Ao longo da história do cinema, o Japão produziu alguns das melhores obras de terror de todos os tempos. Algo na sociedade ou na cultura faz os japoneses terem mais intimidade com o horror do que a maioria dos outros povos. E em 2019, alguns clássicos da terra do sol nascente estão celebrando aniversários marcantes, por isso vamos aproveitar para ver (ou rever) filmes como…

Godzilla (1954)

O monstrão mais famoso do cinema está ficando velhinho, mas ainda se mostra enxuto e sem sinais de querer se aposentar. O clássico Godzilla original, dirigido pelo lendário Ishirô Honda, celebra seu 55º. aniversário em 2019 e continua um marco.

É um filme de monstro que serve como alegoria de uma grande monstruosidade: O país que sofreu o trauma das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki na Segunda Guerra Mundial produziu uma parábola sobre uma criatura reptiliana gigante, despertada pelos testes nucleares, que começa a causar destruição no arquipélago japonês e depois em Tóquio. A conexão entre o horror real da guerra e a ficção-científica era inegável – o produtor Tomoyuki Tanaka chegou a afirmar: “A humanidade criou a bomba, agora a natureza vai se vingar da raça humana” – e várias cenas adquirem força emocional justamente por causa disso. A cena dos marinheiros, a bordo do navio, observando um clarão no horizonte, à noite, continua arrepiante…

Apesar da idade, ainda é o melhor filme do Godzilla já feito e um grande exemplar do cinema fantástico. Além da sua potência alegórica, o filme é envolvente e divertido, e até o drama humano – coisa com a qual filmes de Godzilla ainda sofrem, especialmente os norte-americanos – é convincente e bem dosado dentro da narrativa. O sucesso do filme deu origem aos subgêneros tokusatsu (“filmes de efeitos especiais”) e kaiju (filmes com monstros gigantes), e alavancou a indústria cinematográfica do Japão. E, quem diria, Godzilla é hoje a maior franquia do cinema, pelo menos em quantidade de filmes: São 34 até agora, incluindo os feitos nos EUA, e até a Marvel ainda vai demorar um pouco para alcançar essa marca… E tudo começou com este filme pequeno, meio despretensioso e muito bom. Vale a conferida.

Onibaba: A Mulher Demônio (1964)

Sério candidato a melhor filme japonês de terror já feito, Onibaba, do diretor Kaneto Shindô, mistura sexo e terror de maneira exemplar, e nestes 45 anos desde seu lançamento, acabou influenciando cineastas ocidentais também.

Ambientado numa época de guerra civil, começamos o filme acompanhando duas mulheres (Nobuko Otowa e Jitsuko Yoshimura) atraindo um samurai para uma armadilha. Nesses primeiros 10 minutos sem diálogos, vemos as mulheres, que moram numa região de juncos enormes, atraindo o homem para a morte certa ao fazê-lo cair num buraco profundo. Depois, elas vendem os pertences dele para sobreviver, e descobrimos que elas estão fazendo isso há tempos, enquanto esperam pelo retorno de um guerreiro, filho da mais velha e marido da mais nova. Enquanto isso, outro homem (Kei Sato) começa a viver com elas e perturba esse delicado equilíbrio. Depois, as coisas pioram ainda mais quando aparece um samurai com uma estranha máscara no caminho delas…

No filme, as duas mulheres são verdadeiros animais, chegando a matar um cachorrinho numa cena. E animais obedecem aos instintos… No filme de Shindô – no qual ele é também roteirista e diretor de arte – o sexo é uma força poderosa, tal qual a necessidade de sobreviver. A partir de certo ponto da narrativa, é o tesão que motiva e acaba dividindo as duas personagens, e é raro vermos um exemplar do gênero a lidar de maneira tão direta com a questão da sexualidade feminina. É raro também vermos mulheres como vilãs, pois geralmente os papéis destinados a elas no terror são de vítimas ou de heroínas. Esse é mais um diferencial do filme.

Além de rico tematicamente, Onibaba é também impressionante visualmente. O trabalho de fotografia em P&B é assombrosa, com a iluminação dos rostos acentuando os traços animalescos dos personagens e criando a atmosfera de pesadelo. Com um desfecho difícil de esquecer, Onibaba apresenta imagens que marcaram cineastas em todo o mundo. O norte-americano William Friedkin, por exemplo, inspirou-se nas aparições e na máscara de Onibaba para mostrar os flashes do rosto do demônio em O Exorcista (1973). Se impressionou o diretor de O Exorcista, então é um filme que fãs do gênero precisam assistir, não é mesmo?

Audição (1999)

O mais novo dessa listinha completou seu 20º. aniversário em 2019. O filme mais conhecido do cineasta malucão Takashi Miike, dentre a centena que ele já realizou até agora, não perdeu sua força e continua provocando debate até hoje.

Audição não começa como terror – Aliás, o espectador tem que esperar quase uma hora para que aconteça o primeiro momento “que diabo é isso?”, uma cena envolvendo um saco… Na verdade, no início parece um drama, quando vemos um homem, Ayoama (Ryo Ishibashi), presenciando a morte da esposa e tendo que criar seu filho sozinho. Anos depois, seu filho, já adolescente, pressiona o pai para que ele volte a namorar. Um amigo de Ayoama, que é produtor de cinema, o ajuda a elaborar uma pequena farsa: Para escolher “a mulher certa”, eles armam um processo falso de audição para um filme, e as mulheres que se apresentam pensam que estão disputando um papel. Depois de algumas entrevistas – e de cenas estilo “comédia romântica” – a escolhida é Asami (Eihi Shiina), uma jovem introvertida que… Bem, esconde alguns segredos. E cicatrizes. E um passado para lá de sombrio.

No início do filme um personagem diz “Todo mundo no Japão é solitário”, e o terror em Audição em justamente dessa necessidade de conexão que todos temos. Mas nunca se sabe de verdade como é a outra pessoa, não é mesmo?  Vai que ela tem alguém preso dentro de um saco em casa? Sob a ótica de Miike, não existem certos ou errados em Audição. Claro, Asami com o tempo se revela uma psicopata, mas apenas porque sofreu abuso nas mãos de um homem. E o “herói” masculino do filme, não se comporta de forma antiética enganando as pessoas? Embora até hoje persista a controvérsia em torno de Audição – é um filme feminista ou misógino? – em minha opinião é um filme na qual a visão niilista do seu diretor não poupa ninguém.

Além disso, gostando ou não do filme, dificilmente você esquecerá algumas das suas imagens, especialmente na meia hora final, que antecipa em alguns anos os filmes torture porn norte-americanos ou mesmo a onda de filmes extremos na França. Kiri kiri kiri, diz Asami, enquanto tortura brutalmente o seu pretendente. O horror de se realmente conhecer o outro, esse é o verdadeiro tema de Audição, e é de onde o filme extrai a sua força. Kiri kiri kiri…

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