segmento voltado à Cidadela, Gilly (Hannah Murray, sempre servindo apenas de escada para Sam) lê um registro da anulação do casamento inicial de Rhaegar, o pai de Jon, com Ellia Martel, e, logo em seguida, casando com Lyanna Stark – momento este que reverbera com a temporada passada e nos dá a certeza que o Rei do Norte poderia muito bem reivindicar ele mesmo o trono em King’s Landing. Novamente, pincelam-se fatos que o público já sabe, e que podiam caber perfeitamente em elipses no roteiro.

Detetivões da Cidadela

Dito tudo isso, pode-se pensar no quão ruim foi esse quinto episódio de Game O Thrones. Isso provavelmente é verdade, mas também é inegável que “Eastwatch“, mesmo com tantas falhas, foi bastante divertido. A quem busca analisar mais à fundo a série, essa sétima temporada parece nos dizer para não levar nada muito a sério, curtir o fan service e o ar de fanfic que foi prevalecendo aos poucos e aproveitar a série enquanto evento, na reunião com os amigos e nas repercussões pós-episódios. A quem espera a coerência demarcada por George R. R. Martin, o meu sinto muito.

Coisas que nos fazem perdoar a falta de coerência em Game of Thrones: Beric Dondarrion com uma espada de fogo no preview do próximo episódio…

Confira as críticas dos episódios anteriores:

Sétima Temporada, Episódio 1

Sétima Temporada, Episódio 2

Sétima Temporada, Episódio 3

Sétima Temporada, Episódio 4

 

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